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Ação da Rota em SP é enxugar gelo, diz analista; governo Alckmin apoia

Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo
Imagem: Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo

Luís Adorno e Luis Kawaguti

Do UOL, em São Paulo

24/08/2017 13h24Atualizada em 24/08/2017 13h24

A operação que colocou nas ruas de São Paulo praticamente todo o batalhão da Rota (tropa de elite da Polícia Militar) na quarta-feira dividiu opiniões de especialistas em segurança pública. Já o governo do Estado apoiou o comandante da unidade, Ricardo de Mello Araújo, o idealizador da ação.

Ao todo, 25 pessoas foram presas e três menores foram apreendidos na ação - que foi classificada pela SSP (Secretaria de Segurança Pública) como "importante". Foi a primeira vez que o batalhão da Rota agiu com todos os seus recursos em uma só operação, segundo seu comandante. 

Especialistas, no entanto, se dividiram sobre a eficiência da operação, que foi batizada de "Tolerância Zero".

"É importante mostrar a presença do Estado na rua, porque isso passa uma sensação de segurança para a população. A operação também é importante porque inibe a prática de delitos. O criminoso que saiu de casa para praticar um crime hoje pode ter visto a polícia e desistido", disse Hugo Tisaka, analista da consultoria de segurança privada NSA Brasil.

"Ou seja, a probabilidade de ocorrência de crimes numa ocasião como essas é menor. O único problema é que se o comandante colocou todos os seus homens nas ruas, ele não vai conseguir manter essa operação para mostrar presença por muito tempo. Porque os policiais têm turnos de trabalho, têm que executar tarefas internas, etc", afirmou.

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Tisaka diz que, num cenário ideal, operações do tipo deveriam ser rotina. "Eu gostaria que essas operações acontecessem sempre, isso seria muito positivo. Hoje por exemplo quando fui estacionar meu carro, os funcionários do valet estavam todos comentando que havia muitos policiais nas ruas. Ou seja essa sensação de que Estado está presente é muito importante para a população", afirmou.

Ainda segundo o especialista, se a Rota diz que está fazendo uma operação "Tolerância Zero", tem que ser "como a que ocorreu em Nova York, em que até os crimes de menor potencial ofensivo foram ser investigados", disse. "Seria bom se esse tipo de operação fosse estendido a outras instituições como a CET e a GCM.

Já para Bruno Paes Manso, pesquisador do NEV-USP (Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo), a operação da Rota não vai acabar com o crime organizado, mas pode ser entendida como uma lógica que já ocorre há 40 anos e que apenas trava uma guerra psicológica da polícia com criminosos.

"Será que o crime se controla pelo medo? Será que a ameaça de força tem sido o suficiente? A gente tem há 40 anos apostado nessa estratégia de guerra ao crime e guerra às drogas. A criminalidade não foi controlada. Apostar nesse remédio que não tem dado certo é a solução? Ou pensar na inteligência, [descobrir] onde se lava o dinheiro, quem são os grandes receptadores e como funciona o crime não seria melhor?"

Para Paes Manso, "colocar um exército na rua, como se houvesse inimigos a serem tratados numa cidade que não está em guerra, é um erro, justamente seguindo a estratégia do que está errado", afirmou. Segundo o especialista, a operação "mostra que falta alguém pensando política de segurança pública no Estado".

Tenente coronel Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, novo comandante da Rota - Marcio Komesu/UOL - Marcio Komesu/UOL
Comandante Mello Araújo afirma que operação foi "melhor do que o esperado"
Imagem: Marcio Komesu/UOL

Na mesma linha de raciocínio, Rafael Alcadipani, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), diz que "esse tipo de ação mostra que voltamos ao passado em termos de segurança pública em São Paulo". Segundo ele, "no momento em que a política de segurança pública do Estado mostra claros problemas, o governo volta ao velho bordão do populismo paulistano de 'vamos colocar a rota na rua'".

A sugestão de Alcadipani é de que haja ações coordenadas da segurança com outros organismos do Estado para diminuir a criminalidade. "Ações pontuais, sem planejamento e sem uma integração com outras áreas, como assistência social, educação e saúde não vão dar certo. Isso é enxugar gelo e adotar uma ação populista que nada resolve", disse. "Ou você vê segurança como um problema de várias áreas, com mapeamento de áreas vulneráveis e ações focadas, ou viveremos só apostando na mesma cartilha de sempre", complementou.

José Vicente da Silva Filho é ex-comandante da Polícia Militar e foi secretário nacional de Segurança Pública na segunda gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Ele também afirma ser contra esse tipo de operação. “O policiamento tem um emprego muito específico. Como a Rota faz um trabalho complementar, ela tem um direcionamento para certas áreas, como contra PCC, roubo de caixa eletrônico ou roubo de cargas. Em casos mais graves. Não pode ter a pretensão de achar que a Rota tem um efeito sobre a criminalidade. Os policiais não vão fazer mais do que os que já estão trabalhando em São Paulo”, disse.

“É o mesmo erro do Rio de Janeiro com o exército lá nas ruas. O ladrão fala: ‘hoje é ponto facultativo nosso’. E amanhã volta. O efeito demonstração não gera um resultado mais consistente. Não se pode achar que a Rota vai resolver, porque a Rota é necessária em outras ações”, complementou.

Ação independente

A ação, segundo o comandante da Rota, Mello Araújo, foi idealizada por ele, sem conversa com o governador Geraldo Alckmin (PSDB) ou com o secretário da Segurança Pública, Mágino Alves Barbosa Filho. "As ações e determinações são independentes", afirmou à reportagem.

"O planejamento operacional dos batalhões é feito de maneira técnica pelas unidades. Operações, como a deflagrada nesta quarta-feira pela Rota, têm apoio da pasta e do Governo do Estado, sendo importantes para o combate à criminalidade, como as mais de 10.000 operações Saturação realizadas em todo o Estado e a Operação 100 Dias na Capital e Grande São Paulo, somente neste ano", afirmou à reportagem.

Quem está à frente da pasta, interinamente, é Sérgio Turra. O secretário Mágino Alves Barbosa Filho está em férias.

O ouvidor das polícias de São Paulo, Julio Cesar Fernandes Neves, afirmou ter ficado surpreso com a ação e que torceu para que "não houvesse um resultado desastroso". "Essa operação surpreende todo mundo. A gente tinha uma expectativa de que isso não tivesse um resultado inverso como consequência, com enfrentamentos que resultassem em mortes e aumentassem a letalidade policial", disse.

À frente da ouvidoria, Neves tem a função de receber denúncias relacionadas a más condutas de policiais militares e civis de São Paulo e encaminhar os relatos, cobrando investigação, ao MP (Ministério Público) e corregedorias das duas corporações.

De acordo com o comandante Mello Araújo, a operação foi um "sucesso além do esperado". Com os 700 homens do batalhão na rua, foram 25 pessoas presas, sendo quatro procuradas pela Justiça, e três menores de idade apreendidos, além da apreensão de drogas.

 

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