Mulher é diagnosticada com Alzheimer e tatua contatos da família no braço

Wanderley Preite Sobrinho

Colaboração para o UOL

  • Arquivo Pessoal

    Diagnosticada com Alzheimer, mulher tatua contatos da família no braço

    Diagnosticada com Alzheimer, mulher tatua contatos da família no braço

Programadora de computador e secretária bilíngue. Motivos para exercitar a mente nunca faltaram a Célia Maria Oliveira, hoje com 64 anos. Nenhuma atividade mental, no entanto, foi suficiente para impedir que os primeiros sinais do Alzheimer aparecessem aos 58 anos - antes dos 60, como a ciência prevê na maioria dos casos. Independente, Célia tomou uma decisão radical: para sair de casa com segurança, tatuou no braço os telefones dos filhos.

Célia já vinha "arrumando desculpas" para esquecimentos esporádicos quando, em 2011, desistiu e foi procurar um médico em Salvador, na Bahia. "Uma amiga minha havia falecido naquele dia e um vizinho me informou do ocorrido. Decidi ir pra casa tomar um banho e ir ao velório, na mesma rua", contou ela ao UOL. "Entrei em casa e só lembrei um mês depois quando li algo a respeito em uma rede social."

Ela foi ao consultório, mas o diagnóstico não veio tão rápido. Considerada jovem demais para o Alzheimer, o especialista lhe receitou um remédio para a memória que não resolveu muita coisa. Só dois anos depois é que veio a notícia da doença de maneira comprovada.

Arquivo Pessoal
Célia Maria resolveu fazer tatuagem após ser diagnosticada com Alzheimer

Um duro golpe para uma mulher que estudou programação de computador, uma profissão que ela seguiu por alguns anos antes de se tornar secretária, seu sonho. "Passei por todas as etapas até me tornar secretária executiva. Falo inglês, me especializei em Língua Portuguesa, estudei espanhol. Fazia tudo o que os médicos aconselham para prevenir a doença."

Independente, dona Célia faz o que pode para manter-se atenta: a filha foi morar com ela e seu carro ela só dirige no bairro. Quando sai de casa, prefere ir sozinha para não se distrair com conversas. "Faço o trajeto na mente ainda em casa e depois vou para o destino sem nunca mudar o caminho."

Mas a atitude mais inusitada que tomou para manter sua liberdade foi uma tatuagem. Há pouco mais de um ano, ela foi visitar a família em Belo Horizonte. "Minha irmã e cunhado estavam muito preocupados comigo. Conversamos bastante sobre o perigo de eu acabar me perdendo e como etiquetas, cordões e placas com inscrições são inseguros. Foi quando ele teve uma ideia."

Célia conta que o cunhado lhe prometeu passeio de moto e uma orquídea caso ela aceitasse fazer a tatuagem com os números de telefone dos filhos para, assim, jamais correr o risco de não ser encontrada. No ante-braço, seu nome, os dois números e a frase "Convivo com Alzheimer".

"Eu gostei da ideia. Achei que fosse doer bem mais, mas não, acho que é porque sempre fui tolerante à dor", conta ela, que recorre a dois medicamentos. Um para controlar o humor e outro que retarda o avanço da doença. Em forma de adesivo, lhe custa R$ 500 por mês.

Ela agora conta com a ajuda da filha, que voltou para a casa a fim de ajudá-la. Embora faça a maior parte das tarefas sozinha, ela só cozinha quando está acompanhada. "Uma vez fiz uma moqueca. Olhava para aquele peixe branco e não entendia o que tinha de errado. Foi minha irmã quem me perguntou ao abrir a panela: 'cadê o dendê?'"

Bem humorada, dona Cida adota um tom mais sério quando fala sobre o fato de que ficou doente muito nova. "Essa já não é uma doença de idosos. Tenho amigas na casa dos 40 anos com Alzheimer. Uma mulher de 62 que já nem anda. O mais difícil para pacientes jovens é que os filhos, com 20, 30 anos, nem sempre têm maturidade para cuidar dos pais."

Aos que desconfiam portarem a doença, ela aconselha: "Não tenham medo. É melhor saber logo para se cuidar cedo e viver melhor por mais tempo. Muita gente acha que é estresse, ou caduquice. Não, não tenha vergonha também. Se não tivesse procurado um médico a tempo, eu poderia estar ainda pior."

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