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MP diz que milícia agiu na Muzema com a conivência do poder público

16.jul.2019 - Operação prendeu suspeitos de investir na construção de imóveis irregulares de milícia na Muzema - José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
16.jul.2019 - Operação prendeu suspeitos de investir na construção de imóveis irregulares de milícia na Muzema Imagem: José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

16/07/2019 17h48

O promotor de Justiça Plínio Vinicius D'Avila Araújo, que comandou as investigações que prenderam hoje ao menos 14 suspeitos de investir em imóveis irregulares da milícia que age na Muzema e em outras localidades da zona oeste do Rio de Janeiro, afirmou que a identificação de apenas uma servidora municipal no envolvimento do grupo criminoso é considerada "pequena" diante do esquema revelado. Em abril, dois prédios construídos clandestinamente caíram na Muzema, deixando 24 mortos.

"Impossível, ninguém faz obras obras faraônicas sem a anuência do poder público de alguma forma", disse o subcoordenador do Gaema (Grupo de Apoio Especializado em Meio Ambiente) do MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) ao ser questionado se outros servidores podem estar relacionados à milícia.

Embora não tenha havido uma ordem judicial de prisão expedida contra ela, Letícia Ballalai Cancella foi denunciada por suspeita de ter facilitado os registros dos imóveis no cadastro do IPTU. Ela trabalha na Secretaria Municipal de Fazenda da Prefeitura do Rio e é casada com Bruno Puppe Cancella.

"Além de conceder os laudos de regularização, de segurança construtiva, para esta organização, apuramos que esta servidora também municiava a quadrilha com informações relativas à construção", detalhou.

Bruno, o marido de Letícia, foi preso na casa em que mora, na manhã de hoje, no bairro de Jacarepaguá, na zona oeste. Segundo as investigações, Cancella seria um dos principais construtores da milícia e teria movimentado mais de R$ 24 milhões ao longo de quatro anos.

"Ele é uma pessoa central na dinâmica do crime. Desde 2004, ele atua colocando contêineres na localidade para a venda das unidades dos prédios irregulares em construção. Para que se tenha uma ideia, ele possuía uma central de vendas e pagava mídia digital nas redes sociais", completou o promotor.

A reportagem do UOL não localizou as defesas de Bruno e Letícia Cancella.

Araújo detalhou como a milícia se divide em dois núcleos criminosos que agem de forma conjunta.

"Existe um núcleo empreendedor, nesta organização, que realiza a supressão de vegetação nativa e a extração irregular de minerais para a construção dos prédios, além da edificação, propriamente dita. O outro núcleo é composto por 'investidores'. São empresários com boa condição econômica, de fora dessas regiões, que compram um bom número de unidades habitacionais e depois sublocam para usuários finais."

Investigação começou por crimes ambientais

De acordo com o promotor, as investigações sobre o grupo começaram em 2014.

"Uma denúncia anônima, feita por um bombeiro, dava conta de supressão da mata nativa e outras atividades típicas de grupos paramilitares. Àquela altura, havia dois prédios construídos naquela região. Em 2016, já eram seis, para que se tenha ideia do ritmo do trabalho desses grupos. Verificando aquilo, solicitamos documentos e quebras de sigilos bancários e fiscais, além de interceptações telefônicas", detalhou.

O promotor também relatou uma tática usada por grupos paramilitares para obter ainda mais lucro com as construções.

"Todos os prédios contam com lojas em seus pisos térreos e residências na parte de cima. As habitações em cima dificultam as demolições administrativas, enquanto o aluguel nas lojas de baixo aumentam os lucros desses grupos", explicou.

Tragédia na Muzema: 24 mortos e 16 prédios condenados

O desmoronamento de dois prédios na comunidade da Muzema, no dia 12 de abril, matou 24 pessoas. As unidades haviam sido construídas de forma irregular e, segundo as investigações, foram financiadas pela milícia que atua da região.

Depois dos desmoronamentos, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), anunciou a demolição de 16 outros prédios da comunidade que também corriam risco de desabamento. Na ocasião, Crivella disse que no lugar das construções seria feito um parque com um memorial às vítimas.

Para garantir a segurança dos profissionais que trabalharam na demolição dessas construções, policiais militares precisaram patrulhar a região nos principais acessos à comunidade. Guardas municipais isolaram a região dos prédios condenados.

Por medo da ação de grupos paramilitares, moradores da Muzema não compareceram espontaneamente à delegacia da Barra da Tijuca, que investiga a queda dos prédios e a relação das construções com milicianos.

Moradores da comunidade ouvidos pelo UOL na época se queixaram do abandono da região pelo poder público. "Hoje que a polícia está aqui, eles [os técnicos] apareceram. Nos outros dias, eles nem pisaram aqui", disse um morador que preferiu não se identificar.

Nos dias posteriores às chuvas que atingiram o Rio, os próprios moradores fizeram a limpeza emergencial da Muzema. As empresas públicas não foram ao local.

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