Em uma década, polos de violência no Brasil migram das capitais para cidades de médio porte

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

  • Huana Moia/Futura Press/Folhapress

    Ação de criminosos para roubar empresa de transporte de valores em Eunápolis, no sul da Bahia, tem ataque a guarita de vigilante, morto a tiros

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Em 2006, o município de Queimados (RJ), hoje com 145 mil habitantes, ocupava apenas a 83ª colocação no ranking das cidades com maiores taxas de homicídios do país. Seu índice era de 58,6 por 100 mil habitantes.

Uma década depois, esse número mais que duplicou, chegou a 134,9 por 100 mil moradores e levou a cidade ao posto de mais letal no Brasil.

O que ocorreu com a cidade fluminense reflete bem a mudança na dinâmica nacional dos homicídios nos últimos anos. Os dados mostram a consolidação da migração da violência das capitais e grandes metrópoles para centros urbanos de médio porte.

Segundo o Atlas da Violência 2018, divulgado na sexta-feira (15) pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2016 (último com dados disponíveis no DataSUS), as capitais saíram da liderança do ranking de mortes violentas.

O foco dos homicídios no Brasil agora se concentra em cidades com população entre 100 mil e 200 mil habitantes. Das 20 cidades com maior taxa de homicídios do país, 13 estavam nessa faixa populacional --sendo as seis primeiras nessa condição.

Em 2016, nenhuma capital liderou os rankings estaduais de homicídio.

Em 2006, na lista dos dez municípios mais violentos, de acordo com o Mapa da Violência (que usa a mesma fonte do Atlas da Violência), três eram capitais: Recife, Maceió e Vitória.

Já em em 2016, a capital com maior taxa de homicídios --Belém, com índice de 77 mortes por cada 100 mil habitantes-- aparece apenas na 22ª colocação entre as cidades mais violentas do país. Em 2015, Fortaleza aparecia na 13ª posição da lista.

O Atlas da Violência traz as taxas de homicídio apenas das cidades com populações maiores que 100 mil habitantes.

Fenômeno acelerado e em crescimento

Na pesquisa dos dados referentes a 2006, o coordenador do Mapa da Violência, Julio Jacobo Waiselfisz, apontou pela primeira vez a existência do que classificou de "novo fenômeno". "Se até 1999 os polos dinâmicos da violência se localizavam nas grandes capitais e grandes metrópoles, a partir dessa data, nessas áreas, seu crescimento se estagnou, mas começou a se acelerar no interior dos estados", disse.

Apesar de ser um fenômeno notado ainda no início do século, o Atlas da Violência mostrou que ele cresce ano após ano.

Ricardo Moraes/Reuters
Membros do Exército deixam região de Japeri, no Rio, após inspeção em fevereiro

Em 2015, 109 municípios concentravam metade das mortes violentas do país. Um ano depois, esse número cresceu e inclui outras 14 cidades, saltando para 123 municípios --sendo que quatro capitais saíram dessa lista: Curitiba, Goiânia, Florianópolis e Espírito Santo.

Para o coordenador do Atlas da Violência, Daniel Cerqueira, dois fatores ajudam a explicar essa migração: o crescimento da renda nas cidades de pequeno e médio porte e a falta de investigação e inteligência policiais.

"Primeiro vejo o aumento da renda, que, além de expandir a economia, atrai mercados ilícitos, como o de drogas, por exemplo. E, quando os mercados passam a se tornar viáveis, passam a ter disputa --e eles funcionam na base de violência", explica.

O outro ponto citado tem a ver com a "política de segurança equivocada" do país, na visão do pesquisador. "Essa política deixou de lado a investigação e a inteligência para fazer prisão de baixa qualidade, deixando de lado os que cometem grande crimes e as lideranças", afirma.

"Como a gente faliu as nossas polícias civis, as prisões são de policiamento ostensivo, que prende em flagrante, aquele pé de chinelo, ladrão de galinha. A gente pega esse monte de gente e vai aumentando enormemente a população dos presídios, onde o Estado não tem nenhum controle. Isso faz com que esses jovens e passem a ser mão de obra das facções criminosas."

Joá Souza/Agência A Tarde
Policiais fazem ronda na Bahia após facção criminosa queimar ônibus

O sociólogo e coordenador do Laboratório de Estudos da Violência da UFC (Universidade Federal do Ceará), César Barreira, diz que essa migração do crime decorre também do maior controle exercido pelas polícias nas capitais.

"Em vários momentos, desde a migração do crime de São Paulo e do Rio para outras capitais, especialmente do Nordeste, os criminosos vão seguindo a rota, fugindo de onde a polícia começa a agir de forma mais presente", explica.

Para Barreira, o interior começou também a ser atraente. Prova disso são os inúmeros ataques a caixas eletrônicos. "O crime está muito ligado ao desenvolvimento local. As grandes obras, por exemplo, trazem a perversão que o próprio capitalismo cria", avalia.

Para o sociólogo, o poder público não sabe responder o porquê da migração. "A gente tem uma resposta como pesquisador, mas a polícia tem de ter dar uma resposta de por que esses crimes migram. Seria ausência de um contingente policial? Pode ser, mas sempre defendo que é impossível que essas cidades menores tenham contingentes em um número razoável, a não ser que trabalhemos com conglomerados --o que não acontece hoje", pontua.

Raul Spinassé/A Tarde
Noiva de jovem morto a tiros em Simões Filho (BA) chora durante audiência do crime

O que diz o Ministério da Segurança Pública?

Em reposta ao UOL, o Ministério Extraordinário da Segurança Pública disse que o ministro Raul Jungmann "tem falado publicamente sobre focar os esforços nos 2% dos municípios que concentram os 50% dos homicídios".

"Ele tem tratado disso, inclusive, na recém-criada Câmara Setorial de Prevenção Social e de Segurança, coordenada por ele e que tem a participação de outros ministros dessas duas áreas. Desse foco decorrem diversas medidas de que ele tem tratado, inclusive de envolver os municípios nas políticas de segurança pública", informou a pasta, se referindo à pasta do Desenvolvimento Social e à Secretaria de Juventude.

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