Cheia de graves problemas, rodovia já teve mais mortes este ano do que em 2016

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, no Recife

  • Divulgação/PRF

    Ônibus de turismo saiu da pista e capotou em Monte Alegre do Piauí, matando 9 pessoas

    Ônibus de turismo saiu da pista e capotou em Monte Alegre do Piauí, matando 9 pessoas

Somente nos seis primeiros meses deste ano, a BR-135, no Piauí, registrou 36 mortos e 73 feridos em 48 acidentes, segundo dados contabilizados pela PRF (Polícia Rodoviária Federal).

As fatalidades ocorridas apenas neste semestre já superaram todo o ano de 2016, quando 14 pessoas morreram. O alto número de vítimas reforça o nome de "rodovia da morte", usado pelos moradores locais.

As mortes na BR-135 ficam sem comparação com outras estradas porque a PRF diz que só vai ter dados atualizados sobre as rodovias mais violentas em dezembro, quando é divulgado o estudo dos trechos críticos colhidos entre outubro de 2016 e setembro de 2017.

De acordo com os dados referentes ao período que vai de janeiro a junho, 42% dos acidentes na BR-135 foram com veículos que saíram da pista, 26% se envolveram em colisão lateral ou frontal, 13% tombaram e 11% capotaram. As péssimas condições da estrada são apontadas como a principal causa dos acidentes.

Extensa, a BR-135 tem 2.661 km. Começa em São Luís (MA) e vai até Belo Horizonte (MG), passando pelos Estados da Bahia e do Piauí.

É exatamente nos 642,2 km que percorrem o Piauí que as condições da estrada são mais precárias. No Piauí, a rodovia começa no município de Guadalupe, que faz divisa com o Maranhão, e termina no município de Cristalândia do Piauí, onde margeia a Bahia. A situação precária foi constatada no relatório técnico de segurança viária desenvolvido pela PRF, que destaca acidentes entre o km 38, em Jerumenha (PI), e o km 642,2, em Cristalândia do Piauí (PI).

Relatório da PRF constatou problemas graves como desnível de asfalto (com diferença de até 35 cm), estreitamento de pista com dois metros de largura menor do que o necessário, falta de acostamento, geometria (ou seja, o desenho da estrada) irregular e falta de sinalização.

"As más condições na infraestrutura viária dessa rodovia têm contribuído com o aumento do índice de acidentes, especialmente, no trecho ao sul", destaca o relatório.

A CNT (Confederação Nacional dos Transportes) classificou, em relatório do ano passado (o mais recente disponível), que a estrada tem estado geral ruim, pavimento e sinalização regulares e geometria péssima.

Em junho, aconteceu o acidente mais violento deste ano na BR-135. Um ônibus de turismo saiu da pista e capotou no município de Monte Alegre do Piauí, no sul do Estado, matando nove pessoas e ferindo outros 18 passageiros que viajavam do Ceará para São Paulo.

Após as mortes, a PRF constatou que o trecho tem um grande desnível entre a pista de rolamento e o acostamento.

"O desnível de 20 cm entre a pista de rolamento e o acostamento pode ter contribuído para o acidente com o ônibus. Ao condutor, numa pista nessas condições, não é dada nem a chance de tentar se salvar de um acidente com gravidade maior", destaca Jonas Mata, inspetor da PRF.

Divulgação/PRF
Caminhão tomba na BR-135 no trecho da rodovia entre as cidades de Monte Alegre do Piauí, Colônia do Gurgueia e Elizeu Martins
No dia seguinte, dois caminhões e uma carreta carregados de mercadorias tombaram no trecho da rodovia entre as cidades de Monte Alegre do Piauí, Colônia do Gurgueia e Elizeu Martins.

Na mesma semana, seis pessoas morreram durante uma colisão frontal entre um carro de passeio e uma caminhonete entre os municípios de Bom Jesus e Gilbués.

