Com seca, mar invade rio São Francisco e deixa água salgada

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Piaçabuçu (AL)

  • Beto Macário/UOL

    Piaçabuçu (AL) tem 3.500 pescadores que sobrevivem da pesca no São Francisco

    Piaçabuçu (AL) tem 3.500 pescadores que sobrevivem da pesca no São Francisco

Ao chegar ao povoado de Potengy, em Piaçabuçu (142 km de Maceió), o cheiro de mar dá as boas-vindas na tradicional comunidade de pescadores no litoral sul de Alagoas. Mas distante 7 km do oceano, o local deveria ter outro cheiro, de rio, já que fica às margens do São Francisco. Acontece que a seca e a consequente redução da vazão do "Velho Chico" fez com que o mar invadisse ainda mais o leito do rio. A água salgada serve para o abastecimento da cidade e fez peixes marítimos serem capturados onde antes era água doce.

A vazão normal média liberada para pelas barragens de Sobradinho e Três Marias (BA) é de 1.300 m³/s (metros cúbicos por segundo). Desde 2013, a vazão vem sendo reduzida por conta da seca que atinge o Nordeste. Naquele ano, foi reduzida para 1.100 m³/s e foi caindo até, no final do ano passado, chegar aos 800 m³/s. Cada m³ equivale a 1.000 litros.

A redução ocorreu após decisão da ANA (Agência Nacional de Águas) em dezembro de 2015. Sem chuvas regulares desde então, existe a previsão de uma nova redução em breve.

A medida causou prejuízos à população de Piaçabuçu. Como o abastecimento na cidade depende exclusivamente do rio, a água ofertada atualmente aos moradores é salgada. Para piorar, na cidade não há saneamento básico, e todos os dejetos são jogados no rio.

Beto Macário/UOL
Piaçabuçu não há saneamento básico, e todos os dejetos são jogados no rio

O São Francisco tem uma importância vital na cidade: Piaçabuçu tem uma das maiores comunidades de pescadores de Alagoas, com 3.500 cadastrados na colônia do município.

Jaelson Costa Santos, 60, é um deles. Ele diz que houve uma "mudança grande" no comportamento dos peixes na parte baixa do rio com o menor volume de água.  "A gente agora só pega peixe do mar aqui no rio. Só quando a maré está baixa é que ainda encontramos algum peixe de água doce, mas, mesmo assim, em quantidade menor. Mudou demais depois que baixou o nível."

O presidente da Colônia de Pescadores da cidade, Antônio Amorim, relata que além da redução de espécies, se tornou frequente a captura de peixes fora de seu habitat. História ou não de pescador, ele conta que um tubarão de cerca de 40 quilos foi capturado no rio a 1 km de distância do mar no ano passado --quando a vazão ainda era de 900 m³/s.

"Isso ocorre na maré alta, que empurra os peixes para dentro e arrasta tudo. Mudou demais o comportamento dos peixes aqui na região do baixo São Francisco", diz.

Até as lavadeiras de rio sentiram a salinidade. "A água agora não faz nem espuma quando colocamos sabão. A roupa fica mal lavada, o sal estraga a água", conta Maria José dos Santos, 54, que lava roupa todo dia no rio São Francisco.

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Jaelson Costa Santos diz que é comum encontrar peixes de água salgada no rio

Mais hipertensos

Por conta da alta salinidade da água, o número de hipertensos saltou na cidade, especialmente no povoado de Potengy. Segundo os dados das duas agentes de saúde da comunidade, o número de doentes acompanhados cresceu 36% em 2016.

"Na minha região o número subiu de 42 para 59. E na da colega, de 37 para 49 acompanhados por hipertensão. Foi um aumento muito desproporcional, que só tem o rio salgado como explicação", diz a agente de saúde Sueli Soares, que trabalha há 16 anos no local.

Beto Macário/UOL
Maria José dos Santos diz que a água salgada estraga a roupa

A médica cubana que atende a comunidade, Amparo Oporto, confirma que os casos de hipertensão cresceram e, para atender a demanda, a unidade de saúde definiu um dia na semana exclusivo (a quarta-feira) para atender pacientes hipertensos e diabéticos.

"O aumento da salinidade está diretamente ligado a esse número de pacientes, porque o sal e a hipertensão estão ligados. Nós distribuímos hipoclorito para evitar a contaminação da água, mas ele não diminui a salinização. E nem todos têm como comprar água e tomam água diretamente do rio, que é suja", explica.

