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Globo responde a Bolsonaro e diz que "nunca dependeu de verbas de governo"

O presidente da República, Jair Bolsonaro - AFP
O presidente da República, Jair Bolsonaro Imagem: AFP

Do UOL, em São Paulo

30/10/2019 10h11

A Rede Globo divulgou um novo comunicado na manhã de hoje em que afirma que "não depende nem nunca dependeu de verbas de governos", em resposta a declarações do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), após a exibição de reportagem no Jornal Nacional que faz menção nominal a ele no caso Marielle.

Em uma transmissão ao vivo no Facebook na noite de ontem, Bolsonaro afirmou a emissora recebeu "bilhões" em verbas de estatais e que prometeu acabar com "a mamata".

"Tava muito bom com governos anteriores, mamavam bilhões de estatais, publicando balancetes de estatais, de bancos oficiais, anunciando no nome de vocês. Acabou esta mamata, não tem dinheiro público para vocês, acabou a teta, vão ficar me infernizando até quando?", afirmou o presidente.

Em resposta a Bolsonaro, a Globo afirmou em nota que "não depende nem nunca dependeu de verbas de governos, embora a propaganda oficial seja legítima e legal".

A edição de segunda-feira do JN divulgou uma menção nominal ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) no caso dos assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL), do Rio de Janeiro, e do motorista dela, Anderson Gomes, ocorridos em 14 de março de 2018. De acordo com o telejornal, a simples citação ao nome do presidente pode levar o caso a ser investigado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), devido ao foro por prerrogativa de função.

A reportagem relata que o porteiro do condomínio onde Bolsonaro mantém residência no Rio de Janeiro afirmou que o suspeito de matar a vereadora Marielle Franco pediu para ir à casa do presidente no dia do crime. O condomínio Vivendas da Barra, onde Bolsonaro tem casa, é o mesmo onde vivia o policial militar reformado Ronnie Lessa, apontado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil como o autor dos disparos que mataram Marielle e Anderson.

Acusando a emissora de "patifaria", Bolsonaro, que está em viagem pelo Oriente Médio, disse estar "aguardando a TV Globo ter a dignidade" de o convidar para uma entrevista ao vivo no JN, a fim de esclarecer menção a seu nome na investigação que apura a morte de Marielle.

"Aguardo a TV Globo me convidar para o horário nobre do Jornal Nacional falar sobre o caso Marielle no conjunto onde eu moro", declarou, ao sair do hotel em Riade, na Arábia Saudita, onde está hospedado.

O porteiro do condomínio onde morava Bolsonaro à época disse em depoimento que alguém com a voz dele autorizou a entrada de um dos suspeitos da morte da vereadora no dia do crime. Bolsonaro, no entanto, neste dia, estava na Câmara dos Deputados, segundo registro de presença da Casa, conforme divulgado pela TV Globo.

Minutos após a divulgação da matéria no Brasil e na madrugada de Riade, seis horas à frente do horário de Brasília, Bolsonaro fez a transmissão ao vivo nas redes sociais. Ele mostrou grande indignação com o conteúdo da reportagem e atacou a imprensa. Chamou a reportagem de mentirosa e disse que foi produzida com o objetivo de "prejudicar os negócios do Brasil" enquanto viaja.

"Seus patifes da TV Globo! Seus canalhas! Não vai colar! Não tinha motivo para matar quem quer que fosse no Rio de Janeiro", bradou Bolsonaro, que isentou o porteiro. "Tenho certeza de que o porteiro não sabe o que assinou", acrescentou.

"Qual é a intenção da Globo fazer isso ai? Nós estamos vendo problemas ocorrendo na América do Sul. Argentina, Chile, Venezuela, Bolívia, Peru... Será que a Globo quer criar uma narrativa, ou que o povo deveria ir à rua para pedir meu afastamento? É o tempo todo isso", afirmou Bolsonaro, que aproveitou e criticou a revista Época (do Grupo Globo) por reportagem em setembro sobre a atuação de Heloísa Wolf Bolsonaro, mulher do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), um dos filhos do presidente.

Leia a íntegra da nota divulgada pela Globo:

"A Globo reitera que teve acesso ao livro da portaria e, como deixa claro a reportagem, informou-se com múltiplas fontes sobre o conteúdo do depoimento do porteiro. Não mentiu. Dada a relevância dos fatos, a Globo cumpriu a sua obrigação de informar o público, revelando o que disse o porteiro e todas as suas contradições, que ela própria apurou. A Globo não tem nenhum objetivo de destruir quem quer que seja, mas é independente para informar com serenidade todos os fatos, mesmo aqueles que possam irritar as autoridades. E assim pode agir, justamente porque não depende nem nunca dependeu de verbas de governos, embora a propaganda oficial seja legítima e legal."

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