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"Seita do fim dos tempos" aguarda mudanças em fazenda de SP

Reprodução/Site Céu Nossa Senhora da Conceição
Gideon dos Lakotas receberá centenas de pessoas em sua fazenda Imagem: Reprodução/Site Céu Nossa Senhora da Conceição

Priscila Tieppo

Do UOL, em São Paulo

14/12/2012 06h00

Reza a lenda que o fim do mundo acontecerá no próximo dia 21. Pelo sim, pelo não, um grupo denominado Céu de Nossa Senhora da Conceição, que se autointitula universalista – com a união de diversas crenças, inclusive o xamanismo e a utilização da bebida ayahuasca, da religião do santo daime -, vai passar 21 dias em um retiro espiritual para aguardar as mudanças planetárias em que acreditam.

O xamã Gideon dos Lakotas, cujo nome verdadeiro é Emiliano Dias Linhares, receberá centenas de pessoas em sua fazenda em Pariquera-Açu (214 km da capital), interior de São Paulo, para presenciar este dia.

Para tanto, o grupo se preparou seguindo a orientação de Gideon, que agrega várias filosofias e pesquisas científicas para se apoiar em seus discursos e textos publicados em seu site.  Gideon, no entanto, não quis responder os pedidos de entrevista da reportagem do UOL, limitando-se a dizer apenas que “o mundo não vai acabar” e que estava “atarefado com os preparativos para o retiro”.

Foi recomendado que os participantes levassem roupas especiais para câmara fria (usada em frigoríficos), pois para eles, a Terra pode ficar na escuridão por três dias e, assim, esfriar mais que o normal. Há a estimativa de que os termômetros cheguem a -35° graus.  O conjunto que inclui blusa, calça, botas, capuz e luvas é comprado por R$ 220, para quem encomenda aos organizadores do retiro.

A teoria de que a Terra pode sofrer este resfriamento foi estudada no meio científico. Dr. Michio Kaku, conhecido como o físico do impossível e professor da Universidade de Nova York, acredita que com o crescimento do planeta acima do normal, a Terra pode se distanciar do sol a ponto de não receber luz suficiente. A tese, porém, não dá previsões de datas para isto acontecer.

Além das roupas, eles farão uma alimentação especial, denominada vegetarianismo simbiótico, em que só é permitido comer alimentos que “não morrem ao ser retirados da natureza”, como as frutas e alguns legumes. É preciso pagar uma taxa de R$ 480 para participar e levar alimentos.

Não há uma programação definida para estes 21 dias, que começam no próximo dia 15. Mas para os participantes, a importância do retiro é estar “na mesma frequência, com pessoas que partilham da mesma fé”, como relata Tatiana Guerra, 32, madrinha de um dos pontos de luz do grupo, que ficam espalhados pelo Brasil.

Tatiana frequenta o grupo há 5 anos e disse que o dia 21 de dezembro é uma data importante. “É a entrada da nova era. Fecha um ciclo e começa outro. Será uma mudança forte, mas não sabemos como vai ser”, disse.

A ideia de fechamento de ciclo é similar com a explicação de especialistas sobre o calendário maia. O professor especialista em cultura maia da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), Alexandre Navarro, explicou que o dia 21 de dezembro de 2012 foi obtido com base em cálculos feitos a partir dos calendários antigos dos maias, que a cada 5.126 anos previam o fim de um ciclo e não o fim do mundo, como foi divulgado. “No mundo maia nada termina, tudo se transforma”, disse Navarro.

Segundo Guilherme Tonini Amorim, 24, que frequenta o grupo há 4 anos, uma das teorias para esta data é que a Terra fique três dias na escuridão, o que faria com que ela se transformasse em “uma geladeira”. Com essa mudança planetária, Amorim acredita em uma transformação. “O nosso corpo vai mudar, nesse planeta não vai existir mais sofrimento, tristeza, é uma limpeza”, disse.

O livro "2012: A Era de Ouro", dos autores Carlos Torres e Sueli Zanquim, lançado em 2009, já falava sobre o que os esotéricos acreditam ser uma "mudança cósmica e planetária". Na obra, é relatada a nova era como uma fase de fartura. "Não veremos o apocalipse, tampouco o fim do mundo, veremos sim um novo tempo de exuberância, abundância e prosperidade", diz o texto.

Xamã

Emiliano Dias Linhares, que adotou o pseudônimo de Gideon das Lakotas, é ex-policial militar, tendo se afastado do cargo em 2005. Mora em uma fazenda de Pariquera-Açu, onde realizará o retiro espiritual. Ele é tratado pelos membros do grupo como xamã ou padrinho.

Em 2010, Linhares teve seu nome divulgado na mídia por atacar a comunidade frequentada pelo cartunista Glauco e por seu filho, Raoni Vilas-Boas, que morreram naquele ano, sendo assassinados por um rapaz que fazia parte do grupo, denominado Céu de Maria, fundado pelo cartunista.

Linhares afirmou que o Cefluris, instituto ambiental daimista ao qual pertence a comunidade Céu de Maria, e seus líderes eram “narcotraficantes” e que utilizavam drogas como crack e cocaína em seus rituais.  O instituto, na época, disse que moveria ação por calúnia contra Linhares e negou as acusações.

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