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Filho de desaparecido em Brumadinho faz "vaquinha" para ir a MG

28.jan.2019 - Ademário Bispo (à esq.) está desaparecido desde o rompimento de barragem da Vale em Brumadinho - Arquivo pessoal
28.jan.2019 - Ademário Bispo (à esq.) está desaparecido desde o rompimento de barragem da Vale em Brumadinho Imagem: Arquivo pessoal

Alexandre Santos

Colaboração para o UOL, em Salvador

28/01/2019 09h27Atualizada em 28/01/2019 17h48

Filho de um dos desaparecidos na tragédia de Brumadinho (MG), o técnico em logística Ismael Bispo, 23, está realizando uma "vaquinha" para tentar viajar de Santo Amaro da Purificação (cidade na Bahia, a 75 km de Salvador) para acompanhar em solo mineiro as buscas pelo pai, Ademário Bispo, 51, que consta na lista de 305 desaparecidos divulgada pelo Corpo de Bombeiros na noite de domingo (27). 

Ele é funcionário da Reframax Engenharia, empresa terceirizada da Vale, em que trabalha como mecânico montador há seis meses. Segundo familiares, nenhum representante das duas companhias os procurou para oferecer qualquer tipo de auxílio (leia nota da empresa abaixo). Além de Ademário, a família ainda procura Alex Mário Moraes Bispo, 22, que é primo do montador, desaparecido desde o rompimento da barragem da Vale na última sexta-feira (25).

"Está todo mundo angustiado lá em casa. Estamos sem conseguir dormir. A prefeitura de nossa cidade pediu pra gente esperar até amanhã [segunda-feira], mas a dor da família não espera. Só meu irmão está lá e eu também preciso ir", conta Ismael, referindo-se a Natan Nael de Jesus Bispo, 21, que morava com Ademário no município de Mário Campos, a 14 km de Brumadinho. 

Mapa Brumadinho - Arte UOL - Arte UOL
Imagem: Arte UOL
Ismael conta que o pai deixou Santo Amaro (BA) há cerca de 1 ano e seis meses. Antes de trocar a terra natal pela cidade mineira, ele morava com os dois filhos --Ismael e Natan Nael-- e a mulher, a marisqueira Eliane de Jesus Bispo, 45.

Por causa dos preços das passagens, Ademário pouco conseguia visitar os parentes nos feriados prolongados e vivia praticamente do trabalho para a casa. Ismael afirma que viu o pai pela última vez faz um "bom tempo", "uns meses", já que é muito complicado financeiramente bancar o deslocamento. Com saudades, ele conta que pretendia fazer uma visita a Ademário em abril, quando entrará em férias. Agora, terá que antecipar a viagem para estar próximo ao irmão.

"Os parentes pelo menos precisam estar próximos. Estamos levantando uma campanha para arrecadar alguma grana e ajudar os familiares a irem pra lá. Agradeço a todos, de coração, por perguntas, orações. Pensamento positivo", afirma, esperançoso.

Busca por ajuda nas empresas

Ismael relata que vem procurando a Reframax desde a divulgação do rompimento da barragem e, em uma das poucas vezes em que conseguiu contato, um representante da empresa teria se comprometido a arcar com sua ida a Brumadinho. "Ele disse que teriam uma reunião agora à tarde. Só que a gente liga pro celular que ele nos forneceu e cai na caixa", diz, desapontado.

"Soube agora, por meu irmão, que eles mandaram representantes lá dizendo que só vão fornecer uma passagem para apenas um parente por vítima desaparecida. Tem gente que não pode viajar sozinha. Isso é um absurdo", queixa-se Ismael.

Em um comunicado publicado na página oficial da empresa, a Reframax Engenharia diz que "está em contato com a Vale e familiares dos colaboradores para a identificação dos desaparecidos". 

"A Reframax se solidariza com todas as vítimas e suas famílias. A empresa está se mobilizando para prestar assistência aos familiares dos colaboradores, com equipes de assistências social e psicológica", diz a empresa, que confirma a atuação de 59 colaboradores em uma obra na mina córrego do Feijão - três morreram, 22 foram localizados com vida e 34 estão desaparecidos.

O UOL tentou nesta manhã, sem sucesso, falar com a Reframax no número informado por Ismael e no telefone disponível no site da empresa. Deixou recados via WhatsApp, mas as mensagens não foram respondidas.

No final da tarde, a empresa enviou nota oficial informando que contatou as famílias de todos os colaboradores que trabalhavam na mina Córrego do Feijão. "Especificamente para quatro colaboradores desaparecidos residentes em Mário Campos/MG e com parentes em Santo Amaro/BA, foi disponibilizado apoio logístico e financeiro, permitindo o acompanhamento do trabalho de buscas", diz o comunicado.

A Reframax declarou ainda que o telefone (31) 99590-3033 permanece disponível para contato de familiares.

O UOL tentou falar com a Vale por e-mail e por telefone, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem. Na última informação disponível sobre o caso publicada em seu site oficial, a multinacional diz que o "apoio às vítimas e seus familiares continua sendo prioridade".

Por meio das redes sociais, a Prefeitura de Santo Amaro divulgou uma nota na qual diz se solidarizar com a família Bispo e mais dois desaparecidos que nasceram na cidade (Ednilson dos Santos Cruz e George Conceição de Oliveira).

"A Prefeitura Municipal de Santo Amaro se irmana e solidariza em orações com as famílias dos santamarenses até então desaparecidos na tragédia ambiental no município de Brumadinho, Minas Gerais, quando o rompimento de uma barragem da empresa Vale ocasionou mais uma catástrofe de enormes proporções. Torcemos para que Alex, Ednilson, George e Ademário sejam encontrados logo e voltem para seus lares sãos e salvos", diz.

Os dados da conta de Ismael Bispo são:

  • Banco: Caixa Econômica Federal
  • Agência: 0073
  • Conta poupança: 00103617-3
  • Operação: 013
  • Ismael de J Bispo

Veja o caminho percorrido pela lama da barragem de Brumadinho

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