"Piramideiros profissionais": quem participou, e como, do golpe financeiro de R$ 200 milhões

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Facebook

    Danilo Santana é acusado de ser chefe de um esquema de pirâmide financeira

    Danilo Santana é acusado de ser chefe de um esquema de pirâmide financeira

"Piramideiros profissionais" se associaram para aplicar um golpe milionário que lesou dezenas de milhares de pessoas no Brasil e no exterior. Publicada no último dia 29 de abril, reportagem do UOL mostrou que a fraude de R$ 200 milhões foi comandada pelo autointitulado empreendedor digital Danilo Santana.

Santana chegou a ser preso por agentes da Interpol no dia 13 de fevereiro ao desembarcar no aeroporto de Dubai, nos Emirados Árabes. Existem contra ele ao menos três ações penais no Brasil.

O empresário é alvo de um pedido de extradição do Ministério da Justiça, para responder no Brasil as ações que tramitam contra ele. As acusações são de crimes contra economia popular, associação criminosa, estelionato e lavagem de dinheiro.

Porém, Danilo Santana não estava só. Por meio de documentos policiais e do Ministério Público nos estados da Bahia, da Paraíba e do Rio Grande do Sul, além relatos de investidores lesados, o UOL identificou outros suspeitos de participação no esquema da D9 Clube de Empreendedores.

Procurado pela reportagem, o advogado de Danilo Santana afirmou que só se manifestará publicamente quando tiver acesso a todos os autos dos processos criminais e cíveis que correm contra seu cliente (veja mais abaixo).

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Criada por Santana em sua cidade natal, Itabuna (BA), a D9 se apresentava como uma escola de "trading esportivo", forma de investimento comum na Inglaterra e nos Estados Unidos em que se fazem apostas contra outras pessoas com base no que acontece durante um evento esportivo, a exemplo de uma partida de futebol.

Porém, nenhuma aposta era feita com o dinheiro arrecadado pelos investidores e os pagamentos obedeciam a um esquema criminoso conhecido como "ponzi" ou pirâmide financeira (veja abaixo o infográfico sobre o esquema).

Grosso modo, numa pirâmide financeira, capta-se recursos de um grupo de pessoas com a promessa de um alto retorno, mas, como a forma de administração utilizada é insustentável, o negócio quebra e prejudica quem acreditou no investimento.

Cada novo participante que compra um "pacote de investimentos" financia o pagamento dos membros que estão em um nível acima na cadeia. Até que, em determinado momento, o fluxo é interrompido. Dessa forma, o dinheiro no final fica com os que estão no topo da pirâmide, enquanto a base amarga o prejuízo de tudo o que investiu.

Foi o que aconteceu com a economista Solange Cabral, que perdeu sozinha R$ 300 mil ao acreditar nas promessas de lucros exorbitantes da D9.

Reprodução/Facebook
Danilo Santana foi preso ao desembarcar no aeroporto de Dubai, em fevereiro
"Fui a uma reunião com Danilo Santana na cidade de Natal, onde ele a todo tempo usava termos religiosos, se dizia cristão e temente a Deus", diz Solange. "Dizia que deixaria um legado, que estava ali para ajudar milhões de pessoas."

Empolgada com o discurso de Santana, a economista convenceu familiares e amigos a investirem no negócio. O prejuízo total do grupo chega a R$ 1,5 milhão.

"Perdi a economia de toda uma vida de trabalho. Nem acredito como me deixei enganar. Passado quase um ano, eu ainda não me recuperei desse golpe. O que me deixa mais triste é saber que eu fiz meus familiares e amigos também perderem dinheiro."

Quem eram os top líderes da D9, segundo o MP

Documento do Ministério Público gaúcho (MP-RS) revela a suspeita de que um grupo atuava como lideranças regionais e nacionais no esquema criminoso comandado por Danilo Santana.

"Da mesma forma ainda se apura a participação de outras lideranças regionais, e até mesmo indivíduos com participação em escala diretiva nacional, como as pessoas de Nelson Rocha, Alex Gouvea, Cledson Basanella, Romero Araújo, Sergio Cursino, Léo Trajano, [todos] mencionados no âmbito deste expediente policial e ainda não indiciados pela autoridade policial, porquanto pendentes diligências investigatórias que não puderam ser cumpridas no exíguo prazo legal estabelecido para a tramitação de inquérito policial com réus presos", lê-se no documento (veja fac-símile abaixo).

A reportagem tentou entrar em contato com as pessoas listadas pelo MP-RS. Suas respostas estão apresentadas mais abaixo.

