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Talude em Barão de Cocais se move 7 cm por dia e vai se romper, diz agência

Luciana Quierati

Do UOL, em São Paulo

20/05/2019 13h10

O talude norte da cava da mina do Gongo Soco, em Barão de Cocais (MG), vai se romper, e, pelos cálculos da Vale, isso ocorrerá ainda nesta semana. A constatação foi feita pela ANM (Agência Nacional de Mineração), que vem acompanhando a situação. O que não se sabe ainda é como ocorrerá esse rompimento, se um pouco por dia, até o talude ir todo abaixo, ou se abruptamente - o que poderia afetar a barragem de rejeitos que fica a cerca de 1,5 quilômetro da cava e inundar a cidade, rios e áreas verdes.

A reportagem do UOL conversou na manhã de hoje com o chefe da divisão de segurança de barragens de mineração de Minas Gerais da ANM, Wagner Nascimento, que sobrevoou ontem o complexo minerário de Gongo Soco. Ele disse que o talude está se movimentando 7 centímetros por dia.

O talude é a encosta "recortada", semelhante a uma escadaria, que fica em volta da cava da mina (de onde se retira o minério de ferro). Conforme a cava é aprofundada com a retirada do minério, há a necessidade de se estabilizar o entorno para que não haja movimentação do terreno. O talude norte, que vai se romper segundo a ANM, fica na lateral interna da cava, em contato com água que está represada (também há taludes na área externa da mina do Gongo Soco, inativa desde 2016).

Nascimento explicou o que pode ocorrer a partir de agora:

Por que o talude norte pode se romper até sábado?

O talude vinha tendo deslocamento desde 2012 e eles [Vale] vinham monitorando. Mas era da ordem de 10 cm por ano. Quando foi agora no final de abril, eles verificaram uma aceleração nesse deslocamento. Passou a ser de 5 cm por dia. Ontem estava na ordem de 7 cm. A ruptura vai ocorrer, o que não tem como prever é se vai ser lenta, escorrendo devagarinho, aumentando a cada dia, passando a 8 cm, 10 cm, até cair, ou se vai ser algo abrupto. Se for lentamente, vai ser o melhor dos mundos, porque evitaria uma vibração que pudesse perturbar a situação da barragem, que já estava em nível de alerta. A Vale está monitorando com radar e também instalou uma rede sismográfica, com geofones que fazem a medição de vibração entre a cava e a barragem.

Mas o que é mais provável, o rompimento lento ou abrupto do talude?

Não tem como prever. A empresa solicitou vários profissionais externos, que estiveram lá e confirmaram a ruptura. Mas não tem como prever se vai ser abrupta, lenta, ou, em caso de ser abrupta, se poderia ocasionar a perturbação na barragem. Por isso, todas as medidas estão sendo tomadas, não só por parte da ANM quanto da Vale, sempre visando resguardar as pessoas e o meio ambiente. Quando a ANM foi informada, ligamos para a Defesa Civil, que intensificou os trabalhos por lá, com simulados e conferências. Porque, a população da zona de autossalvamento já está evacuada desde fevereiro, mas, por mais que você isole os acessos, as pessoas podem furar o bloqueio [e voltarem para essa área]. Estão mantendo a vigilância, com policiais militares e vigias da Vale. Temos que torcer que não tenha nenhum impacto.

A barragem está desde março em nível de alerta 3, que é o grau máximo. Como está o monitoramento da estrutura?

Infelizmente, a barragem está sendo monitorada mais remotamente, porque houve a proibição por parte do governo federal de que se faça inspeções manualmente. Então, a gente não tem um retrato real da condição da barragem, porque não tem como fazer inspeção e manutenção no local.

Em caso de uma ruptura abrupta do talude, em quanto tempo a barragem poderia vir a ser afetada?

O fator de segurança dela está bem aquém do que deveria. Agora, se [um possível reflexo da queda do talude na barragem] vai ser em horas ou repentino, é algo muito difícil de se dizer. Principalmente sem saber como está a barragem. Dependeria de uma ação rotineira de inspeção, que não está ocorrendo.

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