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Tragédia em Mariana: garrafa de Coca e sabonete viram peças arqueológicas

Imagens de peças sacras históricas do século 18, resgatadas pela Fundação Renova na lama que destruiu quatro templos católicos, em Mariana (MG), há quatro anos, com o rompimento da barragem da Samarco - Divulgação/Fundação Renova
Imagens de peças sacras históricas do século 18, resgatadas pela Fundação Renova na lama que destruiu quatro templos católicos, em Mariana (MG), há quatro anos, com o rompimento da barragem da Samarco Imagem: Divulgação/Fundação Renova

Carlos Eduardo Cherem

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

03/11/2019 03h00

Resumo da notícia

  • Equipe com 15 arqueólogos recuperam objetos achados a até 80 km de templos
  • Quatro igrejas foram destruídas pela lama, há 4 anos em Minas Gerais
  • Garrafa de Coca tinha água benta e sabonete foi usado por sacerdote
  • "É o que restou das referências culturais e religiosas dessas comunidades", diz líder do projeto

Um sabonete Lux Luxo rosa usado, uma garrafa de vidro de Coca-Cola cheia de água e tampada com uma rolha e um buquê de flores plásticas vermelhas são alguns dos objetos recolhidos na lama do desastre da barragem da Samarco, em Mariana (MG), em novembro de 2015, e recuperados pela Fundação Renova.

Há ainda peças sacras como uma escultura do século 18 em madeira do mestre português Francisco Vieira Servas (1720-1811) e uma imagem de São Luís Rei de França, de autor desconhecido, do mesmo período. Ao todo, o acervo é composto por 2.700 objetos.

Essas relíquias são provenientes de quatro templos católicos destruídos na tragédia, que há quatro anos matou 19 pessoas, deixando um rastro de devastação desde a área central de Minas Gerais até o litoral do Espírito Santo.

Imagens sacras ganham cores - Divulgação/Fundação Renova
Imagens sacras ganham cores
Imagem: Divulgação/Fundação Renova

Em sua rota até o mar, a lama de rejeitos de minério de ferro destruiu a Igreja Nossa Senhora das Mercês e a Capela de São Bento, no distrito de Bento Rodrigues, a Capela de Santo Antônio, no distrito de Paracatu de Baixo, todos em Mariana, e a Capela de Nossa Senhora da Conceição, em Barra Longa (MG).

"O sabonete foi usado por um arcebispo para lavar as mãos, antes da celebração de uma missa em Bento Rodrigues. A garrafinha de Coca-Cola contém água benta. O buquê de flores ornava um altar de uma capela. Todos esses objetos foram identificados e registrados", diz a arquiteta e arqueóloga Danielle Lima, 37, coordenadora da iniciativa, bancada pela Fundação Renova, criada pela brasileira Vale e a australiana BHP Billiton, proprietárias da Samarco, para reparar os danos do rompimento.

"Todos esses itens tornaram-se preciosidades para as populações desses distritos. O fato de que, em instantes, tenha havido uma ruptura tão grande na vida dessas pessoas fez com que esses objetos adquirissem valores históricos e arqueológicos para elas", afirma a especialista.

Divulgação/Fundação Renova
Imagem: Divulgação/Fundação Renova

"É o que restou das referências culturais e religiosas dessas comunidades. É muito importante fazer a reparação de todos esses objetos, e não só as peças históricas do século 18", diz.

As vítimas podem visitar o espaço onde as peças estão armazenadas, na área urbana de Mariana, e fornecer dados para identificar e "atribuir significado" a cada uma delas.

"Arqueologia do passado presente"

O fato de o trabalho de coleta desses objetos ter sido feito imediatamente após o desastre, explica a especialista, com o recolhimento também des itens recentes, como a garrafa de Coca-Cola e o sabonete, o torna inédito na arqueologia em todo o mundo. "Esses objetos compõem a 'arqueologia do passado presente', um conceito novo na ciência", diz Lima.

Ela explica que, de 2.700 peças armazenadas, 1.400 foram higienizadas e 34 objetos do século 18 foram restaurados.

Divulgação/Fundação Renova
Imagem: Divulgação/Fundação Renova

A primeira fase dos trabalhos da equipe de 15 arqueólogos foi feita entre 2015, logo após a tragédia, e meados de 2016. Foram encontradas peças a até 80 km de distância dos templos.

A segunda fase começou em julho de 2016 e continua hoje, quatro anos depois. Os arqueólogos percorrem áreas e perfuram a superfície da lama com equipamento.

Lima explica que os objetos resgatados, encobertos pelos rejeitos de minério de ferro, são higienizados. As peças do século 18, por sua vez, passam por um trabalho minucioso e delicado de restauração, que depende da aprovação do Iepha (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico) de Minas Gerais. Depois de autorizada a intervenção, as peças são limpas e ganham cores, traços e desenhos originais.

Cotidiano