O UOL apurou junto a pessoas que foram lesadas pela D9 que parte dos citados acima se apresentaram como "top líderes" em eventos promovidos pela empresa e gravaram vídeos disponibilizados em redes sociais com objetivo de aumentar o número de investidores. 

Nelson Rocha, por exemplo, gravou um vídeo no qual mostra um caminhão-cegonha que carrega carros plotados com a marca e slogans da D9. Era comum que membros da D9 ostentassem com carros luxuosos para atrair investidores. 

"Quando a gente diz assim: 'D9 é bola na rede e dinheiro no bolso', a galera não acredita", afirma Rocha. Ele também é visto em outro vídeo de um grande evento da empresa realizado na noite de 9 de maio de 2017, em São Paulo.

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Nelson Rocha foi citado em documento do MP sobre o esquema da D9
A gravação estava disponível no perfil do Facebook de Márcio Rodrigo Santos, que chegou a ser preso no ano passado e foi denunciado pelo MP-RS por ser supostamente líder de um grupo da D9 no Rio Grande do Sul. Após o UOL entrar em contato com Nelson Rocha, o vídeo saiu do ar. A reportagem guardou uma cópia.

Rocha nega que tenha sido um dos líderes do esquema de pirâmide financeira e diz que Rodrigo Santos não é mais seu amigo.

"Na verdade, eu tive prejuízo. Peguei emprestado um valor bem considerável. E, depois [que a D9] parou de pagar, tive arcar com esse valor e ainda estou pagando por ele."

Léo Trajano, o último a ser citado no trecho no documento, apresentava-se como "diretor marketing de D9", relataram investidores, sob a condição de sigilo.

A reportagem tentou entrar em contato com Trajano por meio das redes sociais e de sua mulher, que não quis passar o número de telefone dele. Ela afirmou ainda que Trajano retornaria o contato, mas isso não ocorreu até a publicação deste texto.

Cunhado de Danilo Santana, Alex Gouveia foi denunciado pelo Ministério Público baiano como integrante do grupo da D9 no estado. "Ele foi um investidor e também teve prejuízos", afirmou seu advogado Antonio Rosa.

Citados têm envolvimento em outras pirâmides

Alguns dos indivíduos citados acima se envolveram em outros esquemas de pirâmide. Em vídeos disponíveis no YouTube desde o ano de 2013, Danilo Santana aparece ao lado de Cledson Bazzanela promovendo uma empresa chamada One Thor Brasil, contra a qual existem várias denúncias de falta de pagamento a investidores em sua página no perfil do Facebook e em sites que alertam contra golpes financeiros.

Bazzanela se apresentava como um dos líderes das operações da D9 em eventos realizados nos estados da região Sul, relataram investidores sob a condição de sigilo.

Santana e Bazzanela também atuaram em um dos mais conhecidos esquemas de pirâmide financeira do Brasil, o chamado "escândalo da Telexfree", que estourou em 2013 e incluía um sistema ligado à venda de serviços telefônicos

Durante a última semana, o UOL ligou recorrentemente para um número de telefone celular de Bazzanela, mas ninguém atendeu as ligações.

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Danilo Santana e Cledson Bazzanela (à direita) atuaram juntos no esquema da D9
O também acima mencionado Romero Araújo atuou na Telexfree e promoveu outra empresa apontada como "pirâmide" por investidores lesados: a Velox 10 Brasil. Em vídeos disponíveis na internet, Araújo aparece promovendo a marca.

"Estou aqui para mostrar a vocês o plano de compensação financeira da Velox 10. Uma empresa que, ainda no seu início, já está mudando vidas."

Quem investiu dinheiro na Velox 10 afirma que a vida realmente mudou, mas para pior. "Eu só tomei 'bolo'. Vendi uma máquina para investir na Velox 10. E nunca mais vi de volta a cor dos R$ 7.200 que eu investi", afirma o microempresário Carlos Branco, morador de Campo Grande (MS).

Araújo também aparece em gravações de eventos promovidos pela D9 nos quais defende que as pessoas invistam na empresa.

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Romero Araújo: "Trabalhei na D9 acreditando num sonho"
"Eu conheci e fui convidado a entrar [na D9] por Cledson Bazzanela, líder do Paraná, que foi um dos top líderes mais premiados. E entrei no negócio através dele. Trabalhei acreditando em um sonho. Contudo, quando vi que a empresa não estava honrando com o que prometeu, saí bem antes de ela fechar", afirmou Araújo, por meio de nota enviada pelo seu assessor de comunicação.