No último sábado (22), um caminhão carregado com 30 mil litros de combustível saiu da pista e capotou no km 216, no município de Elizeu Martins, matando o motorista e ferindo um outro passageiro. A carreta viajava de Teresina para Bom Jesus.

O risco de explosão e de incêndio na vegetação com o derramamento de combustível na pista deixou o trecho da estrada interditado até a quarta-feira (26). Ainda não há previsão de liberação.

"Ao cruzar com um carro, o condutor desceu as rodas dianteiras do lado direito do asfalto, onde tem desnível de aproximadamente 30 cm. Ao tentar voltar para a rodovia, perdeu o controle e o caminhão capotou", informou o inspetor da PRF, destacando que a causa provável do acidente foi "defeito na rodovia".

No curto período de um mês, esses quatro acidentes mataram 16 pessoas.

Whindersson faz campanha por interdição

Instagram
O youtuber Whindersson Nunes apoia campanha pela interdição da BR-135
O piauiense Whindersson Nunes, youtuber que tem mais de 21 milhões de seguidores, publicou em seu perfil do Instagram um protesto contra as condições precárias da BR-135.

Nunes nasceu em Bom Jesus, a 150 km de Monte Alegre do Piauí, onde aconteceu o acidente com o ônibus de turismo.

O comediante apoia uma campanha organizada por moradores da região pela interdição da rodovia até que sejam feitas intervenções para diminuir os riscos de acidentes.

"Chega de mortes! Já perdi amigos demais nesta BR!!! Chega!", escreveu o humorista em um post de seu perfil no Instagram.

Carretas batem retrovisores ao passar por via

Com passagens sem acostamento, a BR-135 também tem problemas na largura da pista e é apertada para tráfego de ônibus e caminhões. Em vários trechos, a largura da rodovia fica entre 5 m e 5,2 m. No entanto, a metragem recomendada deveria estar entre 7 m e 7,5 m.

"A BR-135 é estreita. Muitas vezes as carretas de escoamento da produção de soja e de algodão tocam os retrovisores quando se cruzam na via", diz Jonas Mata.

Para tentar evitar acidentes, a rodovia tem restrições de tráfego de veículos pesados. Em feriados, por exemplo, carretas bitrem e rodotrem são impedidas circular.

Sem verbas para reformas

Divulgação/PRF
PRF constata desnível de 20 cm entre a pista de rolamento e o acostamento
O Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) afirma que a BR-135 foi construída em cima de uma antiga rodovia estadual, aberta na década de 1970, por isso seu traçado não é adequado nem está dentro dos parâmetros de uma rodovia federal.

"Ao longo dos anos, as exigências de segurança nas estradas aumentaram. Na época em que a rodovia foi federalizada, o fluxo de veículos era reduzido e a potência dos motores dos carros era diferente", diz o superintendente do Dnit no Piauí, Paulo de Tarso Cronemberger Mendes.

Ele discorda de que os acidentes sejam motivados "apenas pelos problemas da pista" e diz que há "um conjunto de fatores".

O Dnit afirma ainda que existe um projeto para correção da geometria, de alargamento de pista e construção de acostamento. A reforma está orçada em R$ 350 milhões, mas o Dnit não possui verba e não há previsão para início da obra.

"São 350 km que precisam ser reformados, mas não temos recursos. Precisamos sensibilizar a bancada federal para viabilização de verbas para execução desse projeto", disse o superintendente do órgão.

De acordo com o Dnit, o pavimento da rodovia foi recuperado e houve implantação de nova sinalização. Em quatro anos, foram gastos R$ 94 milhões na manutenção da BR-135.

"Estamos estudando com o Dnit nacional de que forma podemos fazer a recuperação dos pontos críticos. Uma alternativa seria viabilizar o contrato dentro do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] para recuperação dos acostamentos. Para isso, precisamos de R$ 60 milhões", explica Mendes.

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