O que o Movimento Passe Livre deixou de herança 4 anos após as Jornadas de Junho?

Diego Toledo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Fabio Braga - 25.out.2013/Folhapress

    Manifestantes do MPL queimam a representação de uma catraca em protesto contra aumento das tarifas de transporte público em 2013

    Manifestantes do MPL queimam a representação de uma catraca em protesto contra aumento das tarifas de transporte público em 2013

O Brasil viveu cenas dramáticas em junho de 2013, quando milhares de pessoas tomaram as ruas de todo o país.

As manifestações que deixaram marcas ainda presentes na vida política brasileira começaram como protestos contra o aumento nas tarifas do transporte público. No centro do turbilhão, um grupo de jovens conduzia a mobilização, mas dizia não ter líderes e atuar de forma independente e autônoma. O Movimento Passe Livre (MPL) vivia o ápice de sua história.

Quatro anos depois, o auge da fama passou. É preciso procurar com algum esforço em universidades, escolas e até mesmo nas redes sociais para encontrar sinais de que o MPL ainda existe.

Mas os seus militantes garantem que o grupo permanece bastante ativo, apesar de reconhecer que dificilmente algum dia será possível provocar uma mobilização semelhante à vista durante as chamadas Jornadas de Junho.

"O movimento entende que o que aconteceu em junho de 2013 faz parte de uma conjuntura política daquele momento. A gente sabe que vai ser difícil aquilo acontecer de novo", afirma Diego Soares Thiago, 28, indicado pelo MPL para falar pelo grupo à reportagem do UOL. "O que mudou, de lá para cá, é que hoje a intenção do movimento é ir cada vez mais para a periferia."

A tentativa de criar laços com as áreas mais afastadas do centro, principalmente em uma cidade como São Paulo, ficou evidente nos anos seguintes às Jornadas de Junho. O grupo intensificou a distribuição de panfletos na porta de cursinhos e escolas e buscou organizar eventos em regiões diferentes da cidade.

Em 2015, por exemplo, o MPL alternou as manifestações que convocou entre a região da avenida Paulista e áreas mais distantes do centro, como corredores de trânsito movimentados nas zonas sul e leste da cidade. Mas os novos atos tiveram pouca visibilidade e não produziram efeitos significativos.

"Se você pensar na pauta do transporte gratuito, a estratégia de ir para a periferia faz sentido. Mas é um desafio enorme e muito complicado de enfrentar em uma cidade como São Paulo, tão heterogênea, tão distante", avalia a socióloga e pesquisadora Esther Solano, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Para Solano, depois de passar por uma crise interna, fruto da superexposição que viveu em 2013, o MPL vive agora uma fase de reorganização.

"A atuação deles hoje é muito mais parecida com o que era antes de 2013, muito mais específica. Junho de 2013 foi um momento muito catártico, que não vai se repetir de novo, mas isso não anula a ideia de que o movimento esteja trabalhando agora, mas com outros parâmetros e, obviamente, com menos impacto", afirma a socióloga.

Fabio Braga/Folhapress
Em 2016, os protestos contra tarifas foram para a periferia e se esvaziaram
O quase fim

A crise mencionada pela pesquisadora culminou em agosto de 2015. Depois da saída de diversos militantes do MPL, um deles publicou um texto em que dizia que o grupo havia chegado ao fim. 

O professor de história Lucas Monteiro, o "Legume", afirmava que o grupo foi "incapaz de superar os seus próprios limites ao não se pensar como um movimento inserido nas dinâmicas de lutas mais amplas dos trabalhadores".

No texto, Monteiro também criticava as contradições que nasceram de princípios do MPL como horizontalidade, autonomia, independência e apartidarismo. "A horizontalidade resultou em uma ojeriza à especialização", "a discussão democrática abriu espaço para a rediscussão eterna das decisões" e "a mistura entre afinidades políticas e pessoais levou a uma fusão entre os círculos de amizade com os de militância", escreveu o ex-militante em diferentes trechos.

Para Diego Soares, representante do MPL, as discordâncias apontadas por Monteiro e outros integrantes que deixaram o grupo foram superadas, embora ainda sejam motivo de discussão interna. "Hoje, entre os militantes que atuam de maneira orgânica, existe um consenso", afirma. "A gente entende que a maior lição de 2013 é que devemos ir para a periferia e dialogar com a classe trabalhadora."

O MPL foi criado formalmente em 2005, em Porto Alegre, durante o Fórum Mundial Social. Mas a origem do movimento é atribuída à Campanha pelo Passe Livre, iniciada anos antes, em Florianópolis, e a três ondas de manifestações marcantes contra o aumento das tarifas de transporte em capitais: a Revolta do Buzú, em Salvador, em 2003, e as duas Revoltas da Catraca, na capital catarinense, em 2004 e 2005.

Os protestos locais serviram de inspiração para a articulação do movimento a cada anúncio de aumento nas tarifas. "Quando aumenta a passagem, chama a atenção da população, e ali é uma oportunidade de falar da tarifa zero. A tarifa zero passa pela discussão da reforma tributária, que é o que pode viabilizar o passe livre", diz Soares.

J. Duran Machfee/Futura Press/ Estadão Conteúdo
Estudantes protestam contra reforma do ensino médio na avenida Paulista em 2016
Herança

O representante do MPL acredita que, ao ficar sob os holofotes em junho de 2013, o grupo deu contribuições importantes para o país.

Além de evitar naquele momento o aumento das tarifas, o movimento conseguiu a aprovação de uma emenda que passou a incluir o transporte público como um direito social previsto na Constituição.

Para Esther Solano, o MPL, de fato, alcançou feitos significativos com os protestos de 2013. "Se você pensar em termos de visibilidade da pauta, o MPL triunfou porque conseguiu barrar o aumento da passagem inicialmente e conseguiu colocar sobre a mesa uma pauta que estava muito esquecida, que é o transporte", afirma a socióloga.

A pesquisadora acrescenta ainda que o grupo também popularizou um novo modelo de organização mais horizontal, com um apelo maior junto aos jovens.

"Os jovens hoje não se identificam tanto com aquele modelo mais vertical, mais autoritário, de sindicatos e entidades estudantis", avalia Solano. "Os jovens hoje querem uma participação mais horizontal, querem ter voz, como estão acostumados nas redes sociais, de uma forma mais democrática, mais aberta."

A professora da Unifesp aponta a onda de ocupações de escolas públicas por estudantes secundaristas em 2015 como um movimento influenciado pela atuação do MPL.

"De forma direta, as escolas foram herança de tudo isso porque houve uma mobilização maior depois de junho. E, de forma indireta também, herdando esse modelo organizativo, mais horizontal, de autogestão, menos hierárquico."

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