O que se sabe sobre o caso do menino morto por uma bala perdida no Réveillon em SP

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    Arthur Aparecido Bencid Silva, 5, vítima de bala perdida durante o Réveillon

    Arthur Aparecido Bencid Silva, 5, vítima de bala perdida durante o Réveillon

A morte de Arthur Aparecido Bencid Silva, 5, vítima de uma bala perdida durante o Réveillon em São Paulo, permanece rodeada por mistérios.

O garoto foi baleado enquanto brincava no quintal de uma casa da família, que comemorava a chegada do Ano-Novo. Durante a queima de fogos, nos primeiros minutos do dia 1º de janeiro, Arthur caiu no chão, sem motivo aparente. Somente após levá-lo a um hospital, os familiares descobriram que ele havia sido atingido por um tiro na cabeça.

A Polícia Civil vem desde então realizando investigações para responder a perguntas como: quem fez o disparo? Como o projétil acertou o menino (que brincava dentro de um quintal com o portão fechado)? Por que só o garoto foi atingido? Houve negligência no atendimento médico?

A principal hipótese dos policiais é que, em comemoração à virada do ano, alguém tenha realizado disparos para o alto. Um desses projéteis, após chegar a certa altura, teria caído e atingido o menino, provocando um ferimento fatal.

Mas ainda faltam peças neste quebra-cabeças.

Na noite desta terça (2), a polícia chegou a deter um suspeito de ser o autor do disparo que matou Arthur: um jovem que admitiu ter atirado 6 vezes para o alto para celebrar o Ano-Novo com um revólver de calibre 38 --o mesmo do projétil retirado do corpo do menino.

O suspeito, no entanto, foi liberado horas depois. Ele teve o pedido de prisão temporária negado pela Justiça por falta de provas.

Confira, a seguir, o que se sabe até agora sobre o caso:

1- É possível que um tiro vertical, dado para o alto, mate uma pessoa?

Sim. De acordo com o delegado Antônio Sucupira Neto, responsável pelo caso, é possível que, em sua trajetória de descida, um projétil que tenha sido disparado para o alto mate alguém ao cair.

"Esse projétil atinge uma altura máxima, perde força e volta. Ele desce com uma velocidade que, segundo a literatura forense, é possível atingir um ser humano de forma letal", explicou o delegado.

O laudo necroscópico realizado pela polícia apontou ainda que Arthur foi atingido por uma bala na parte superior da cabeça, o que reforça a hipótese de que o tiro tenha sido efetuado de forma vertical ou angular, e não de maneira horizontal (tiro direto).

Em depoimento à polícia, os pais do menino afirmaram que o portão da casa onde estavam se encontrava fechado e que, no momento em que foi atingido, Arthur estava no quintal, em um local descoberto.

Em visita à residência, investigadores da polícia também não encontraram nenhum tipo de marca de tiro nas paredes, nos telhados ou no chão –o que, segundo o delegado, reforça a hipótese de que o projétil seja oriundo de um disparo feito para o alto.

Fora isso, havia outras pessoas da família no quintal e nenhuma delas foi atingida.

Mesmo assim, o delegado afirmou que a Polícia Civil irá solicitar ao Instituto de Criminalística a realização de uma perícia, que irá definir qual foi exatamente a trajetória do projétil.

MARCELO GONCALVES/SIGMAPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
3.jan.2018 - Suspeito de disparar tiro que atingiu Arthur presta depoimento à polícia

2- É possível descobrir se o homem que foi detido como suspeito é de fato o autor do disparo que matou Arthur?

Sim. Peritos do Instituto de Criminalística realizarão um exame de confronto balístico, que irá comparar o projétil extraído da cabeça de Arthur com a arma de fogo que foi apreendida com o suspeito.

Isso porque o cano de cada arma possui sulcos espirais que deixam marcas únicas nos projéteis durante os disparos.

"Essas ranhuras nós dizemos que são consideradas como o DNA das armas, já que elas ficam marcadas nos projéteis", explicou o delegado. O exame, segundo ele, deve levar de três dias a uma semana para ficar pronto.

"Se esse laudo de confronto balístico entre o revólver 38 e o projétil for negativo, a gente volta a investigar o homicídio de maneira mais técnica, ou seja, nós precisaremos descobrir (qual foi) a trajetória desse projétil", declarou o delegado.

