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O PCC é a maior ameaça ao Paraguai, diz procurador jurado de morte

Ministério Público do Paraguai
Procurador paraguaio Hugo Volpe recebeu ameaça de morte em programa de rádio Imagem: Ministério Público do Paraguai

Leandro Prazeres

Do UOL, em Brasília

25/08/2017 04h00

Há dez meses, o procurador paraguaio Hugo Volpe, 36, só consegue se livrar de seus guarda-costas quando viaja para fora do país. Ele é um dos principais responsáveis pelas investigações sobre a atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) no Paraguai e esse tem sido o “preço a pagar”. 

Há duas semanas, um homem dizendo fazer parte do PCC ligou para um programa de rádio na cidade paraguaia de Amambay, na fronteira com o Brasil, e disse que Volpe seria morto se continuasse sua atuação contra a facção brasileira.

“Dá um alô pra ele, que estão perseguindo a turma do PCC. Avisa a ele que ele está na mira de uma ponto 50 (calibre de arma)”, disse o homem até agora não identificado.

A ligação serviu para que o procurador intensificasse suas precauções. “Não tem jeito. Quando se trabalha com isso, é o preço a pagar”, diz.

Em breve viagem de trabalho ao Brasil, Volpe concedeu uma entrevista exclusiva ao UOL, falou sobre o tamanho da ameaça que o PCC representa para a segurança paraguaia e não vacila em dizer que, atualmente, a facção que nasceu nos presídios paulistas é a maior ameaça à segurança do país vizinho.

“Hoje, o PCC é a maior ameaça à segurança no Paraguai”, afirma.

Confira os principais trechos da entrevista.

UOL - Qual o tamanho da ameaça que o PCC representa ao Paraguai hoje?

Hugo Volpe - A ameaça que o PCC representa para o Paraguai é bastante elevada. Hoje, o PCC é a maior ameaça à segurança no Paraguai. Já detectamos a instalação do PCC em diferentes departamentos do Estado do Paraguai, sobretudo na região fronteiriça. Um dos exemplos dessa preocupação é a magnitude do roubo à empresa Prosegur em Ciudad del Este. Há indícios fortes de que houve gente do PCC nisso. (Em abril deste ano, um grupo de assaltantes invadiu as instalações da empresa de transporte de valores Prosegur em Ciudad del Este, na fronteira do Brasil com o Paraguai, e roubou US$ 40 milhões [cerca de R$ 126 milhões]).

O PCC é a maior organização criminosa a atuar no Paraguai?

Nós acreditamos que sim. Também há indicações de que há ramificações do Comando Vermelho e, mais recentemente, tivemos indicações, desde janeiro, de que uma facção do Rio Grande do Sul está atuando lá também. A preocupação com isso é muito grande no governo paraguaio. Mas o PCC é a maior. Sabemos o potencial e a magnitude que essa facção tem e conhecemos muito pouco sobre ela. Por isso estamos recorrendo à cooperação internacional sobre o assunto.

Christian Rizzi/Fotoarena/Folhapress
Maior assalto da história do Paraguai pode ter tido ligação com o PCC Imagem: Christian Rizzi/Fotoarena/Folhapress

Os principais líderes do PCC estão presos em penitenciárias brasileiras que não conseguem impedir que eles comandem a organização. Quão perigoso é para o Paraguai o fato de o Brasil não conseguir interromper a comunicação dos chefes do PCC?

Este é um ponto sobre o qual precisamos ter muita atenção. É preciso considerar quais são as origens do PCC. Ele começou nos presídios de São Paulo. Esses chefes conseguem se manter muito fortes mesmo dentro das cadeias. Eles têm a capacidade de seguir comandando a organização a partir dos presídios.

Nós também detectamos que há várias pessoas recolhidas nas penitenciárias do Paraguai e que hoje estariam multiplicando o grupo nos presídios do Paraguai.

O Paraguai tem sido um dos palcos da guerra entre o PCC e o Comando Vermelho. Como a sociedade paraguaia lida com o fato de o Brasil “exportar” esse tipo de organização criminosa para o seu país?

Estamos vendo isso como um problema grande porque estamos detectando que a maioria dos integrantes dessas organizações criminosas brasileiras entram no Paraguai com documentos brasileiros falsificados. E isso tem dificultado o trabalho de identificação dessas pessoas. Estamos tentando identificar essas pessoas por meio de cooperação internacional com o Brasil, mas o sistema que temos atualmente não nos permite identificar essas pessoas imediatamente. Mesmo assim, o Brasil e o Paraguai têm aumentado o nível de cooperação. Mas o problema é grave. 

Reprodução
Morte do traficante Jorge Rafaat, em 2016, é marco da guerra entre PCC e CV Imagem: Reprodução

Vocês identificaram a eventual ligação do PCC com agentes políticos no Paraguai?

Com agentes políticos, não. Ainda não. Temos que levar em conta de que se trata de um grupo novo no Paraguai. O que já conseguimos detectar é a ligação entre o PCC e agentes policiais locais. Nosso trabalho de inteligência está fazendo investigações sobre isso.

Há organizações de outros países atuando no tráfico de drogas no Paraguai?

Que nós tenhamos detectado, não. Os brasileiros do PCC e do Comando Vermelho estão comandando tráfico de drogas no Paraguai hoje. 

Vocês já conseguiram detectar quantos chefes do PCC hoje atuam no Paraguai?

Não posso revelar essas informações. Estamos fazendo um mapeamento sobre esse assunto. A Polícia Nacional do Paraguai está monitorando isso, analisando, inclusive, informações que passam pelas finanças do grupo no meu país. Ainda estamos coletando informações.

O Paraguai é uma conhecida rota de escoamento da cocaína produzida na Bolívia. Na sua avaliação, a Bolívia tem feito a sua parte no combate ao narcotráfico?

O narcotráfico é um crime transnacional e não tem como ser combatido sem cooperação. Acredito que em relação à Bolívia, falte um pouco mais de cooperação como a que temos com o Brasil. Mas acredito que, como o problema está se agravando, o interesse em cooperar vai fazer com que o governo boliviano coopere mais com a gente. 

Há quanto o tempo o senhor anda com seguranças?

Há dez meses.

Como foi incorporar isso à sua rotina?

Não tem jeito. Só me livro deles quando viajo para fora do Paraguai. Quando se atua nessa área, temos que lidar com esse tipo de coisas.