Com dois anos de atraso, Serra inaugura trecho sul do Rodoanel em sua última grande ação no governo

Guilherme Balza

Do UOL Notícias
Em São Paulo

Atualizado às 11h22

Às vésperas de deixar o governo de São Paulo para se dedicar à campanha presidencial, o governador José Serra (PSDB) inaugura nesta terça-feira (30) o trecho sul do Rodoanel Mário Covas dois anos após o prazo previsto no início da obra, em 2003, quando o governador era o também tucano Geraldo Alckmin, atual secretário do Desenvolvimento. O prazo para a desincompatibilização se encerra nessa sexta-feira (2), data limite para os candidatos nas próximas eleições se afastarem dos seus atuais cargos públicos.

Com orçamento de R$ 3,6 bilhões, a obra é um dos carros-chefe do mandato do tucano, e deverá ser usada à exaustão como propaganda durante a campanha presidencial, assim como outras duas obras da área de transportes: a expansão do Metrô e a ampliação das marginais.

Veja a seguir o trecho inaugurado


O trecho sul do Rodoanel, com 57 km de extensão e quatro faixas de rolamento em cada mão, começa no município do Embu e termina em Mauá (ambos na Grande São Paulo), ligando as rodovias dos Bandeirantes, Anhanguera, Castello Branco, Raposo Tavares e Régis Bittencourt --todas elas perpassadas pelo trecho oeste do anel viário-- a Imigrantes e Anchieta, que unem a capital à Baixada Santista.

Este trecho é o segundo a ser inaugurado no anel viário. O primeiro, o trecho oeste, ficou pronto em 2002 e custou R$ 1,4 bilhão. Já a execução das obras do trecho leste --orçado em R$ 5 bilhões-- deve ter início ainda neste ano. O trecho norte, por sua vez, está em fase de estudos, e não há prazo para as obras começarem.

Efeitos no trânsito
A inauguração do trecho permitirá aos veículos que chegam da capital pelo interior acessarem as rodovias Imigrantes e Anchieta sem ter de transitar pelo centro expandido da capital.

A tendência é que diminuam os congestionamentos nas marginais Pinheiros e Tietê, na chegada à capital por algumas das principais rodovias e na avenida dos Bandeirantes, que recebe diariamente um fluxo intenso de caminhões que partem de várias regiões do país rumo ao porto de Santos. O governo paulista estima a redução de 43% no movimento de caminhões na marginal Pinheiros e de 37% na Bandeirantes.

Segundo estudo encomendado pela Artesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo) ao Lincoln Institute of Land Policy, a obra reduzirá temporariamente o trânsito na marginal Pinheiros e na avenida dos Bandeirantes, mas terá efeito insignificante nos congestionamentos da Grande São Paulo.

Para o engenheiro de tráfego Gabriel Feriancic, o Rodoanel é uma “boa medida para segregar o tráfego de passagem (trânsito dentro da cidade) dos grandes deslocamentos” e poderá ser uma alternativa nos dias de longos congestionamentos nas áreas centrais também para motoristas que transitam dentro da Grande São Paulo. “A avenida Bandeirantes deve sofrer um alívio com relação ao trânsito de caminhões, mas no pico da tarde deve continuar congestionada”, diz Feriancic

Assim como o trecho oeste, onde há cobrança de pedágio (R$ 1,30) desde dezembro de 2008, o trecho sul será pedagiado, com valores até R$ 6. No entanto, não há prazo definido para o início da cobrança, já que a concessionária ainda não foi escolhida. A expectativa é de que 257 mil veículos transitem pelos trechos do Rodoanel diariamente durante os 35 anos de concessão, segundo a Artesp.

Obra cercada de polêmica
A construção do trecho sul foi projetada e administrada pela estatal Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa), mas a execução da obra, iniciada em maio de 2007, ficou a cargo de cinco consórcios, cada um responsável por um lote do trecho. Integram os consórcios algumas das principais construtoras do país: Andrade Gutierrez, Galvão Engenharia, Odebrecht, CR Almeida, Serveng Civilsang, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, OAS, Mendes Júnior e Carioca.


