Com salários atrasados, servidores do RN sofrem com dívidas e indefinição de pagamento

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Beto Macário/UOL

    4.jan.2018 - "O dinheiro está faltando", diz o policial civil Francisco Valderedo Filho

    4.jan.2018 - "O dinheiro está faltando", diz o policial civil Francisco Valderedo Filho

Em meio à crise que tirou policiais das ruas, os servidores do Rio Grande Norte sofrem com o atraso de salários e a falta de perspectiva para a regularização. Há funcionários públicos sem os pagamentos de novembro e do 13º. O salário de dezembro, que deveria ser depositado até a próxima segunda (8), não tem previsão para cair na conta.

Enquanto isso, os servidores acumulam dívidas e recorrem à família e a amigos para fazer frente a necessidades básicas. O pano de fundo da crise de segurança enfrentada pelo Estado é justamente o atraso no pagamento dos policiais civis e militares e dos bombeiros. 

O governo vinha atrasando salários há meses, mas a situação se agravou no fim do ano -- pediu então a liberação de R$ 600 milhões ao governo federal, mas teve o pleito negado. O Rio Grande do Norte conta com 56 mil servidores ativos e 50 mil aposentados e pensionistas.

"Vivemos realmente um momento difícil, é um atraso muito grande", lamentou Ubiratan Barbosa Barros, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público da Administração Direta do Estado do Rio Grande do Norte. "Nós estamos fazendo audiência, são vários sindicatos. Estamos sempre convocando o pessoal do governo, fazemos debates com secretários, mas não se define nada."

A pensionista Francina da Silva, 48, recebe R$ 3.750, e com esse dinheiro sustenta três casas: uma em Natal, onde moram as filhas; outra na cidade, onde mora; e a terceira no pequeno sítio, onde cria animais e planta.

"Estou em muita dificuldade mesmo. Esse mês atrasei contas e boletos. Quando o salário de novembro caiu, dia 29, foi só para cobrir os gastos do cheque especial. Nunca passei um momento assim na vida", contou a pensionista, que tem duas filhas desempregadas.

"Além do mais, tem a crise de empregos e a seca, que impede que ganhe algo mais com o trabalho no campo", disse.

Beto Macário/UOL
4.jan.2018 - "Quando o salário de novembro caiu, só cobriu os gastos do cheque especial", disse a pensionista Francina da Silva

Filhos ajudam policial aposentado

O 2° sargento da reserva Fernando Luiz Filgueira, 64, presidente da Associação Policiais Militares Inativos e Pensionistas, contou que só não está em situação mais difícil por ajuda dos filhos.

"Está difícil demais. A alimentação de uma pessoa de 20, 30 não é a mesma de um velho. Não cortaram minha luz porque os filhos ajudaram. Fiquei 32 anos na ativa e 15 na reserva e nunca passei por uma situação dessas", disse ele, que mora com a mulher.

O policial civil Francisco Valderedo Filho, 53, também encara uma rotina de problemas. "Minha dificuldade é principalmente alimento, porque foi muito tempo sem salário e o dinheiro está faltando. As contas a gente atrasa também, não tem o que fazer", afirmou o servidor, casado e pai de dois filhos, mas o único a ter renda em casa.

"Nunca passamos uma dificuldade como essa", definiu o policial.

Segundo o presidente do Sindicato dos Policiais Civis, Nilton Arruda, é comum policiais pedirem ajuda. "A gente dá uma cesta básica, ajuda a pagar uma luz cortada. É uma situação que realmente nos impede de trabalhar", afirmou.

Atrasos de salários refletem nas vendas

A crise do Estado também afeta o comércio. "Temos sentindo nos últimos tempos em relação aos governos estadual e municipal, pois vêm atrasando com mais frequência os pagamentos. Esses atrasos refletem diretamente nas vendas. Não temos uma proporção exata de quanto, mas nosso termômetro sempre foi a data do pagamento dos servidores. Quando eles [os servidores] recebem, o comércio fica mais movimentado e as vendas melhoram", explica Augusto Vaz, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Natal.

"Os atrasos geram também inadimplência no comércio, consequentemente cai o crédito e as pessoas param de consumir. O dinheiro para de circular, e o Estado e município param de crescer. É uma bola de neve", completou.

UOL tentou entrevistar o governador Robinson Faria (PSD), mas a assessoria de imprensa informou que ele não está concedendo entrevistas porque está focado em resolver os problemas do Estado.

O RN tenta aderir ao RRF (Regime de Recuperação Fiscal) do governo federal. "Técnicos do Tesouro já estiveram no RN levantando informações sobre as finanças e retornarão ao Estado no próximo dia 25 para dar andamento aos entendimentos", explicou o governo, em nota.

Na quarta-feira (3), Faria se reuniu com chefes de todos os Poderes e apresentou "iniciativas que o governo vem adotando para o reequilíbrio fiscal do Tesouro estadual e o quadro de austeridade no controle dos gastos com custeio e investimentos, controlados desde 2015".

Ainda segundo o governo, os gastos com Previdência estadual aumentaram 78% nos últimos três anos. Para sanar o deficit, o governo propõe uma pacote de medidas para ajuste fiscal e o aumento da alíquota de pagamento da Previdência dos servidores, de 11% para 14%. 

"Com os projetos e outras iniciativas conjuntas, o esforço deverá adequar o Estado, o mais rápido possível, ao limite da Lei de Responsabilidade Fiscal", informou.

Sobre os salários, o governo diz ter pagado os vencimentos de novembro de quem recebe até R$ 4.000 e terminará de quitar a folha neste sábado (6). Ainda não há data para o pagamento das folhas de dezembro e o 13º de todo o funcionalismo.

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