Violência no Rio

Em coma, mototaxista baleado está algemado em cama de hospital no Rio, denuncia família

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Arquivo Pessoal

A família do mototaxista Gabriel Rodrigues, baleado na cabeça no último domingo (30) no morro da Coroa, em Santa Teresa, região central do Rio de Janeiro, acusa a Polícia Militar de ter atirado propositalmente contra ele. Segundo Andrezza do Nascimento, ex-mulher do mototaxista, mesmo em coma no Hospital Municipal Souza Aguiar, para onde foi levado, Rodrigues está algemado na maca da unidade.

"Ele estava na porta da casa de um amigo, onde tinha uma festa. A polícia chegou atirando. Não houve confronto, nada. Eles chegaram atirando e ainda disseram que a arma encontrada era dele. Mentira! Ele não é bandido. Foi ferido, está grave e ainda é tratado como bandido. Está algemado na maca de um hospital que nem tem vaga de UTI para ele", contou, emocionada a ex-mulher que tem um filho de três anos com Rodrigues.

"Ele falava todo dia com o meu filho por chamada de vídeo. Meu garoto não para de perguntar pelo pai. Nem sei mais o que dizer a ele. Fico inventando história para não precisar falar a verdade. Ele era um bom pai. Passava todo o final de semana com o filho", lamenta.

Na última terça-feira (1º), familiares e amigos fizeram um protesto contra a ação da PM no morro que terminou com Rodrigues ferido. A rua Pinheiro Machado, onde fica o Palácio Guanabara --sede do governo estadual-- foi interditada. Parentes foram recebidos por um representante da Secretaria de Segurança do Rio, que prometeu apurar o caso.

A polícia investiga se o mototaxista pode ser ou não considerado suspeito. A família diz que ele não tem envolvimento com o tráfico. Gabriel Rodrigues está internado em coma induzido no Hospital Municipal Souza Aguiar. O estado dele é considerado grave.

Separada há dois anos de Rodrigues, Andrezza acusa a PM de ter sumido com os pertences do ex-marido. "Ele foi socorrido pelos policiais. Saiu de lá com roupa, cordão, pulseira e chegou no hospital só de short e ainda botaram a arma na conta dele. Onde estão os pertences?", questionou.

Procurada, a polícia disse que a vítima foi baleada durante confronto entre policiais e traficantes. De acordo com nota da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), bandidos atacaram PMs que faziam patrulhamento na região. Uma pistola foi apreendida, mas moradores da comunidade negam que a arma seja de Gabriel.

A reportagem também questionou a PM e a Secretaria de Segurança Pública sobre a necessidade de uso de algemas em paciente em coma, mas a corporação e a pasta não haviam se manifestado sobre a questão até o começo da tarde de hoje.

O UOL procurou ainda a Secretaria Municipal de Saúde sobre o uso de algemas e a reclamação de falta de leito. A pasta informou que o paciente "vem recebendo assistência para seu quadro clínico" e será transferido para a UTI quando surgir uma vaga.

A direção do hospital afirmou ainda que "a custódia de um paciente e as medidas adotadas para restrição de liberdade são de responsabilidade da polícia". 

Em novembro do ano passado, o mototaxista Vantuil de Oliveira Zacarias, 35, foi morto no portão de casa na mesma comunidade. Parentes e amigos chegaram a fazer uma "vaquinha" para pagar o enterro. Zacarias foi atingido por uma bala perdida durante operação do Bope (Batalhão de Operações Especiais).

Em 2015, foi a vez do entregador de pizza Rafael Camilo Neris, 23. O jovem também foi morto durante ação do Bope na mesma região. Ele levou sete tiros.

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