Em dezembro de 2009, o Ministério Público Federal em SP encaminhou representações pedindo a abertura de inquérito contra a Camargo Corrêa por fraudes em licitações e superfaturamento em 14 obras espalhadas pelo país, entre elas a do Rodoanel. O dinheiro desviado teria sido utilizado no financiamento de campanhas eleitorais de vários políticos.

O Ministério do Transportes, por meio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), incluiu entre suas principais obras o trecho sul do Rodoanel e desembolsou R$ 300 milhões, o que representa um pouco mais de 8% do que foi gasto na obra. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e cinco bancos internacionais emprestaram, juntos, quase R$ 2 bilhões para financiar a obra.

Em agosto de 2009, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que propagandas do governo paulista omitem investimentos federais em obras, afirmação negada pela Dersa na época. A acusação do presidente rendeu alfinetadas de José Serra, que disse que o governo federal anuncia empréstimos via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) como se fossem investimentos em obras.

A batalha entre petistas e tucanos em torno do Rodoanel também foi travada na Assembleia Legislativa do Estado, onde nos últimos oito anos deputados da oposição fizeram várias tentativas para instalar a CPI do Rodoanel com o intuito de investigar supostas irregularidades na execução da obra, mas nunca conseguiram recolher o número suficiente de assinaturas, já que a base aliada forma a maioria na Casa.

Atraso e queda de vigas
O governo do Estado previa o início das obras do trecho sul em 2003, após a conclusão do trecho oeste, e sua entrega para 2008. O principal motivo para o atraso na conclusão das obras foi a dificuldade para conseguir licenças ambientais. Grande parte do trecho sul atravessa uma área de mananciais, nos arredores das represas Guarapiranga e Billings. Na região, há trechos de mata nativa e ao menos três aldeias de índios guaranis.

Segundo a Secretaria de Comunicação do Estado, em janeiro de 2007, quando Serra assumiu o governo, houve uma readequação dos contratos com as construtoras e o estabelecimento do prazo de março de 2010 para a entrega da obra. A secretaria evitou responsabilizar pelo atraso nas obras as gestão anteriores, também tucanas, de Geraldo Alckmin e Mário Covas.

Em setembro de 2009, um laudo feito por um supervisor ambiental das obras afirmou que os impactos ambientais superaram as previsões do governo. Ele citou uma região com 15 córregos, fora da área de concessão do Rodoanel, que desapareceram por conta do assoreamento, e apontou deficiências no projeto de drenagem que provocaram alagamentos ao redor da obra, afogamento de árvores e assoreamento em parte da Billings. Na época, a Dersa argumentou que os problemas ambientais não eram significativos e que eles foram agravados pelas chuvas.

Já em 13 de novembro do ano passado, um novo empecilho: três vigas de 85 toneadas e 40 metros despencaram de uma altura de 20 metros no viaduto do Rodoanel sobre a rodovia Régis Bittencourt, atingindo três veículos e ferindo três pessoas. Segundo relatório emitido pelo Tribunal de Contas da União (TCU), o consórcio formado pelas empreiteiras OAS, Mendes Júnior e Carioca usou vigas pré-moldadas não previstas para os novos viadutos do trecho sul com o objetivo de baratear custos.

O IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), órgão ligado ao governo estadual, avaliou que a queda da viga foi resultado de três fatores: falta de horizontalidade das superfícies das bases de apoio; insuficiência de atrito na interface das vigas com as bases de apoio e falta de travamento adequado das vigas.

Especialistas entrevistados pelo UOL Noticias na época afirmaram que a pressa para entregar as obras em um prazo favorável do ponto de vista eleitoral está por trás dos acidentes em grandes obras, entre elas a do Rodoanel.

*Com informações de Arthur Guimarães, do UOL Notícias, e da Folha Online

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