Diego Herculano/AFP

Violência no Rio

Famílias enterram jovens mortos na Cidade de Deus: "choro da mãe do bandido é o mesmo"

Alfredo Mergulhão

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Fábio Motta/Estadão Conteúdo

    Familiares e amigos acompanham o sepultamento do corpo de Leonardo Martins Silva Júnior, um dos sete mortos na favela Cidade de Deus

    Familiares e amigos acompanham o sepultamento do corpo de Leonardo Martins Silva Júnior, um dos sete mortos na favela Cidade de Deus

Os corpos dos sete homens encontrados mortos no último domingo na Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro, quando um helicóptero da Polícia Militar caiu na comunidade, foram enterrados na tarde desta terça-feira (22).

Três deles foram sepultadas no  cemitério São Francisco Xavier, no Caju: Leonardo Camilo da Silva, 30, Marlon César Jesus de Araújo, 22, e Renan da Silva Monteiro, 20. Leonardo Martins Silva Júnior foi enterrado no Cemitério de Ricardo de Albuquerque, na zona oeste, onde uma tia fez um discurso forte para os jovens escolherem o próprio futuro e não aceitarem o rótulo de bandidos.

Os velórios no Caju ocorreram simultaneamente, fora das capelas, na via principal do cemitério. Na ocasião, os familiares voltaram a acusar policiais de terem assassinado os jovens.

"Não sou hipócrita para falar que estamos enterrando trabalhador. A gente sabe que eles não estavam certos. Mas o ser humano merece uma morte digna, e a deles não foi. A morte deles foi brutal", disse a manicure Renata Rosa, 40, tia de Araújo.

É muito doloroso ver as pessoas comemorando essas mortes.

Renata Rosa, tia de Marlon César Jesus de Araújo

"A sociedade precisa saber que as mães não são coniventes com o crime. A nossa dor é igual à de qualquer um", afirmou Renata. "O choro da mãe do bandido é o mesmo da mãe do policial."

Uma tia de Leonardo Camilo, que preferiu não se identificar, disse apenas que espera que a justiça seja feita para compensar o fato de o sobrinho ter deixado três filhos pequenos para criar.

Leonardo era primo do jogador de futebol Camilo, do Botafogo. O atleta esteve no enterro e ficou emocionado várias vezes ao fazer orações pelo primo. Ele não quis dar entrevista e pediu para não ser fotografado.

O clima no velório e no enterro era tenso. Os repórteres que acompanhavam a cerimônia foram abordados três vezes, com ordens para mostrar o que estava registrado em seus celulares. Do lado de fora do cemitério, havia seis viaturas policiais.

"Eu temia que ele acabasse assim"

Cerca de 40 pessoas acompanharam o velório de Silva Júnior no Cemitério de Ricardo de Albuquerque. Ele foi enterrado na véspera de completar 21 anos. O pai dele, o pastor Leonardo Martins Silva, lembrou, emocionado, o momento em que encontrou o corpo do filho.

"Poderoso é Deus. Eu falei que ia buscar meu filho e ninguém ia matar a gente. Entramos no brejo. E eu vi meu filho. Ninguém me contou. Ninguém vai calar minha voz. Não tenho medo de ninguém. Quem vai desafiar o Deus vivo? O Bope?" Silva afirmou que o filho tem marcas de faca, além de ter sido atingido por tiros. Ele acredita que o rapaz tenha sido executado.

Tia de Leonardo Júnior, Gisele Silva fez um apelo para que os jovens presentes no velório não aceitem o rótulo de "bandidos e favelados". "Eu fui abandonada pela minha mãe biológica, fui adotada e minha mãe criou quatro filhos sozinha na Cidade de Deus. Passamos fome, mas somos todos honestos. Vocês têm escolha. Vocês podem mudar o destino de vocês", disse.

Amigos e parentes entoaram músicas religiosas. Talitta, 19, irmã caçula de Leonardo Júnior, se desesperou. "Irmão, arrancaram um pedaço de mim". A mãe dele, Claudia da Cruz, precisou ser amparada.

"Há dois anos eu pedi ao Senhor que prendesse ele. Porque eu temia que ele acabasse assim. Esse é o caminho sem volta", disse a madrasta, Leila Martins Silva.

Os outros três mortos também tinham enterro marcado para esta terça-feira.

Rogério Alberto de Carvalho Júnior, 34, e Robert Souza dos Anjos, 24, tinham enterro marcado para as 15h no cemitério de Inhaúma. Já o corpo de Enzo João Beija da Silva, 17, seria enterrado às 16h no cemitério do Pechincha.

Todos os corpos foram localizados pelos próprios parentes em uma área de mata na favela, após uma operação policial. Os familiares acusam a PM de execução.

Segundo a polícia, todos eles tinham anotações criminais por tráfico de drogas ou roubo. A Delegacia de Homicídios investiga a autoria dessas mortes.

No domingo, o secretário de Segurança do Rio, Roberto Sá, disse que não vai tolerar nenhum excesso por parte dos agentes de segurança. (Com Estadão Conteúdo)

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