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"Me senti enojada", diz jovem que acusa PM de chamá-la de "gostosa" no Rio

Anne participava do protesto em favor da greve dos professores, há dois dias, quando foi presa por desacato - Reprodução/Facebook
Anne participava do protesto em favor da greve dos professores, há dois dias, quando foi presa por desacato Imagem: Reprodução/Facebook

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

09/10/2013 13h07

"Me senti enojada. Essa é a palavra correta". Assim a estudante Anne Melo, 20, detida por desacato durante o protesto de segunda-feira (7), no centro do Rio de Janeiro, descreveu o momento no qual teria, segundo ela, sido chamada de "gostosa" por um agente da Tropa de Choque da Polícia Militar.

Revoltada, a jovem hostilizou a guarnição --que passava pelo Bairro de Fátima, no centro da capital fluminense-- com adjetivos como "ratos", "imundos" e "cachorrinhos do Cabral", e acabou recebendo voz de prisão de um policial identificado como "tenente Ávila".

"A mulher hoje em dia não é respeitada. Não é muito diferente no dia a dia. Você passa na rua e os homens mexem com você. Mas vindo de um homem fardado, policial militar, é ainda mais absurdo", disse ela.

"Na hora em que o tenente Ávila me deu voz de prisão, pedi para reconhecer o policial que me chamou de gostosa, e disse que queria que ele fosse junto comigo para a delegacia. Mas o tenente disse que eu estava mentindo e que não tinha direito de reconhecer ninguém", completou.

Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra o momento em que a jovem foi detida sob acusação de desacato. Anne foi levada pelos policiais militares à 12ª DP (Copacabana), na zona sul do Rio, onde a ocorrência foi registrada.

DETIDA NO RIO, JOVEM DIZ QUE FOI CHAMADA DE "GOSTOSA" POR PM

Procurada pela reportagem do UOL, a assessoria da PM informou que, no distrito policial, Anne assinou um termo circunstanciado e foi liberada em seguida. A corporação não comentou a acusação da manifestante sobre a suposta conduta do agente da Tropa de Choque.

Ainda de acordo com a Polícia Militar, "eventuais problemas de conduta dos policiais podem ser informados" aos órgãos competentes (Ouvidoria e Corregedoria). Fatos como esse também podem ser relatados à Delegacia de Polícia Judiciária Militar.

Bronca da mãe

Anne revelou ainda ter levado uma bronca da mãe no momento em que ela soube que a filha havia sido detida. A jovem estava sem documentos de identificação e teve que ligar para a mãe, que a encontrou na delegacia.

Porém, ao tomar ciência de que a filha havia sido chamada de "gostosa" por um PM, a mãe manifestou apoio, na versão da estudante. "Essa é uma situação complicada. A cabeça do jovem revolucionário, que quer mudar o mundo, é um pouco diferente. Os pais estão acostumados com o mundo do jeito que ele está", disse. "Mas ela me deu apoio quando soube o que aconteceu", completou.

Anne contou que estava em casa no momento em que a Tropa de Choque agia no sentido de dispersar os manifestantes que corriam pelas ruas do centro do Rio --na avenida Rio Branco e em outros pontos da região, houve vandalismo e depredações do patrimônio público e privado.

"Eles subiram o Bairro de Fátima de forma extremamente agressiva, mesmo sabendo que não tinha ninguém lá. Os moradores ficaram revoltados com isso e desceram dos prédios jogando garrafas de vidro e outros objetos em direção à PM. Eu também desci para fazer o meu barulho. Foi nesse momento que subiu uma carreata de motos [da Tropa de Choque] e um dos soldados que estavam na garupa mexeu comigo [chamando-a de 'gostosa']. Quando eles desceram, um outro policial também fez uma brincadeirinha. Ele perguntou se a minha mãe estava boa", relatou.

A estudante disse que o trajeto entre o centro da cidade e a delegacia de Copacabana foi feito "basicamente em silêncio". O tenente que deu a voz de prisão, segundo Anne, disse a ela que ficasse calada porque "ele não estava ali para ouvir merda de patricinha mimada".

Questionado sobre a condução à 12ª DP, na zona sul, e não ao distrito policial da região, a 5ª DP (Mem de Sá), o oficial da Tropa de Choque teria respondido a Anne que esta era uma "ordem superior", conforme relato da jovem. "Primeiro eles disseram que me levariam para a 17ª DP, em São Cristóvão, mas mudaram para a 12ª DP quando eu entrei na viatura. O tenente disse apenas que era uma ordem superior", declarou.

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A manifestante afirmou também que está lidando "numa boa" com a repercussão do caso, e que não terá medo de levá-lo adiante --para a Justiça e para a Corregedoria da Polícia Militar. O único receio, segundo ela, diz respeito a eventuais represálias. "Eles são ruins e covardes. Posso muito bem ser abordada na rua, por exemplo, e levada para algum lugar. Eu vejo isso como uma ditadura militar. Assim como na ditadura, pode acontecer de eu sentar em uma praça e ser presa", disse.

