Sem UPP, subúrbio do Rio tem taxa de homicídio 20 vezes maior do que área pacificada

Fabio Leite

Do UOL, no Rio

Excluídos até hoje pelo governo do Rio de Janeiro no plano de instalação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), bairros do subúrbio carioca com favelas historicamente dominadas pelo tráfico de drogas ou por milícias registraram, nos últimos 12 meses, uma taxa de homicídios até 1.900% maior do que a de bairros nobres da capital que tiveram seus morros pacificados.

Isso significa que, na prática, o risco de um morador da Pavuna, bairro da zona norte onde não há UPP, ser violentamente morto é quase 20 vezes maior do que o de um turista em Copacabana, bairro da zona sul que conta com três unidades instaladas.

Levantamento feito pelo UOL com base nas estatísticas do ISP (Instituto de Segurança Pública) do Rio mostra que, entre maio de 2011 e abril deste ano, a taxa de homicídios no extremo norte da capital foi de 47,9 casos por 100 mil habitantes.

Foram 254 vítimas de homicídio doloso ou roubo, lesão corporal e resistência seguidos de morte. O número fez da região que abriga 15 bairros, entre eles Acari, Irajá, Pavuna, Ricardo Albuquerque e Vicente de Carvalho, a mais violenta da capital.

No mesmo período, a taxa de homicídios na região que abrange Copacabana e Leme (zona sul) foi de 2,4 casos por 100 mil habitantes, a mais baixa da cidade. Maior centro hoteleiro do Rio, o bairro onde moram 163,3 mil pessoas recebeu três das seis primeiras UPPs do Rio. O resultado foi uma queda de 84% das mortes violentas, de 25 vítimas em 2009, ano da primeira unidade, para quatro nos últimos 12 meses.

Por outro lado, no Morro do Chapadão, na região da Pavuna, quatro suspeitos foram mortos num único dia em uma operação do Bope (Batalhão de Operações Especiais), há três semanas. Sem UPPs, bairros do extremo da zona norte, onde moram 530 mil pessoas, têm sido palco cada vez mais frequentes de ações da Polícia Militar que, invariavelmente, terminam em troca de tiros e mortes.

Localização das UPPs no Rio

Reduto de milícias

Essa também é a realidade de quem mora no extremo da zona oeste, berço das milícias cariocas. Na região de Santa Cruz e Guaratiba, por exemplo, a taxa de homicídios foi de 43,6 casos por 100 mil habitantes. Na área vizinha de Bangu e Realengo, campeã das mortes violentas da capital (268 vítimas), a taxa foi de 39,4 casos.

Já em Campo Grande, onde os grupos armados formados por policiais e ex-policiais controlam serviços públicos, como transporte coletivo, a taxa foi de 33,4 homicídios por 100 mil habitantes. Para efeito comparativo, a taxa de mortos na Guerra do Iraque em 2004 foi de 34,9 vítimas, segundo o Global Burden of Armed Violence. No Rio, a taxa é de 27 casos por 100 mil habitantes.

Juntas, essas três áreas do subúrbio da zona oeste do Rio somam 1,6 milhão de moradores, 26% da população carioca (6,3 milhões), e assistiram a 37,5% de todas as mortes violentas registradas na capital (1.715) nos últimos 12 meses.

Mas quando o assunto é UPP, a conta é inversamente desproporcional. Das 23 unidades instaladas até hoje na capital, 12 ficam na zona norte, a maior parte na Grande Tijuca, cinco na zona sul, quatro no centro e apenas duas na zona oeste (Cidade de Deus e Batam).

A crítica feita às UPPs por especialistas em segurança pública é justamente pelo fato de o governo ter priorizado a região do chamado corredor hoteleiro da cidade e as áreas que receberão eventos internacionais, como o estádio do Maracanã na Copa de 2014, e o sambódromo na Olimpíada de 2016, ambos na zona norte, em vez das zonas historicamente mais violentas do Estado, como o subúrbio carioca e a Baixada Fluminense.

