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Moradores do Rio protestam contra derrubada de árvores centenárias para obras da Transoeste

Alunos pregaram desenhos de mãos pretas em sinal de luto para protestar contra corte das árvores - Fabíola Ortiz/UOL
Alunos pregaram desenhos de mãos pretas em sinal de luto para protestar contra corte das árvores Imagem: Fabíola Ortiz/UOL

Fabíola Ortiz

Do UOL, no Rio de Janeiro

15/08/2012 15h16

As obras de construção do corredor de ônibus BRT (Bus Rapid Transit, na sigla em inglês) da Transoeste estão tirando o sono de moradores do bairro de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. Não apenas pelo barulho de britadeiras, mas pela ameaça iminente do corte de duas árvores centenárias na avenida Cesário de Melo, localizadas no traçado da via expressa.

Moradores do bairro se mobilizam para impedir o corte das “Gêmeas do Rosário”, como ficou conhecida a dupla de árvores, pois estão bem em frente do Colégio Nossa Senhora do Rosário, no bairro de Campo Grande. Pais, alunos, professores e moradores do bairro organizaram um protesto no canteiro das árvores, nesta quarta-feira (15), para expressar tristeza caso as gêmeas sejam removidas.

“É uma dor, são duas árvores que foram plantadas tão próximas uma da outra que viraram uma só, siamesas. Ali era praticamente o nosso jardim, nós as decorávamos para as festas”, disse Denise Costa, 39, responsável pela parte de eventos que há 21 anos trabalha na escola

“Temos fotos antigas do bairro de Campo Grande que mostram que, antes mesmo da construção da escola, elas já estavam lá. São o símbolo do bairro.” O colégio foi construído em 1945, e fotos históricas dão conta de que as gêmeas já existiam antes mesmo do Rosário. Nesta quarta, alunos pregaram desenhos de mãos pretas em sinal de luto para chamar a atenção, além de desenhos e cartazes.

Isabele Lima, 14, aluna do 9º ano do colégio Rosário, disse que ficou indignada. “Todo mundo começou a falar na escola que elas iriam embora. Elas são históricas aqui, a gente já tirou várias fotos de turma. Elas são muito importantes pra gente. Vão cortar as árvores e vai ser muito perigoso com a Transoeste. Vai passar muito carro aqui, e a gente saindo do colégio”, disse Isabele.

Nascido e criado no bairro, Mauro Portugal, 37, criou uma comunidade virtual no Facebook sobre a história de Campo Grande e foi um dos mobilizadores da manifestação. “Campo Grande era um bairro verde, e hoje nós vemos que não tem mais verde. Essa vai ser a primeira de muitas manifestações. Campo Grande está crescendo desordenadamente. A gente não é contra o BRT, mas a favor do progresso sustentável.”

A escola recebeu a informação de que elas seriam cortadas no ano passado, quando as obras do BRT começaram. Parte do terreno da escola também teve que ser desapropriada. “Mas tínhamos a esperança de que elas ainda fossem preservadas. Todos se indignaram ao saber que elas seriam retiradas”, disse ao UOL Denise Costa.

Nesta semana, um abaixo-assinado de mais de 500 assinaturas será encaminhado para a Subprefeitura como protesto. Os moradores criticam que não foram consultados sobre o projeto de implantação do BRT. Um recuo de mais de cinco metros sobre a calçada da escola já está sendo feito para as obras da Transoeste.

“Esse é o momento de botar em prática o que foi discutido na Rio+20. Que os engenheiros tenham outra solução e façam uma obra subterrânea ou um desvio para a outra calçada, que só tem carros estacionados. Isso é uma vergonha. É um egoísmo dizer que essas árvores estão incomodando”, disse ao UOL a ativista do Greenpeace Cátia Souza, 48, também moradora de Campo Grande.

As árvores siamesas foram identificadas como da espécie ficus, que podem a atingir cerca de 60 metros de altura.

56 km

Com 56 quilômetros de extensão, a Transoeste é a primeira grande obra viária de preparação da cidade para a Copa de 2014 e para as Olimpíadas de 2016. O corredor expresso de ônibus circulará por 40 quilômetros e promete reduzir de duas para uma hora a viagem entre os bairros de Santa Cruz e Barra da Tijuca.

No dia 6 de junho foi inaugurada a primeira fase do projeto e a ligação entre Santa Cruz e Campo Grande está prevista para inaugurar no segundo semestre. Em nota, a Secretaria Municipal de Obras informou ter identificado “a necessidade de retirada das árvores para realizar a obra de alargamento da via”.

Contudo, ainda não há previsão de remoção, pois os técnicos da Secretaria de Obras aguardam a autorização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, assim como a medida compensatória exigida pelo órgão.

Durante a obra da Transoeste, já foram removidas 1.533 árvores e, como compensação, a promessa é de que sejam plantadas 19.652 mudas como medida compensatória.

Outro caso parecido ao das gêmeas do Rosário foi o da figueira centenária localizada próxima ao viaduto Orlando Raso, no cruzamento das avenidas das Américas e Salvador Allende. Na época, um movimento de moradores chegou a ser criado para pedir a permanência da figueira. Naquele caso, no entanto, a árvore não estava nos planos da prefeitura por não atrapalhar o trajeto da via expressa.

Cotidiano