MPF denuncia caseiro da "Casa da Morte", em Petrópolis, por estupro e sequestro

Do UOL, no Rio

  • Tânia Rêgo - 25.mar.2014/Agência Brasil

    Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis, recebe um beijo na cabeça durante audiência pública da Comissão Nacional da Verdade

    Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis, recebe um beijo na cabeça durante audiência pública da Comissão Nacional da Verdade

O Ministério Público Federal no Rio de Janeiro denunciou nesta segunda-feira (5) o caseiro do local que ficou conhecido como "Casa da Morte" durante a ditadura militar. Conhecido como "Camarão", o ex-sargento do Exército Antonio Waneir Pinheiro Lima é acusado pelos crimes de estupro e sequestro da militante política Inês Etienne Romeu em 1971.

Na época dirigente das organizações Vanguarda Popular Revolucionária – VPR, VAR-Palmares e Polop -, Inês foi sequestrada por militares em São Paulo. Ela foi levada para a chamada "Casa da Morte", um centro de prisão e tortura clandestino situado em Petrópolis, na região serrana no Rio, em maio de 1971.

De acordo com o MP, entre 7 de julho e 11 de agosto de 1971, Camarão manteve a vítima contra sua vontade dentro do centro ilegal de detenção, ameaçando-a, afirmando que a mataria, e utilizando recursos que tornaram impossível a defesa da vítima. "Em razão de sua militância estudantil e política, Inês Etienne Romeu tornou-se alvo do governo ditatorial brasileiro, tendo sido perseguida e monitorada por órgãos de inteligência, sequestrada, presa ilegalmente, torturada e estuprada conforme demonstram várias provas amealhadas na investigação", afirmam os procuradores da República Antonio Passo Cabral, Sergio Suiama e Vanessa Seguezzi na denúncia.

"Além das torturas reconhecidamente aplicadas como padrão aos presos políticos no regime militar (choques elétricos, pau de arara, cadeira do dragão, espancamento), Inês ainda sofreu com a maldade de seus carcereiros, que a maltratavam apenas para seu divertimento. No inverno de Petrópolis, onde a temperatura podia chegar a menos de 10°C, era obrigada pelos carcereiros a deitar nua no cimento molhado", narram os procuradores.

Segundo o MP, Inês tentou se suicidar quatro vezes durante o cativeiro. Em seu relato, ela descreve: "Por não ter me suicidado, fui violentamente castigada: uma semana de choques elétricos, banhos gelados de madrugada, 'telefones', palmatórias. [...] A qualquer hora do dia ou da noite sofria agressões físicas e morais. 'Márcio' invadia minha cela para 'examinar' meu ânus e verificar se 'Camarão' havia praticado sodomia comigo. Este mesmo 'Márcio' obrigou-me a segurar em seu pênis enquanto se contorcia obscenamente. (...) Durante este período fui estuprada duas vezes por Camarão e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros".

Inês morreu ano passado, em Niterói, na região metropolitana do Rio, aos 72 anos. Ela foi a única pessoa a ser libertada Casa da Morte. Pelo menos 20 pessoas teriam morrido após torturas no local durante a ditadura.

Os torturadores a liberaram acreditando que depois de três meses de tortura e cativeiro na Casa da Morte, ela não participaria mais da luta armada e até passaria a colaborar para o regime militar. A revelação foi feita pelo tenente-coronel Paulo Malhães, morto em 2014.

De acordo com o MPF, Camarão admitiu ser o caseiro da Casa da Morte, mas disse que não houve tortura no local e nunca viu entrada e saída de presos, posição questionada pelos procuradores. "O que um militar da Brigada Paraquedista estaria fazendo em serviço em uma casa em Petrópolis, e não em uma unidade militar, como um quartel? Todas as provas dos autos, documental e testemunhal, com o próprio depoimento da vítima, o reconhecimento do acusado por foto, a confissão de Camarão de que realmente era o vigia da Casa da Morte, passando pelas quebras de sigilo, busca e apreensão e interceptação telefônica, tudo mostra que o acusado é culpado pelos crimes que lhe são imputados".

Inês não pôde depor à Comissão Nacional da Verdade por um problema na fala. Mas a sua ida às reuniões do grupo possibilitou a identificação de seis torturadores da casa, ente eles "Camarão". Todo o reconhecimento foi feito com base em fotografias apresentadas pelos integrantes da comissão.
 

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