Topo

Milícia fatura R$ 300 milhões no Rio com venda de terras e exploração ilegal de vans, diz polícia

José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
Homem preso durante operação contra milícia em Santa Cruz Imagem: José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo

Luis Kawaguti

Do UOL, no Rio

25/04/2018 17h17Atualizada em 25/04/2018 18h12

O chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, delegado Rivaldo Barbosa, afirmou nesta quarta-feira (25) que a milícia denominada Liga da Justiça fatura aproximadamente R$ 300 milhões por ano. O dinheiro é obtido com exploração de transporte ilegal de passageiros, entre outros crimes.

Milícia é um grupo criminoso formado por ex-policiais, ex-bombeiros e ex-membros das Forças Armadas e traficantes de drogas que se organizam para dominar regiões do Rio e atuar como máfia. A Liga da Justiça é considerada uma das maiores do Rio. Segundo Barbosa, esse é o tipo organização criminosa que mais cresce no Rio de Janeiro. "Ela comete praticamente todos os crimes do Código Penal.”

Na manhã de hoje, a Polícia Civil realizou uma operação em Santa Cruz, zona Oeste do Rio, uma das principais áreas de atuação dos milicianos da Liga da Justiça. Ao todo 25 suspeitos de pertencer à organização foram presos, além de 30 vans.

De acordo com a polícia, as maiores fontes de lucro da milícia são a exploração de transporte por vans em áreas de favelas dominadas pela organização e a grilagem e venda irregular de terrenos. Segundo o delegado, há cerca de 10 anos esse tipo de organização tentou ganhar legitimidade e apoio da população prometendo proteção contra o crime organizado. Porém, na prática, a própria milícia espalha o terror para depois cobrar por proteção, disse ele.

No passado a milícia foi entendida como um mal necessário, mas o que ela pretende unicamente é obter lucro

Rivaldo Barbosa, chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro

A sua forma de atuação também acabou sendo diversificada. Além das atividades já conhecidas de monopolizar o transporte por vans, vender gás e assinaturas irregulares de TV a cabo, a milícia agora também está vendendo produtos contrabandeados do Paraguai. Três toneladas desses produtos foram apreendidas na operação desta quarta-feira (25).

Segundo o delegado Antônio Ricardo, especializado na investigação contra crimes de Meio Ambiente, a Liga da Justiça também tem como uma das suas principais fontes de renda a mineração e a grilagem de terras.

“Eles invadem terrenos, demarcam e revendem irregularmente. Também controlam a retirada irregular de barro da região, que é vendido para uso na construção civil”, afirmou o policial. De acordo com ele, foram presos na operação suspeitos de realizar a venda de terrenos e de coordenar a exploração da mineração na área.

Além disso, a polícia disse ter obtido provas de que os milicianos estavam traficando drogas na região e extorquindo comerciantes. Até artistas de rua teriam que pagar taxas para poder trabalhar. “Até os malabaristas de rua”, disse o delegado.

A operação foi dividida em duas fases. Inicialmente equipes da polícia chegaram de surpresa à região para cumprir mandados de prisão. Segundo a Polícia Civil, 18 suspeitos que eram alvo da operação foram presos. Outros sete procurados da Justiça foram encontrados pelos policiais na região e também presos.

Em uma segunda fasem após o cumprimento dos mandados de prisão, a polícia começou a buscar provas e apreender materiais relacionados às principais fontes de renda da organização criminosa. O objetivo era enfraquecer financeiramente o grupo e reduzir sua capacidade de lavar dinheiro do crime.

Além das apreensões de mercadorias e vans, os policiais encontraram um depósito irregular de gás de cozinha que era usado para monopolizar o comércio do produto na região.

Segundo o delegado Barbosa, novas operações vão continuar sendo realizadas para combater a atuação da Liga da Justiça e de outras organizações semelhantes que atuam no estado. De acordo com ele, as milícias serão o principal foco de atenção da polícia no combate ao crime organizado no Rio.

Foram usados na operação desta quarta 100 carros de polícia, dois blindados e dois helicópteros. Os policiais permaneceram na região entre 4h e 16h da quarta-feira.

A Liga da Justiça, que controla várias favelas da zona oeste e da Baixada Fluminense, já havia sido alvo de uma operação no início do mês que resultou na prisão de 159 pessoas em uma festa na zona oeste. Uma ação do Ministério Público Estadual pediu nesta terça (24) a soltura de 138 dos 159 detidos, sob a alegação de não haver ligação com o crime. Até o momento apenas uma pessoa foi solta.