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Com cemitérios clandestinos, milícia mascara violência em regiões do RJ

Fazenda abandonada em Queimados (RJ) serviu como cemitério de milícia - Divulgação/MP
Fazenda abandonada em Queimados (RJ) serviu como cemitério de milícia Imagem: Divulgação/MP

Sérgio Ramalho

Colaboração para o UOL, no Rio

05/08/2019 04h01

A descoberta veio à tona junto aos corpos encontrados em cemitérios clandestinos usados por milicianos no Rio de Janeiro. Enterrados em covas rasas, os cadáveres dos condenados à morte por integrantes dessas organizações criminosas não entraram nas estatísticas de criminalidade do estado, mascarando os indicadores de homicídios dolosos em ao menos duas áreas sob forte influência de paramilitares.

Os municípios de Queimados, na Baixada Fluminense, e Itaboraí, na Região Metropolitana, apresentaram redução, respectivamente, de 47,2% e 35,7% nos registros de assassinatos na comparação do primeiro semestre desse ano com o mesmo período de 2018.

Para especialistas, policiais e promotores ouvidos pelo UOL, os quinze corpos desenterrados no último mês nos cemitérios clandestinos das milícias em atividade nas duas cidades comprovam que integrantes desses grupos adotaram a ocultação de cadáveres como estratégia para desviar a atenção das autoridades sobre a violência praticada em seus territórios:

"Os policiais e ex-policiais envolvidos nessas organizações sabem que a exposição dos executados repercute na imprensa e, por consequência, gera cobranças da opinião pública às autoridades, desencadeando investigações que podem atrapalhar seus negócios", diz o delegado Cláudio Ferraz, coautor de Elite da Tropa 2, livro que inspirou o segundo filme da franquia Tropa de Elite, e responsável por quase 600 prisões de milicianos no período em que chefiou a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco).

O promotor Fábio Corrêa, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público (MP) estadual, um dos responsáveis pela investigação que levou à prisão 26 integrantes da milícia chefiada pelo ex-secretário de Defesa Civil e vereador em Queimados, Davi Brasil Caetano (Avante), no último dia 18, lembra que as investigações confirmaram que a partir de 2017 os registros de homicídios na região começaram a apresentar queda.

Polícia identifica 23 vítimas mortas pela milícia no RJ

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Município campeão em assassinatos

Em 2016, Queimados teve 423 pessoas assassinadas, sendo considerado o município com a maior taxa de mortes violentas do país. Foram 134,9 a cada 100 mil habitantes, segundo levantamento publicado pela edição do Atlas da Violência 2018.

O ano de 2017 encerrou com 296 homicídios registrados na cidade, representando uma diminuição de 30% em relação ao ano de 2016.

No ano seguinte, nova queda foi confirmada pelas estatísticas do Instituto de Segurança Pública (ISP). O órgão do governo do estado que analisa os indicadores de criminalidade contabilizou 275 mortes, redução de 7% em relação ao ano anterior.

"A milícia passou a enterrar e até a queimar os corpos de suas vítimas, além de intimidar os parentes para que não recorressem à polícia. Já identificamos 23 vítimas desse grupo, mas há evidências de que o número de executados possa chegar a quase cem", diz o promotor Corrêa.

Ele associa a expansão territorial da milícia em Queimados à conclusão das obras dos conjuntos habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida, onde vivem cerca de 10 mil pessoas.

Cemitérios clandestinos

Noutro extremo do estado, em Itaboraí, a 94 quilômetros de Queimados, investigações do Gaeco e da Polícia Civil também resultaram na descoberta de cemitérios clandestinos usados pelo grupo paramilitar chefiado, segundo denúncia do MP, pelo sargento da Polícia Militar Fábio Nascimento de Souza, conhecido como China.

Ele e outros 39 suspeitos de envolvimento na milícia da região tiveram as prisões preventivas decretadas pela Justiça no início do mês passado.

A denúncia do MP aponta o sargento Fábio de Souza como chefe do grupo paramilitar em Itaboraí e elo entre milicianos que atuam em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, e em municípios da Baixada Fluminense.

Em depoimento, o PM negou envolvimento com a milícia. De acordo com as investigações, os integrantes dessa organização criminosa mantêm cemitérios clandestinos em seus territórios para dar sumiço nos corpos de suas vítimas.

DNA para identificar ossadas

Foi a partir do cruzamento de dados relacionados a registros de desaparecidos em Itaboraí e relatos de testemunhas mantidas sob proteção que os policiais chegaram a um dos cemitérios clandestinos usados pelos paramilitares na localidade de Visconde de Itaboraí, onde 12 corpos foram encontrados.

Uma retroescavadeira foi usada para auxiliar na retirada do restos mortais. Policiais da Delegacia de Homicídios de Niterói acreditam que o local vinha sendo usado para ocultar os executados pela milícia há pelo menos dois anos.

A suspeita foi reforçada diante do encontro de ossadas. Para tentar chegar a identificação dos mortos, a Polícia Civil terá que recorrer a exame de DNA.

Assim como em Queimados, apesar das denúncias de execuções praticadas pela milícia, os números de homicídios no município de Itaboraí apresentaram queda.

No primeiro semestre deste ano, 72 pessoas foram assassinadas na região, 35,7% a menos do que o número de registros do ano passado: 112. No mesmo período foram registrados 141 desaparecimentos.

Para o sociólogo José Cláudio Souza Alves, autor do livro "Dos Barões ao Extermínio: Uma História da Violência na Baixada Fluminense", como as milícias em sua origem contam com a participação de agentes públicos, em especial, PMs ou ex-PMs, "eles detêm conhecimento técnico para ocultar seus crimes e assim dificultar as investigações. Há um componente extremamente cruel na atuação desses grupos em áreas pobres, onde o morador tem um parente executado e ainda é intimidado para não ir à polícia e é impedido de enterrar seus mortos com dignidade", diz o sociólogo, que estuda há duas décadas a atuação desses grupos paramilitares.

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