Trote de escola gaúcha cria polêmica e é acusado de zombar de profissões

Demétrio Vecchioli

Colaboração para o UOL

  • Reprodução/Youtube

    O tema "Se nada der certo" foi proposto aos alunos do 3º ano do ensino médio

    O tema "Se nada der certo" foi proposto aos alunos do 3º ano do ensino médio

O que é dar certo na vida? A questão está no centro de uma polêmica causada pela divulgação de trotes realizado por alunos do 3º ano do ensino médio de um colégio particular de Novo Hamburgo, no interior do Rio Grande do Sul. Para se adequarem ao tema "Se nada der certo", eles se vestiram como se representassem profissões como vendedor de loja, artista de rua e cozinheiro.

Em uma das imagens, duas adolescentes aparecem vestidas com o uniforme padrão de uma famosa loja de cosméticos. Em outra, uma jovem carrega um cartaz "Vendo minha arte". Há ainda o que parecem ser representações de mecânico, vendedor de bebida, atendente de fast food, empregada doméstica, entregadora de jornal e operadora de telemarketing.

A "brincadeira" causou grande repercussão nas redes sociais. "O 'se nada der certo' é ridículo porque ele desvaloriza um serviço que já é desvalorizado historicamente na nossa sociedade", criticou uma internauta, pelo Twitter. "Tem que ser muito privilegiado para achar que 'se nada der certo' (se você não conseguir um emprego valorizado) é só arrumar um subemprego", completou outro. "Se essa festa em escola de rico 'se nada der certo' com alunos 'fantasiados' de trabalhadores não é ódio de classe então não sei o que é", escreveu um terceiro.

A Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH) soltou uma nota de esclarecimento no Facebook. "A IENH, bem como os seus estudantes em momento algum teve a intenção de discriminar determinadas profissões, até porque muitas delas fazem parte do próprio quadro administrativo e são essenciais para o bom funcionamento da Instituição", escreveu.

O colégio, porém, deixou claro que considera primordial para que o futuro de um estudante "dê certo", que ele seja aprovado no vestibular. "O objetivo principal dessa atividade foi trabalhar o cenário de NÃO APROVAÇÃO NO VESTIBULAR [caixa alta usada pelo colégio], de forma alguma foi fazer referência ao 'não dar certo na vida'", continuou o IENH, que ainda pediu desculpas pelo "mal-entendido". O UOL tentou contato com a escola, mas não foi atendido até o fechamento da reportagem.

Os trotes de alunos do último ano do ensino médio são práticas comuns em diversos colégios do país, para descontrair e para arrecadar fundos para a festa de formatura. A repercussão do tema do trote do IENH, porém, acabou fazendo com que outros casos semelhantes fossem relembrados.

Um deles, do Colégio Marista Champagnat, de Porto Alegre, do fim de 2015. As fotos do trote, com o mesmo tema, começaram a ser compartilhadas por internautas nesta segunda-feira, chamando a atenção para o antigo caso. O colégio retirou as imagens do ar e soltou um comunicado: "O Colégio Marista Champagnat, de Porto Alegre, esclarece que o recreio temático aconteceu no ano de 2015 com estudantes do 3º ano do Ensino Médio. No mesmo ano, a partir de uma reflexão realizada com a comunidade educativa, entendemos que a temática não era apropriada, por isso não ocorreram outros episódios em anos seguintes.Temas como esse, que confrontam valores e profissões, não são condizentes com a nossa proposta pedagógica, que tem como premissa o respeito às pessoas. Lamentavelmente, a atividade aconteceu e, por isso, pedimos nossas sinceras desculpas."

Para o professor e pesquisador Wilner Arbey Riascos Sánchez, da Faculdade de Psicologia da USP, há uma hipervalorização da universidade como espaço único de ascensão social. "Nada garante que você consiga uma ascensão por sua formação profissional. Além disso, há inúmeras situações que mostram que essa ascensão pode vir mesmo sem a formação universitária tradicional", explica.
 
No entender do pesquisador, a sociedade cobra do adolescente que ele tenha determinados objetivos. "A pessoa que não se esforça para melhorar as condições de vida vai ser pensada como uma pessoa que não tem o fôlego de vida". E a consequência disso, segundo Sanchéz, é que os adolescentes acabam fazendo escolhas de vida ao escolherem suas profissões – ainda que essas escolhas venham a sofrer mudanças de rumo no futuro.
 
"É uma escolha que vai influenciar a identidade da pessoa. Vai definir a entrada dela no mundo do trabalho e vai ter influência em outros fatores que o trabalho vai colocar na vida do sujeito, como o lugar que ele vai ter na sociedade, o que ele vai conseguir consumir, o grupo de pessoas que ele vai lidar e os espaços que ele vai ocupar."  Ainda segundo o professor, a família, a classe social, as expectativas da sociedade perante a história de vida do adolescente e a expectativa que ele mesmo tem sobre seu futuro acabam influenciando essa escolha.

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