“As UPPs estão basicamente na zona sul e na Grande Tijuca. As áreas contempladas na zona oeste foram específicas, não correspondem a uma estratégia territorial. Em Batam, por exemplo, houve o caso dos jornalistas que foram sequestrados e torturados [em maio de 2008]. O que a gente cobra é que a UPP escolha as áreas mais violentas. Como isso não aconteceu até agora, não surpreende que os números de mortes violentas sejam elevados nessas regiões”, afirma Ignácio Cano, coordenador do Laboratório de Análises da Violência da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

Migração da violência

Além de terem sido preteridos pelas UPPs, os bairros do subúrbio sofrem ainda com a migração da criminalidade das áreas pacificadas. “Desde a instalação das UPPs na zona sul e na Grande Tijuca, nós vemos o fator migratório da violência exatamente para essas áreas das zonas norte e oeste, que foi potencializado desde a tomada do [Complexo do] Alemão [em novembro de 2010]. Isso já aumenta a incidência de confrontos”, diz Sandro Costa, vice-coordenador de segurança humana da ONG Viva Rio.

Em novembro de 2011, o Exército ocupou o Alemão
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Esse processo fez com que o número de mortes violentas no subúrbio continuasse praticamente estável no último ano, enquanto houve uma queda de 7% dessas ocorrências na cidade como um todo na comparação do primeiro trimestre de 2012 com igual período em 2011. Na região da Pavuna, por exemplo, qua fica a cerca de dez quilômetros das UPPs do Alemão, foram 93 casos nos três primeiros meses deste ano ante 94 no mesmo período do ano passado.

"Creio que isso se deve a essa migração da criminalidade, que foi muito intensa para essa região do 41º Batalhão (Pavuna). É um desdobramento quase lógico. Os criminosos migram das áreas com UPPs para as regiões mais próximas comandadas pela mesma facção. E essa região se tornou uma das mais complicadas da região metropolitana", completa Costa.

Escolhas técnicas

Questionado sobre a ausência de UPPs em áreas recordistas em homicídios, o secretário da Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, disse que a escolha das áreas pacificadas não é política e segue critérios técnicos, como índice de criminalidade, tamanho da população e equipamentos públicos na região.

"É a escolha de Sofia. Você precisa começar por algum lugar. Porque se começasse pela zona norte, vocês [jornalistas] iam dizer que começou pela zona norte e não pela zona sul, onde tem o apelo turístico, o apelo do PIB. Não optamos nem pela zona sul nem pela zona norte. Optamos por uma pequena [favela] porque não tínhamos a chance de errar. Então fizemos Dona Marta [em 2008, na zona sul], e depois já pulamos para o Batam e Cidade de Deus [zona oeste], pelo princípio da oportunidade. Então, não é opção política que vem para beneficiar A, B ou C. Não existe isso. Tanto é que nós vamos chegar lá [subúrbio], pode ter certeza", promete Beltrame.

Segundo a secretaria, “o objetivo primordial das UPPs é a retomada de território pelo Estado” e não reduzir taxas de homicídio. “Por esse motivo, áreas com altas incidências criminais, como a Baixada Fluminense, necessitam prioritariamente de outras medidas, já que as UPPs não resolvem todos seus conflitos”, informou em nota.

A pasta afirma ainda que já fez um estudo para fazer uma “redistribuição equitativa do efetivo da PM com base nas incidências criminais e no tamanho da população” de cada região. Além disso, diz o governo, “está sendo estudado o regime adicional de serviço para completamento do efetivo da PM em áreas com maiores incidências criminais, com pagamento de horas extras a PMs de folga".

Para o subúrbio da zona oeste, o governo promete intensificar as investigações para prender as milícias, “responsáveis por grande parte dos homicídios praticados na região”. “Há, ainda, a previsão de implantação de uma UPP na região de Santa Cruz”, diz a secretaria. A meta do governo é instalar 40 unidades até 2014, fim da gestão Sérgio Cabral (PMDB).

Em 2010, onda de ataques violentos assustou o Rio
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