Polícia e testemunhas relatam confronto armado entre índios e moradores no MA

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Viana (MA)

  • Beto Macário/UOL

    Francisco Jansen, ferido em confronto em Viana (MA), diz que levou cinco tiros

    Francisco Jansen, ferido em confronto em Viana (MA), diz que levou cinco tiros

O delegado regional de Viana (MA), Jorge Pacheco, afirmou nesta quinta-feira (4) que a Polícia Civil já ouviu relatos que apontam para um confronto armado entre indígenas e moradores do povoado Baia, na zona rural do município, no último domingo (30). Treze pessoas ficaram feridas na ocasião.

Os índios que se autodeclaram da etnia gamela haviam alegado que houve um ataque de moradores e "jagunços" contra eles após uma ocupação ao sítio Ares Pinto e que não teria havido tiros contrários. Até o momento, oito testemunhas da comunidade e três índios --todos eles participantes do confronto-- foram ouvidos. 

"Foi um confronto entre os dois lados. Tivemos informações de que os dois lados estavam com armas de fogo, facões, facas, e os índios ainda com arco e flecha. E saíram pessoas lesionadas dos dois lados", diz o delegado.

Ele ainda afirmou que, apesar de 13 pessoas terem dado entrada em hospitais com ferimentos de tiros e armas brancas, pode haver mais pessoas que se machucaram, mas se trataram fora de hospitais. 

"Acredito que tenha mais feridos, mas só no desenrolar do inquérito saberemos. Mas sei que gravemente foram poucas."

Sobre os casos mais graves de dois indígenas que tiveram as mãos praticamente decepadas a golpes de facão, Pacheco informou que espera que elas tenham alta médica para que prestem depoimento.

"Nós teremos que ouvir a vítima. Ele é a principal testemunha e vai nos apontar quem praticou esse golpe. Nenhuma testemunha aqui indicou o autor", conta.

Por conta do episódio, a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão enviou cinco equipes de São Luís e de Pinheiro para reforçar a segurança. A Polícia Federal também está no local.

"Estamos fazendo rondas a todo momento e estamos atentos a tudo, e por enquanto não houve novas ocorrências", afirmou o tenente-coronel José Maria Aires, que foi enviado pelo governo do Estado para chefiar a ação militar na região onde houve confronto.

O tumulto

A confusão começou na tarde do domingo, quando índios decidiram "retomar" mais uma propriedade da área que dizem ter direito. 

Beto Macário/UOL
Carlos Augusto Nascimento, caseiro de uma das propriedades que autodeclarados índios gamelas tentaram retomar na comunidade de Viana (MA)
No momento da invasão, no início da tarde, havia apenas a mulher do caseiro da propriedade no local. Ela teria sido feita refém --fato negado pelos índios.

O caseiro da propriedade, Carlos Augusto Nascimento, conta que tinha saído para dar carona a um amigo e, ao saber da invasão por outra pessoa, voltou às pressas. Antes, informou a amigos e familiares da mulher sobre o caso e pediu ajuda policial.

"Cheguei e vi minha mulher refém, passando mal porque ela é operada e tem pressão alta. A porteira estava fechada e eles não me deixaram entrar, disseram que tinham retomado a terra; mas eu disse que era minha casa e que elas não podiam fazer isso", conta.

Nesse instante, moradores de povoados próximos --e onde quatro terras já haviam sido ocupadas por indígenas desde 2015-- souberam da invasão. Eles participavam de uma reunião no povoado de Santeiro, vizinho ao sítio, para discutir o problema com o deputado federal Aluisio Mendes (PTN). 

"Aí as pessoas souberam e foram para ajudar. É muita revolta. Foi muita gente, e começou então a falar com eles, e os índios gritavam, outros estavam escondidos na mata. Quando eles começaram a sair, um deles atirou na gente, aí nosso lado revidou e começou o tiroteio. Foi muita bala, corri e não vi mais nada, só depois soube dos feridos. Foi um milagre ninguém morrer", conta o morador Adjael Mendes.

Um dos feridos, o índio Francisco Jansen, nega a versão do tiro e diz que não houve confronto. "Já estávamos em retirada do local, quando o grupo começou a atirar, vindo em nossa direção. Nós estávamos voltando, foi um ato covarde. Na fuga, três dos nossos caíram e foram atacados a faca por eles", conta o indígena, que tem marcas de tiro pelo corpo. "Foram cinco tiros que levei", diz.

Chegada da Funai

Nessa quarta-feira (3), dois representantes da Funai (Fundação Nacional do Índio) chegaram a Viana e se reuniram para iniciar um levantamento de dados da situação e da área para que o processo pedido de demarcação caminhe. 

Hoje, não há nem sequer grupo de trabalho formado para analisar o caso. Somente após uma conclusão favorável do grupo é que poderá ter início o longo processo de demarcação. 

"Nós temos aqui 42 povoados na região, mas nem todos são índios. Há também trabalhadores rurais, assentados, quilombolas", explica a técnica da Funai Daiane Veras.

Sobre segurança no local, ela diz que é necessária uma força-tarefa interministerial, que inclui Ministério Público e polícias. "Esperamos que essa ação reduza a tensão e não permita ataques", diz.

Segundo o delegado José Pacheco, não há, nesse momento, espaço para novos conflitos. "O que pode ocorrer é um ato isolado, mas de grandes proporções, não, porque a área está muito policiada. Se alguém fizer, será preso", diz.

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