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Falso PF enganou criminosos e pediu R$ 1 mi contra operação fake, diz MP

ArteUOL sobre documentos
Imagem: ArteUOL sobre documentos

Vinicius Konchinski

Colaboração para o UOL, em Curitiba

09/04/2019 04h01

O fiscal da Prefeitura de Dourados (MS) Wellington José Carvalho de Almeida, 37, está preso desde o final de fevereiro. Ele é suspeito de participar de um esquema de contrabando que teria movimentado 1.200 carretas carregadas de cigarros vindos do Paraguai só em 2017.

Wellington, entretanto, não teria usado sua posição como servidor municipal para auxiliar a organização criminosa investigada pela PF (Polícia Federal). Ele, na verdade, fingiu ser policial federal para entrar na quadrilha e receber propinas por informações que ele dizia ter, mas que nunca fizeram sentido.

Isso é o que apontam documentos que basearam o pedido de prisão preventiva do servidor, aos quais o UOL teve acesso. De acordo com a PF e o MPF (Ministério Público Federal), Wellington conseguiu enganar contrabandistas, passou a receber pagamentos periódicos deles e chegou a negociar o pagamento de R$ 1 milhão para parar uma operação inventada por ele.

Wellington se passava por policial federal de nome Helder/Welder e praticava atos em prol da organização criminosa com essa condição fictícia a fim de auferir vantagens indevidas.
Informação da PF à Justiça Federal no pedido de prisão do servidor

Para isso, ele postou fotos vestindo uniforme, com armas de brinquedo, e criou até uma série de contas falsas em aplicativos de mensagens para celular. Com elas, ele simulava conversas com delegados e chefes de núcleos de investigação para depois usá-las em negociação de propinas com criminosos. "A fim de ludibriar contrabandistas, Wellington criava conversas falsas entre os policiais fictícios e encaminhava para membros da organização criminosa", complementou a PF.

O falso PF está agora num presídio de Ponta Porã (MS), mesmo local em que estão detidos alguns membros da quadrilha que ele enganou. Seu advogado, Alberi Rafael Dehn Ramos, disse que ele nega todas as acusações contra ele. Temendo por uma possível retaliação, Ramos já solicitou a transferência de Wellington a outro presídio. Aguarda a autorização da Justiça.


Carro apreendido no pátio de Wellington durante busca e apreensão em Dourados (MS). Crédito: ArteUOL sobre documentos

Gêmeo é policial militar e está preso

Wellington passou a ser investigado pela PF em março do ano passado, quando se envolveu numa briga com policiais rodoviários federais. Na ocasião, ele e seu irmão gêmeo Alisson -que está preso desde setembro por suposta ligação com o esquema de contrabando de cigarros-- perceberam que estavam sendo filmados pelos policiais rodoviários à paisana quando chegaram a um posto de gasolina, em Maracaju (MS). Resolveram tirar satisfação se identificando como agentes da PF.

Alisson, que é policial militar em Mato Grosso do Sul, apontou uma arma para os policiais rodoviários. Wellington, passando-se por policial federal, os revistou. Na revista, eles se identificaram como policiais rodoviários. Pediram a Wellington que ele se identificasse também. Wellington não o fez e envolveu-se numa briga com os policiais rodoviários.

A PM (Polícia Militar) interveio. Wellington e Alisson foram revistados e tinham R$ 12 mil em dinheiro, um rádio transmissor e um giroflex (luz que identifica veículo polícial) dentro do carro em que eles estavam. Foram levados à delegacia da PF, mas liberados depois.

Negociação de propinas

Em setembro último, a PF deflagrou a operação Nepsis. A ação mobilizou 280 agentes em cinco estados e teve como objetivo prender membros de um "grande esquema criminoso responsável pelo contrabando de cigarros", segundo informou a corporação.

Wellington foi preso temporariamente na operação. Ficou cinco dias na cadeia e foi liberado. Seu irmão, Alisson foi preso preventivamente. Permanece detido até hoje.

Agentes da PF estiveram em endereços ligados aos irmãos. Apreenderam um disco rígido. Nele, os agentes encontraram uma série de imagens de conversas na qual Wellington simulava ser policial federal para pedir propina a membros e até chefes da quadrilha investigada.


Detalhe de carro e farda apreendidos, usados por Wellington para se passar por policial. Crédito: ArteUOL sobre documentos

R$ 10 mil por "ciclo de contrabando"

Numa conversa encontrada pela PF, Wellington fala com Jean Felix de Almeida, o Foca. Segundo a PF, Foca era gerente da organização criminosa formada pelos contrabandistas.

Wellington, se passando pelo agente Welder, diz na conversa que uma operação policial em andamento teria a quadrilha como alvo. Foca estaria para ser preso:

Wellington: Preciso falar com você. Tá vindo um negócio. Coisa grande.
Jean: Vixe. É f..? O que tem para mim?
Wellington: Casa tá para cair.
Jean: Entendi. Mas você ainda vai tentar fazer algo, né? Ou já não tem mais chances?
Wellington: Eu não consigo. Só o chefe. Vou falar com ele.
Jean: E a minha parte. Tem muita coisa?
Wellington: Tem sim, mas você sai com HC [habeas corpus]. Uns dias fica. Eu vou ligar lá e ver se alguém consegue tratar direto com você. Põe seu chefe para tratar com ele.
Jean: Pode deixar. À tarde, vô estar com ele.