Na quarta-feira (27), em que o UOL visitou a comunidade, dona Maria Helena Calixto, 72, contou que bebe água do rio São Francisco sem tratá-la. Hoje, ela é acompanhada por sobre de hipertensão e de diabetes. Ela afirma que percebeu o aumento da salinidade da água e até brincou com a situação "Tem vez que a água está doce, tem vez que está salgada. A gente nunca sabe."

Na escola da comunidade, a prefeitura envia água mineral para produção das refeições dos alunos. "A água encanada é salgada, não presta para cozinhar, para fazer um suco, para nada da merenda", contou a diretora da escola, Vanilda Dantas.

Beto Macário
Maria Helena Calixto bebe água do São Francisco e se trata de hipertensão

Sistema de abastecimento

O aumento do sal na água levou a Casal (Companhia de e Saneamento de Alagoas) a adotar um sistema de abastecimento com intervalos de oito horas com água nas torneiras e três sem. "Fizemos estudos e notamos que, uma hora após a maré começar a encher, a salinidade fica maior e a água fica sem qualidade. Precisamos fazer isso pela primeira vez no município", disse Eduardo Moraes, chefe de Núcleo da Casal em Piaçabuçu.

O problema se torna mais grave porque 90% das 2.900 unidades consumidoras do município não possuem caixa d'água para armazenamento e ficam desabastecidas durante as paralisações. Para amenizar o problema, Moraes disse o Estado vai comprar e doar mil caixas d'água para moradores de menor renda.

Beto Macário
Piaçabuçu tem uma das maiores comunidades de pescadores de Alagoas

Uma das moradoras que sofre com a salinidade e parada de abastecimento é a dona de casa Luzânia Farias Batista, 49. Ela conta que, para cozinhar, precisa pegar água doce em uma cacimba que fica a cerca de 5 km da cidade. "Vamos lá de barco. Não tem como cozinhar com essa água, e temos que estocar água para conviver com essas paralisações. É triste."

O operador da estação de tratamento do município disse que uma solução que inicialmente foi pensada foi a perfuração de poços, mas que logo foi descartada. "Os poços perfurados encontraram água com maior salinidade que a do rio São Francisco, não serve para uso", afirmou Moraes.
Ele explica que a solução definitiva para o problema seria a construção de mais 5 km de adutora, que fariam com que a água fosse captada em um ponto mais distante do mar e, consequentemente, menor salinidade. "Mas isso custaria R$ 4 milhões, e Casal agora não tem esse recurso para a obra", afirma.

Risco dos poços

Segundo o presidente do Comitê da Bacia do São Francisco, Anivaldo Miranda, já existe um processo em análise sobre conflito da água, solicitado pela Prefeitura de Piaçabuçu. Para conclusão, ainda falta que a prefeitura envie laudos que provem a salinidade da água para dar seguimento.

"Mais grave que a água encanada, que acredito que a Casal analisa, temos as pequenas comunidades que retiram água dos poços, sem nenhum controle técnico. Estamos procurando as universidades federais de Alagoas e Sergipe para que iniciemos, rapidamente, uma análise dessa água", disse.

Medida necessária

Segundo o superintendente adjunto de Operação e Eventos Críticos da ANA, Marcelo Jorge Medeiros, a redução da vazão é uma medida necessária para garantir o abastecimento em períodos de maior seca. "É como uma poupança: temos agora um saldo que estamos usando, mas o crédito que entra é menor", disse.

Medeiros usa como exemplo o relatório do dia 28, quando o reservatório de Sobradinho recebeu uma média de 330 m³/s por segundo e liberou 824. "Se não houvesse esse reservatório, em vez de 800, estaria chegando esses 330. Sem esses reservatórios e controle a situação estaria bem pior", explicou.

Hoje, o reservatório de Sobradinho está com 19% da capacidade, e Três Marias, 32%. Segundo ele, para garantir o enfrentamento de mais uma possível seca, a ANA já solicitou estudos e simulações para uma nova redução de vazão em breve.

"Vamos ver os impactos. Existem órgãos que vão apresentar para vários cenários, e quem tem de tomar essa decisão é da ANA. Hoje a situação não está melhor, e essa medida pode ser necessária para não chegarmos ao período de estiagem com reservatório muito baixo", disse.

Procurada pelo UOL desde a segunda-feira (25), a Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco) não respondeu aos questionamentos, nem indicou uma fonte da empresa para falar sobre os reservatórios (que são de sua gestão) e sobre o monitoramento da salinidade que a empresa faz da água na foz do São Francisco.

Na escola da comunidade, a prefeitura envia água mineral para produção das refeições dos alunos. "A água encanada é salgada, não presta para cozinhar, para fazer um suco, para nada da merenda", contou a diretora da escola, Vanilda Dantas.

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