Além disso, Sucupira Neto afirmou que irá pedir autorização à Justiça para obter os dados de geolocalização do telefone celular do suspeito na noite de Ano-Novo. Essas informações podem confirmar ou não se o suspeito se encontrava próximo à casa onde estava a família de Arthur, no bairro do Jardim Taboão –o que ele negou em declarações à polícia.

Isso porque o rapaz disse que estava a mais de três quilômetros de distância da vítima quando atirou. Se isso for verdade, seria praticamente impossível que seus tiros chegassem até Arthur.

3- Como a polícia chegou até esse suspeito?

A polícia chegou até o suspeito por uma interceptação telefônica realizada durante uma investigação de outro caso que já estava ocorrendo na área.

Um investigador da polícia ouviu, em um telefonema, uma pessoa dizer que o suspeito a havia procurado. Ele estaria muito preocupado com as repercussões do caso do menino Arthur, pois havia efetuado seis disparos para o alto e tinha receio de que um deles tivesse atingido o garoto.

"Esse investigador conseguiu levantar os dados completos desse suspeito, seu endereço e, na noite do dia 2 para o dia 3, ele foi localizado, foi conduzido até a delegacia na presença de seu irmão e foi ouvido em declarações, negando os fatos", disse o delegado.

Alguns fatores contribuíram para que a Justiça determinasse que o suspeito aguarde em liberdade o resultado das investigações. Eles são o fato dele ter emprego e residência fixa e a perícia ainda não ter sido concluída.

Além do suspeito, que afirmou ter comemorado a virada do ano atirando para o alto, três amigos, que estariam com ele no momento dos disparos, dentro de um Chevrolet Vectra, devem ser ouvidos na manhã desta quinta (4).

Na madruga do primeiro dia do ano, o suspeito chegou a ser detido por posse de arma. Após pagamento de R$ 500 de fiança, ele foi liberado.

4- Um atendimento médico mais rápido e eficiente poderia ter salvado Arthur?

A polícia ainda não sabe se houve, de fato, negligência no atendimento médico prestado ao menino Arthur. Mas uma suposta omissão no atendimento também pode ser alvo de investigações pela Polícia Civil, de acordo com o delegado Sucupira Neto.

Arquivo pessoal
02.jan.2018 - Família diz que houve demora para atendimento do menino Arthur

Em entrevista ao UOL, um familiar do garoto relatou dificuldades na transferência de Arthur entre um hospital e outro por falta de equipamentos e médicos. Os pais de Arthur, segundo o delegado, detalharam essas dificuldades durante o depoimento.

"Segundo informações [do pai e da mãe], o garoto precisava de uma UTI [Unidade de Tratamento Intensivo], e o hospital em que ele foi atendido em um primeiro momento não dispunha dessa UTI", disse o delegado.

Os pais também disseram ao delegado que Arthur chegou a ser atendido por uma parente, que seria enfermeira, e que ela teria acompanhado a busca por atendimento médico. A mulher deve ser ouvida pela polícia nos próximos dias.

"É lógico que, se nós entendermos que houve negligência no atendimento médico, isso será também objeto de investigação", afirmou o delegado.

5- Existem outras hipóteses sobre a autoria do disparo?

A hipótese do tiro para o alto permanece sendo a principal. Mas, segundo o delegado, a polícia não descarta as possibilidades de que o disparo tenha partido de dentro da casa ou mesmo de um prédio próximo a ela.

Nesta quarta-feira, a síndica desse edifício foi ouvida por investigadores. Segundo o delegado, ela informou que dois policiais civis moram no edifício, mas que eles não teriam passado a virada do ano em seus apartamentos.

"Perguntamos à síndica se na noite de Réveillon houve alguma discussão entre algum outro morador, e se dessa discussão algum morador poderia ter efetuado disparos de arma de fogo. Ela afirmou que não houve qualquer incidente que tenha saído da normalidade", disse o delegado.

Resta agora à polícia esperar o laudo do Instituto de Criminalística que determinará se a arma achada com suspeito identificado fez o disparo que matou a criança.

O autor do tiro pode responder pelo crime de homicídio. 

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