São Carlos: Polícia acusa família de enterrar caixão vazio para ficar com seguro

Eduardo Schiavoni

Colaboração para o UOL

  • Divulgação/Milton Rogério/São Carlos Agora

    Exumação em São Carlos encontra um saco de serragem em vez de um corpo após suposto golpe

    Exumação em São Carlos encontra um saco de serragem em vez de um corpo após suposto golpe

A Polícia Civil de São Carlos desvendou um golpe que, segundo as investigações, tinha como objetivo dar um desfalque milionário em seguradoras no interior de São Paulo. Um ex-agente funerário, a filha dele e o genro, que é vendedor de seguros, além de um médico, que assinou um atestado de óbito falso, foram denunciados.

Um caixão sem corpo chegou a ser enterrado, mas depois de uma denúncia anônima, a polícia encontrou a suposta morta e frustrou o golpe. Ela, Cristiane da Silva, 39, agora tenta provar que está viva e recuperar sua identidade civil.

Segundo as apurações, um ex-agente funerário, Eduardo Bezerra da Silva, 47, usou documentos de uma moradora de rua para fazer cinco apólices de seguro em quatro seguradoras diferentes. Os valores variavam entre R$ 800 mil e R$ 1,4 milhão, e ele colocou a filha, Sara Bezerra, como beneficiária. O grupo contava ainda com o genro do ex-agente, Thomas Lopes, um corretor de seguros, e um médico, Hugo Gusmão, que trabalhava na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e forneceu o atestado de óbito.

O esquema começou a ser arquitetado em junho do ano passado, quando Eduardo Bezerra da Silva conheceu a moradora de rua. Ele se aproximou dela e afirmou que iria ajudá-la. O ex-agente funerário deu dinheiro a Cristiane e levou-a até o Poupatempo, onde deu entrada na segunda via de documentos como RG e CPF. De posse dos protocolos, ele mesmo retirou os documentos. Cristiane, que é de Matão (SP), deixou a cidade de São Carlos meses depois, até então sem saber do golpe.

Em outubro, o genro de Eduardo fez seis apólices de seguros de vida em nome de Cristiane e colocou a mulher dele como beneficiária. A partir de então, o ex-agente funerário começou a cooptação do médico, que era conhecido da família, para o esquema.

O profissional da saúde só aceitou participar do golpe em janeiro de 2017. Ele atestou, na noite de 28 de janeiro, o falecimento de Cristiane, colocando morte súbita como causa do óbito. O endereço do ex-agente foi colocado como sendo residência da mulher declarada morta.

No dia seguinte, com o atestado de óbito e documentação, Eduardo Bezerra da Silva, que na época ainda trabalhava em uma funerária da cidade, preparou um caixão, que foi lacrado, e fez o enterro no cemitério Nossa Senhora do Carmo. Para isso, ele fez o pagamento dos custos do serviço, no valor de R$ 131,92, e comprou um túmulo para Cristiane, no valor de R$ 1.548,18.

O grupo esperou mais de dois meses para continuar o golpe. Em 20 de março, a filha do ex-agente foi ao cartório e, munida do atestado de óbito, conseguiu a declaração oficial de óbito, necessária para fazer o resgate das apólices.

Investigação

Nessa época, a Polícia Civil da cidade já havia recebido a denúncia e investigava o caso. O grupo ficou sabendo da investigação e não chegou a tentar resgatar as apólices.

Em abril, o delegado Walkmar da Silva Negré, responsável pelo caso, localizou a moradora de rua, em Matão. Ela contou à polícia detalhes da "ajuda" que recebeu do ex-agente funerário, que foi identificado na sequência pelas autoridades policiais.

"Conseguimos localizá-la e ela contou o que tinha acontecido. A partir daí, continuamos as investigações e chegamos à identidade dos envolvidos", conta Walkmar.

Após seguir as pistas, o delegado resolveu abrir inquérito contra os quatro envolvidos por estelionato, falsidade ideológica e associação criminosa. Além disso, solicitou à Justiça a exumação do caixão onde Cristiane supostamente estaria enterrada, o que aconteceu no último fim de semana.

O coveiro Aparecido Gonçalves, que participou tanto do enterro quanto da exumação do corpo, se disse surpreso com a audácia dos criminosos. Segundo ele, havia apenas uma pedra e um saco com material semelhante a serragem quando o caixão foi aberto. "Foi a primeira vez que eu desenterrei um caixão, abri e não vi o corpo", disse.

Segundo o delegado, Cristiane não teve nenhuma relação com o crime e não será indiciada. A advogada dela, Sandra Nucci, informou que a cliente foi enganada e que irá trabalhar, agora, para provar ao Judiciário que ela está viva.

Outro lado

O advogado de defesa dos envolvidos, João Carlos Cazu, afirmou que os seus clientes estão interessados em esclarecer o caso da forma mais rápida possível e que a ação do grupo não registrou nenhum prejuízo financeiro às seguradoras.

"Eu não posso dar detalhes, porque o inquérito está em fase de investigação, mas o importante é que todos os envolvidos estão empenhados em esclarecer isso da melhor forma possível. Tudo que está sendo feito é para provar o que realmente aconteceu e punir os responsáveis", disse.

A Polícia Civil não divulgou quais são as seguradoras prejudicadas, mas informou que elas já foram notificadas e que estão levantando a existência das apólices, que serão juntadas como provas no inquérito.

A polícia também não divulgou o nome da funerária onde o ex-agente trabalhava na época que começou a arquitetar o golpe, mas disse que ele pediu demissão dias depois de realizar o sepultamento falso e que a empresa não estava ciente da ação. Já a Prefeitura de São Carlos informou que o médico Hugo Gusmão não trabalha mais na UPA e que irá apurar o suposto desvio de conduta do profissional.

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