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Dores, água mineral para cachorro: relatos sobre a vida na crise do Rio

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

17/01/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Moradores do Rio têm relatado dores de barriga e de cabeça, além de enjoos
  • Água tem chegado às casas com coloração turva, e cheiro e gosto fortes

A crise sobre a qualidade de água no Rio provocou mudanças de hábitos de consumo na capital e na Baixada Fluminense, onde moradores também se queixam de problemas de saúde. Esse é um reflexo do que sai das torneiras dos fluminenses: uma água com coloração turva e cheiro forte.

A situação, que colocou a Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) no centro da discussão sobre a qualidade da água oferecida aos moradores, gerou uma corrida aos supermercados para compra de água mineral.

Analista de sistemas e moradora de Copacabana, na zona sul, Amanda Rabello notou, desde a última semana, que a água que consumia em sua casa estava com "cheiro e e gosto de barro", mas decidiu continuar consumindo o líquido. Ela não foi a supermercados para comprar água engarrafada. Na última quarta (15), porém, ela começou a sentir enjoo, dores de barriga e de cabeça.

Seu marido, Rafael, apresentou os mesmos sintomas —mais fortes ainda, segundo ela— um dia depois. "Os médicos não disseram especificamente que era um problema da água, mas nos aconselharam a comprar água mineral no supermercado."

Ontem, Amanda passou por cinco supermercados, biroscas e depósitos de bebida, e não encontrou água para comprar. "Só água com gás", relata. A incessante busca terminou com a compra de oito garrafas pequenas de água vendidas a R$ 3 em um mercado.

Meu cunhado conseguiu comprar 3 garrafas de 1,5 litro por R$ 2 cada... as pessoas quase foram para cima dele para pegar as águas
Amanda Rabello, moradora do Rio

No trabalho, em Botafogo, também na zona sul, a situação é a mesma, diz Amanda: água aparentemente limpa, mas com gosto e cheiro.

Nas redes sociais, circulam fotografias que mostram as providências tomadas pelos supermercados para conter a avidez dos consumidores pelas garrafas de água. "Limite de 12 unidades por cliente", diz um papel colado nas prateleiras, conforme fotografia de um internauta publicada ontem. Outros postaram imagens com as gôndolas vazias.

"Estou dando água mineral para o meu cachorro"

Desde a última sexta-feira (10), a editora de vídeos Clarisse Hammerli notou que a água do filtro da sua casa em Laranjeiras, na zona sul carioca, estava com cheiro e gosto. Desde então, passou a comprar água em garrafas e a usa para quase tudo no cotidiano: desde escovar os dentes até saciar a sede de seu cachorro. Quando vai cozinhar, diz ela, privilegia receitas que não necessitam de muita água.

"Quando tenho de cozinhar algo que exige muita água, arroz por exemplo, estou fervendo. O gosto ruim da água está passando para os alimentos. Tive de jogar uma panela de arroz fora esses dias porque estava com um gosto horrível", disse Clarisse ao UOL enquanto comprava mais garrafas de água mineral.

Ela também afirmou que notou um aumento nos preços da água mineral vendida nos mercados da cidade.

Moradora do Rio mostra as garrafas de água que consumiu em razão da crise - Arquivo Pessoal
Moradora do Rio mostra as garrafas de água que consumiu em razão da crise
Imagem: Arquivo Pessoal

"Garrafas que eu via antes por R$ 1,20 ou R$ 1,50 estão custando, no mesmo lugar, R$ 4. É uma especulação absurda, a tragédia de muitos virou o lucro de poucos", argumenta.

Pai de um bebê de 11 meses e morador de Copacabana, o técnico de som João Costa está tendo de tomar cuidados redobrados por conta do filho. "Quando vou dar banho, tento ficar atento para ele não dar um gole da água. Fico com medo, mas não estou enxergando nenhuma alternativa ainda", conta à reportagem.

Ele afirma que a água do filtro está translúcida, mas com um "cheiro de terra muito forte". Costa também enfrentou problemas para preparar refeições com a água que sai da torneira. "Só cozinho agora depois de ferver a água", diz.

Cotidiano