Araújo comentou sua atuação nos negócios da Telexfree e Velox 10: afirmou ter sido uma vítima "como muitos [investidores]" e que perdeu dinheiro.

"Sobre averiguação judicial, nunca tive nenhum conhecimento legal. Hoje, sendo [líder] diamante do grupo Hinode, torço para que tudo seja esclarecido. Inclusive [vou] garantir meus direitos sobre exposição de calúnias e difamações que constem meu nome."

Piramideiros aplicam golpes de maneira recorrente

É comum que os chamados "piramideiros profissionais" apliquem um golpe atrás do outro.

"Uma vez piramideiro, sempre piramideiro. Esse tipo de criminoso costuma aplicar sucessivos golpes financeiros. O que muda é o tipo de negócio que ele usa para atrair as vítimas", afirma o delegado Lucas Sá, titular da Delegacia de Defraudações e Falsificações da Polícia Civil de Paraíba.

Somente no estado nordestino, Sá identificou 300 vítimas da D9, que sofreram um prejuízo de pelo menos R$ 3 milhões. Ao final de sua investigação, o delegado indiciou 13 pessoas, inclusive Danilo Santana. 

O golpe de pirâmide financeira integra o grupo dos chamados crimes contra a economia popular e é considerado de menor potencial ofensivo. A pena prevista é de seis meses a dois anos de detenção.

"Para que se possa colocar acusados atrás das grades, é necessário provar a ocorrência de crimes correlatos à prática de pirâmide, a exemplo de associação criminosa, lavagem de dinheiro e estelionato", explica o promotor de Justiça Sérgio Cunha Aguiar Filho, autor da denúncia contra o grupo gaúcho da D9.

"Se o cara for condenado apenas pelo crime de pirâmide, ele nem será preso, se não estiver associado a outros crimes. Para esses tipos de golpistas, é um investimento que vale a pena", afirma o advogado criminalista Daniel Bialski.

A legislação precisa ser modernizada e punir esses crimes com maior vigor

Daniel Bialski, advogado criminalista

Fui enganado, diz jornalista

Apresentador de vários eventos e vídeos da D9, o jornalista Sérgio Cursino afirma que foi enganado por Danilo Santana e que nunca exerceu qualquer papel de liderança no negócio.

"Fui um jornalista e profissional de comunicação que desenvolvia peças publicitárias junto com outros profissionais; Danilo malandramente se utilizou da denominação de um cargo para que tivesse maior credibilidade. Fui usado como todas essas milhares de pessoas."

Cursino entrou com um processo contra Danilo Santana no âmbito da Justiça paulista no qual pede uma indenização por danos morais e materiais.

Outro lado

O advogado de defesa de Danilo Santana tenta firmar um acordo de colaboração premiada na Justiça baiana.

Em nota, o Ministério Público do Estado da Bahia negou que tenha referendado qualquer acordo com o acusado. "Tal acordo foi proposto pela Polícia Civil e encontra-se sob análise judicial, não havendo nenhum pronunciamento do MP-BA quanto a sua homologação."

Ainda de acordo com a assessoria de imprensa do órgão, "no início deste ano, o MP baiano denunciou os envolvidos na ação criminosa à Justiça. Em 2017, já no início das investigações, o MPBA requereu a prisão dos envolvidos, mas o Juízo da 1ª Vara Criminal de Itabuna negou o pedido. O Ministério Público recorreu e o Tribunal de Justiça ainda não julgou o recurso".

Procurado pelo UOL, o advogado de Danilo Santana, Rafael Roveri Molina, afirmou que só se manifestará publicamente quando tiver acesso a todos os autos dos processos criminais e cíveis que correm contra seu cliente.

Divulgação/Polícia Civil da Bahia
Policiais baianos acharam R$ 1 milhão em espécie na casa da sogra de Danilo Santana
De acordo com informações do Ministério da Justiça, Santana foi preso no dia 13 de fevereiro por agentes da Interpol ao desembarcar no aeroporto de Dubai, cidade que frequenta há pelo menos um ano. Doze dias depois, ele foi solto sob fiança. Mesmo livre, ele está sob vigilância das autoridades emiradenses.

A pedido da Justiça do Rio Grande do Sul, que expediu um decreto de prisão preventiva do brasileiro, o ministério tenta sua extradição junto às autoridades dos Emirados Árabes Unidos. Não há previsão de quando o processo será realizado.

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