Violência no Rio

Protesto em enterro do 91º PM do ano no RJ pede fim das UPPs: "Queremos um basta"

Giovani Lettiere

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Giovani Lettieri/UOL

Um protesto contra a política de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) marcou nesta terça-feira (25) o sepultamento do sargento da PM Hudson Silva de Araújo, 46, morto em operação no Morro do Vidigal --que possui uma UPP--, zona sul do Rio na madrugada do último domingo (23). Hudson é o 91º PM morto no Estado neste ano.

"Queremos um basta, a UPP é um projeto falido. Estão matando nossos maridos. Noventa e uma famílias destruídas só este ano. A população tem que se unir pelos policiais. Eu não aceito ser a próxima viúva", disse Rogéria Quaresma, uma das líderes do movimento, que reuniu cerca de 20 mulheres no cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, zona oeste da capital.

Além do fim do programa de UPPs, as mulheres pediam melhores condições de trabalho para os maridos policiais. O protesto se deu no começo do cortejo fúnebre. O secretário de Segurança Pública, Roberto Sá, chegou ao cemitério pouco antes do sepultamento.

Após o enterro, Sá consolou a viúva de Hudson, Fernanda de Araújo, que voltou o questionou sobre a violência que atinge policiais. "Até quando vai ser isso? Isso não vai acabar não? Perdi o meu marido, o pai das minhas filhas", afirmou Fernanda.

O secretário disse a ela que a legislação e o tráfico de armas contribuem para a violência contra PMs. "Violência tem no mundo inteiro. Mas aqui há muita ousadia. Temos leis fracas, que estimulam o crime. O adolescente que matou o [médico] Jairo Goldman, na Lagoa, foi preso de novo roubando. A gente tem que desarmar os criminosos. A polícia acaba ficando vulnerável."

Enquanto isso, o movimento de mulheres gritava pelo fim da política de UPPs: "Tem que acabar com a UPP!" Sá deixou o cemitério sem falar com a imprensa.

O comandante geral da Polícia Militar do Rio, Wolney Dias Ferreira, comparou a violência no Estado a uma guerra. "Os bandidos estão cada vez mais armados. O Rio hoje vive numa guerra. A polícia procura se superar. Vamos fazer o que pudermos para tranquilizar a população. Quanto à morte de policiais, estamos unificando as operações para evitar a letalidade."

Mais cedo, a funcionária pública Claudia Oki, 45, prima de Hudson, afirmou que a família não recebeu apoio do governo fluminense. "A família resolveu apoiar o movimento das mulheres dos policiais. Não temos como virar as costas para esse problema. Não recebemos nenhuma assistência do Estado, nem de Direitos Humanos. O Estado está devendo essa assistência."

 

Fernanda reclamou, durante o velório, de falta de amparo de ONGs de defesa de direitos humanos desde o assassinato do marido. "Não recebi nenhum tipo de contato de ONGs de Direitos Humanos. Nem quero mais falar. Nada vai trazer meu marido de volta", disse a viúva, muito emocionada.

A mãe do PM, Maria Araújo, e as duas filhas dele, uma de oito e outra de 13 anos, também estavam muito emocionadas. Colegas de Hudson, como Jairo Dantas, comandante da UPP do Vidigal, também prestaram a última homenagem ao policial.

Muitos amigos do policial usavam camisetas com a frase "Guerreiro não foge da luta. Hudson vive" impressa nas costas. Na frente, uma foto do policial, há 15 anos na corporação.

O sargento da Aeronáutica da reserva Carlos Alberto Montalioni, 55, era amigo de Hudson havia mais de 30 anos. "Conheço ele desde os tempos da Aeronáutica. Depois, Hudson foi para a Guarda Municipal até passar no concurso da PM. Faltava pouco para ele se aposentar, mas ele queria ficar mais para garantir um futuro melhor para a família. Não deu tempo. Estou muito triste. Era um bom amigo, bom pai, bom marido. Lamentável o que aconteceu. Até quando?", questionou Carlos.

Somos Todos Sangue Azul

Um grupo de mulheres e parentes de policiais --batizado de Somos Todos Sangue Azul, com direito a página nas redes sociais-- chamou a atenção durante o enterro. As cerca de 20 mulheres, todas usando camisas do movimento, fizeram barulho já no fim do velório do policial.

Com cartazes pedindo mais atenção para a PM, elas protestaram na saída do cortejo do corpo do sargento e, logo depois do sepultamento, chegaram a constranger o secretário Roberto Sá.

Depois do enterro, em conversa com o UOL, Carine Diniz, 30, uma das líderes do grupo, detalhou as reivindicações do movimento: "Queremos o fim das UPPs porque elas matam os policiais. Nosso grupo pede vida, dignidade e amparo estrutural por parte do Estado. Queremos que o Estado invista no policial daqui, com armamento melhor, viatura melhor, equipamentos melhores e mais seguros. Tem policial empurrando viatura. O policial está sem voz. Nós somos a voz que eles não têm. Queremos o básico, como salário em dia e hospital decente".

Ela também reclamou da Força Nacional, que pode ajudar no policiamento no Rio. "A Força Nacional é um problema. Eles não conhecem a cidade e ainda ganham melhor do que os nossos policiais", comparou Carina.

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