O chefe de Jean, no caso, é Ângelo Guimarães Ballerini, o Alemão. Ele é apontado pela PF como um dos quatro comandantes do grupo de contrabandistas investigado. Após falar com Jean, Wellington é posto em contato com Ângelo e acerta o pagamento de R$ 10 mil por "ciclo de contrabando", ou seja, um determinado período de remessas de cigarros.

"A conversa acima evidenciou que Wellington, se passando por Welder, ingressou numa lista de pagamento contínua de Alemão recebendo R$ 10 mil por ciclo de contrabando, referentes ao pagamento de Welder e seu suposto chefe", informou a PF à Justiça Federal.

R$ 1 milhão para parar operação

De acordo com a PF, Wellington, num outro momento, negociou com Alemão a paralisação de uma operação policial fictícia por R$ 1 milhão. Na conversa, Wellington teria se passado por Cosmo, um suposto chefe de investigação da PF, usando um número de telefone diferente. Cosmo é quem teria negociado a propina com Ângelo.

Depois, Ângelo procurou por Welber, mais uma das identidades de Wellington, para continuar a negociação. "Alemão [Ângelo] responde a Wellington informando detalhes da conversa tratada com Cosmo indicando que Cosmo teria solicitado R$ 1 milhão para 'segurar a operação'", informou a PF.

Restou nítido que Wellington, utilizando-se de uma miríade de personagens fictícios, criados estrategicamente para dar ares de veracidade à sua versão, estaria recebendo valores continuamente da organização criminosa chefiada por Ângelo a pretexto de influir em atos investigados.
Investigação da Polícia Federal


Relação de itens apreendidos após busca e apreensão contra Wellington e seu irmão. Crédito: ArteUOL sobre documentos

Prisão temporária não cessou fraudes

A PF e o MPF informaram ainda à Justiça Federal que, mesmo após ter sido preso temporariamente em setembro, Wellington continuou agindo como falso policial em busca de propinas. A investigação chegou a essa conclusão depois da prisão de Kelvis Fernando Rodrigues, vulgo Cabelo, em outubro, um mês após a soltura de Wellington.

Kelvis é outro suspeito de integrar a quadrilha de contrabandistas. Ele foi detido no Paraguai. No momento de sua prisão, perguntou se agentes que o detiveram conheciam Helder, um agente da PF. O suposto agente teria um recado a dar aos policiais.

Os agentes responderam que não havia Helder trabalhando na PF no Sul do Mato Grosso do Sul. Kelvis, então, disse que Helder era irmão de Alisson, ou seja, Wellington. "Esse fato demonstra que Wellington, mesmo após ter sido preso temporariamente, voltou a se passar indevidamente como policial federal para realizar tratativas com contrabandistas."

O episódio foi usado como argumento para o pedido de prisão preventiva de Wellington. O pedido foi aceito pela Justiça Federal em 19 de fevereiro. Wellington foi preso dia 26.

Na prisão, policiais federais também apreenderam em endereços ligados a ele um fuzil e uma espingarda de brinquedo. Há suspeita que ele usava os equipamentos para fingir ser policial. Também foram apreendidos dois cheques, um de R$ 11 mil e outro de R$ 45 mil, e um Toyota Corolla.

As investigações sobre Wellington e a quadrilha de contrabandistas prosseguem em sigilo. Por isso, a PF e o MPF não se pronunciam sobre o caso.

Acusados alegam inocência

Alberi Rafael Dehn Ramos, advogado do Wellington, afirmou que não há motivos para prisão preventiva de seu cliente já que ele tinha colaborado com as investigações quando foi preso temporariamente. Reafirmou também que Wellington e Alisson já declararam que não cometeram nenhum crime. ""Como Wellington pode ser acusado de tráfico de influência se nem policial era?", questionou o advogado.

O advogado José Augusto Marcondes de Moura Junior defende Ângelo Guimarães Ballerini e Kelvis Fernando Rodrigues. Ambos são acusados de corrupção, contrabando e formação de organização criminosa. Os dois também alegam ser inocentes.

Moura Junior, porém, afirmou que tanto Ãngelo quanto Kelvis conhecem Wellington. Segundo o advogado, eles foram ludibriados pelo falso policial e chegaram a pagar valores a ele.

Jean Felix de Almeida também conhece Wellington. Seu advogado, Ali El Kadre, afirmou que seu cliente já prestou serviço de olheiro para contrabandista uma ou duas vezes, mas nunca fez parte de uma organização criminosa. "Ele é um rapaz que vive de aluguel, não tem dinheiro para nada. Nunca foi gerente de nada", descreveu Kadre.

O advogado também disse que seu cliente conversou com Wellington e tinha convicção de que ele era policial federal. "Meu cliente disse ao delegado que Wellington o abordou usando colete a prova de balas, com arma em punho e giroflex no carro. Como ele poderia duvidar?"