Após romper com CV, PCC matou ao menos 44 detentos em três meses em Roraima

Luan Santos

Colaboração para o UOL, em Boa Vista

  • Reprodução/Folha da Boa Vista

    Inscrições no chão da prisão após chacina mostram siglas de facções criminosas

    Inscrições no chão da prisão após chacina mostram siglas de facções criminosas

Desde o rompimento entre as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando (PCC), as mortes de presos aumentaram em Roraima, segundo dados oficias do governo do Estado. O PCC foi responsável pelos assassinatos de ao menos 44 detentos do Complexo Penitenciário Agrícola de Monte Cristo, em Boa Vista, nos últimos três meses. A unidade prisional é a maior de Roraima e é administrada pelo governo do Estado.

As primeiras mortes ocorreram em outubro, quando 10 integrantes do CV foram decapitados e carbonizados. Poucos dias depois, Frank Ferreira de Brito foi esquartejado na unidade. No mês de novembro, Tony Carvalho foi assassinado da mesma forma e o corpo de Jeferson Articlinioe foi localizado decapitado. A violência culminou com o massacre de 31 presos do complexo, nesta sexta-feira (6). Em todos os casos, a Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejuc) culpa o PCC. 

As facções criminosas estão em guerra pelo domínio do tráfico de drogas na fronteira do Brasil com países como Paraguai, Bolívia e Colômbia desde o ano passado. A relação entre as duas quadrilhas, até então pacífica, se desgastou nos últimos meses também por causa da disputa pelo comando do tráfico em alguns Estados. A relação entre as quadrilhas se agravou depois do assassinato do empresário e narcotraficante Jorge Rafaat Toumani, 56, em junho.

Apesar da disputa entre as duas facções, o secretário de Justiça do Estado de Roraima, Uziel Castro, atribuiu a chacina de sexta-feira a uma suposta "ação de política e propaganda" do PCC.

Em entrevista ao UOL, Castro afirmou que os assassinados eram "presos comuns", provisórios e condenados, mas sem ligação com facções criminosas - diferentemente do que foi dito, pela manhã, pela assessoria do governo do Estado e pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes.

"No nosso modo de pensar, o PCC quis politizar a facção. Quis fazer política de organização criminosa, mesmo, com uma espécie de propaganda de que são mesmo violentos. Como não tinha membros de outras facções no presídio, mataram quem estava lá e que não era do grupo deles, em quatro alas diferentes", afirmou Castro. ""Foi uma ação isolada de presos do PCC contra pessoas que não eram ligadas a nenhuma facção", completou.

Brasil já soma quase 16 mortes por dia em penitenciárias em 2017

Apesar do tom incisivo do secretário, essa já é a terceira versão oficial para o massacre ocorrido hoje às 2h30 (4h30 de Brasília). Logo cedo, a assessoria do governo do Estado afirmou que o caso havia envolvido presos do PCC e do Comando Vermelho, facções também envolvidas na morte de 56 presos no Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim), em Manaus, na última segunda-feira (2).

Mais tarde, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, disse que conversou com a governadora de Roraima, Suely Campos (PP), e constatou que as mortes em Boa Vista foram um "acerto de contas" interno entre membros do PCC. Ou seja, membros da facção teriam matado rivais do próprio grupo.

De acordo com Castro, no último dia 3 de novembro o governo transferiu 102 presos ligados ao Comando Vermelho que estavam no complexo de Monte Cristo para outras unidades prisionais em Boa Vista. Isso, na avaliação dele, refutaria a hipótese de vingança no massacre da última madrugada –ainda que mensagens com esse tipo de indicação, feitas em sangue, tenham sido fotografadas pelos detentos e enviadas a familiares.

"Foram três frentes de homicídios contra vítimas sem ligações com facções. Presos do regime fechado mataram presos do mesmo regime, assim como os preventivados e os que estavam na ala de segurança se mataram entre eles", disse Uziel, que lamentou o fato. "Foi uma barbaridade contra presos comuns e não entendemos o motivo. Não tem justificativa nem fundamentos para essa selvageria – a natureza humana é cheia de mistérios", definiu.

Nesta sexta, Uziel Castro, solicitou ao juízo da Vara da Execução Penal da Comarca de Boa Vista e ao Ministério Público Estadual (MP-RR) uma autorização de transferência de oito presos identificados como líderes de facções criminosas para presídios federais de segurança máxima. De acordo com o Governo de RR, atualmente, 18 presos do Estado identificados como líderes de facções encontram-se em presídios federais de segurança máxima, submetidos ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).

Presídio nunca passou por reforma em 30 anos

O secretário disse ainda que o complexo, mesmo sendo o maior do Estado, nunca passou por uma reforma em mais de três décadas de existência. Também não há bloqueadores de sinal de celular no local.

"Recebemos alguns aparelhos de raio-x, pistolas e raquetes de revista pessoal como legado das Olimpíadas, mas ficamos só com a promessa de receber viaturas, por exemplo. Mas muitas alas estão destruídas e a primeira reforma que seria feita, licitada em R$ 4,2 milhões em dezembro passado, está sub judice porque uma concorrente embargou a outra na Justiça", contou.

"União demorou demais"

Sobre recursos federais, lamentou: "O governo federal demorou muito para agir. De R$ 3,5 bilhões dotados no Orçamento da União para o sistema carcerário, vão liberar agora só R$ 1,3 bi. A União demorou demais, ela tem que ajudar os Estados –porque as facções que mal havia em Roraima ate dois anos atrás, por exemplo, evoluíram muito e estão avançando para todos os Estados", afirmou.

Castro declarou que, só do PCC, em Roraima, o governo "tem catalogados quase 600 presos identificados com data de batismo e até apelido", além de 300 do Comando Vermelho e da facção FDN (Família do Norte).

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