Anne revelou que saiu da delegacia já sabendo da data da primeira audiência referente à ocorrência, que ocorrerá no dia 9 de dezembro, no Juizado Especial Criminal. Ela tem a esperança de reconhecer o policial militar que a teria chamado de "gostosa". "Lá eu vou ter o direito de falar para o juiz tudo o que aconteceu, de fato. O policial também vai estar lá", finalizou.

Choque foi "além de suas atribuições", diz PM

A Polícia Militar do Rio de Janeiro divulgou nota na noite desta terça-feira (8) na qual afirma que a Tropa de Choque foi "além de suas atribuições, apagando um incêndio num ônibus [da linha] 324", em referência à atuação dos agentes no protesto da noite de segunda-feira (7), no centro da capital fluminense, que terminou em confronto entre a PM e manifestantes conhecidos como "black blocs".

Na ocasião, por volta das 20h50, mascarados que participavam da passeata em favor do movimento dos professores --a categoria está em greve desde o dia 8 de agosto-- depredaram e atearam fogo em um ônibus na avenida Rio Branco. As chamas teriam sido apagadas, na versão da PM, pelos homens da Tropa de Choque. Outros dois veículos também foram tomados por manifestantes e por pouco não foram incendiados.

O comando da Polícia Militar informou ainda que "começou a agir com todos os seus recursos adequados" no momento em que os black blocs começaram a cometer atos de vandalismo na rua Evaristo da Veiga, na lateral da Câmara de Vereadores.

"A corporação pautou suas ações pelo patrimônio público e privado, conduzindo 18 suspeitos para delegacias da Polícia Civil", informou a PM, em nota.

Apesar da visível ausência da Polícia Militar durante a passeata, que seguiu pela avenida Rio Branco em direção à Cinelândia, a assessoria da corporação disse hoje que cerca de 750 homens e mulheres foram empregados na segurança do ato, "atuando em ruas adjacentes". "A PM avalia que sua atuação evitou danos ainda maiores ao centro da cidade", finalizou.

Depredação

Durante o protesto, um grupo de manifestantes jogou ao menos três bombas caseiras (coquetel molotov) na porta lateral da Câmara dos Vereadores pela rua Evaristo da Veiga -- onde há também um quartel da PM. Após a terceira bomba, a porta quase pegou fogo. A confusão começou por volta das 20h. Grupos de manifestantes quebraram também agências bancárias.

Logo depois, dois grupos da tropa de choque da PM cercaram os manifestantes que tentavam colocar fogo na Câmara e conseguiram dispersar o grupo. Cinco ônibus foram queimados no centro da cidade. Um pouco antes, a reportagem do UOL presenciou um intenso confronto entre manifestantes e policiais -- cinco guarnições do choque entraram em ação com dezenas de bombas de efeitos moral e muitos tiros de bala de borracha para dispersar o grupo.

Manifestantes também jogaram muitas pedras no Consulado Americano durante os protestos que ocorreram na noite desta segunda. As janelas da instituição ficaram quebradas. Policiais militares do Batalhão de Choque se posicionaram próximo ao consulado e dispersaram os manifestantes com bombas de gás e de efeito moral.

A entrada do edifício Serrador, sede da empresa de Eike Batista, foi totalmente destruída pelos vândalos. Eles usaram os próprios tapumes para quebrar as vidraças. Na semana passada, policiais e manifestantes entraram em conflito com o saldo de 23 feridos.

Após a entrevista, o presidente da Câmara caminhou com fotógrafos e jornalistas pelas salas, segundo ele, atingidas pela depredação. O gabinete da liderança do DEM foi o local mais destruído, com vidros da janela quebrados e material incendiado.  No chão, havia um morteiro e restos de uma garrafa que, segundo a brigada de incêndio da casa, era de um coquetel molotov lançado por manifestante.

Em outro local atingido, o Gabinete Militar, além dos vidros quebrados havia pedras e um forte cheiro de gasolina. Na sala do cerimonial, restos de um par de sapatos feminino queimado, ainda segundo a brigada militar, jogado por manifestante para provocar incêndio no local.

Destruição na Alerj

No dia 18 de junho deste ano, a região central do Rio de Janeiro já havia presenciado a depredação de uma casa legislativa fluminense: funcionários da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) ficaram presos na Casa enquanto os manifestantes invadiam o prédio por uma janela lateral. Os manifestantes lançaram pedras e bombas dentro do prédio.

Na ocasião, o Batalhão de Choque demorou algumas horas para retomar o controle do prédio e das ruas no entorno. Muitas balas de borracha e bombas de efeito moral foram disparadas pelos PMs, e os manifestantes dispersaram rapidamente após a chegada da polícia.

Os 20 PMs feridos que aguardavam socorro dentro do prédio da Alerj foram retirados do local, assim como os funcionários da Casa.

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