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Crise da água: corrida a supermercados esvazia prateleiras no Rio

15.jan.2020 - Prateleiras em supermercado da Tijuca, na zona norte carioca; carregamento acabou em 5 minutos - Marcela Lemos/UOL
15.jan.2020 - Prateleiras em supermercado da Tijuca, na zona norte carioca; carregamento acabou em 5 minutos Imagem: Marcela Lemos/UOL

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

15/01/2020 12h55

Resumo da notícia

  • Procura por água mineral tem esgotado estoques em supermercados do Rio
  • Consumidores relatam gosto e cheiro ruins, além de aspecto turvo da água recebida em casa

Há 12 dias, moradores das cidades do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense têm recebido água turva e com odor desagradável em suas casas, o que tem levado a uma corrida a supermercados em busca de água mineral. A demanda é tanta que até mesmo mercados grandes têm ficado com o estoque zerado de garrafas.

Em um mercado no bairro da Tijuca, na zona norte carioca, na manha de hoje, nas prateleiras sobraram apenas água com gás. Mesmo assim, poucas unidades. Os clientes foram avisados que um novo carregamento de água mineral estava chegando e todos resolveram aguardar. O primeiro carregamento com 60 engradados terminou em apenas cinco minutos.

A dona de casa Selma Regina, 44, contou que já tinha ido a outro mercado da região e que não havia conseguido comprar água mineral. "Desde a semana passada, estou comprando água mineral. Lá em casa o gosto da água é podre, parece lama. Vim aqui só para isso e vou levar bastante para durar bem."

A autônoma Edilma de Barros, 41, mora na Penha, também na zona norte. Ela diz que passou por dois mercados que também estavam com as prateleiras de água mineral vazias. Na casa dela, a água também apresenta gosto ruim.

15.jan.2020 - A dona de casa Lucia Paixão disse que passou mal após beber água do filtro de casa: "Agora só compro água mineral" - Marcela Lemos/UOL
15.jan.2020 - A dona de casa Lucia Paixão disse que passou mal após beber água do filtro de casa: "Agora só compro água mineral"
Imagem: Marcela Lemos/UOL

"Não está incolor. Está turva. Parece ter areia e tem gosto ruim. Esse é o terceiro mercado que entro hoje. Vou resolvendo as coisas durante o dia e, quando passo por um mercado, entro para ver se tem água."

A dona de casa Lucia Paixão, 66, relatou passar mal após ingerir a água do filtro de casa. "A água estava estranha, parecia pesada, com gosto horrível. Me deu dor de barriga e fiquei com a garganta ardendo. Tive cólica também. Fui ao médico, melhorei e agora só compro água mineral."

Em um supermercado do Leme, na zona sul, as garrafas de 1,5 liltro estavam esgotadas ontem, restando somente recipientes de 0,5 liltro ou 5 litros, além de águas importadas e com gás. Em outro mercado na Tijuca, só havia poucas garrafinhas de 0,5 litro.

Água com gosto de cloro, diz morador da Tijuca

O problema começou há 12 dias e, até o momento, segue sem solução. Em alguns bairros, tem quem diga que o aspecto da água melhorou, mas que a água passou a apresentar gosto de cloro.

"Na minha casa foi melhorando. Agora ela está branquinha, como sempre foi, mas parece uma piscina de tanto gosto de cloro", disse o aposentado José Meiras, 72, que também mora na Tijuca.

A Cedae (Companhia de Águas e Esgotos do Estado do Rio) atribuiu inicialmente o problema à geosmina —substância orgânica produzida por algas e que não apresenta risco à saúde dos consumidores. A empresa chegou a anunciar o uso de carvão ativo pulverizado para melhorar a qualidade da água. No entanto, moradores ainda se queixam da qualidade.

Na semana passada, a Cedae disse ter concluído testes em 150 amostras de água e afirmou que "a água fornecida pode ser consumida pela população".

A companhia explicou que a geosmina não oferece risco à saúde, mas altera o gosto e o cheiro da água. Trata-se de um fenômeno natural que ocorre devido ao aumento de água em mananciais em razão de variações de temperatura, luminosidade e índice pluviométrico, "causando aumento deste composto orgânico e levando a água a apresentar 'gosto e cheiro de terra'".

A Cedae diz ainda que casos semelhantes ocorreram no Rio 18 anos atrás; em São Paulo, em 2008, e em municípios da Paraíba e do Rio Grande do Sul em 2018, por exemplo.

"Cabe informar que as amostras já analisadas na tarde desta terça-feira (07) na Estação de Tratamento do Guandu não apresentaram alteração quanto ao cheiro e ao gosto, estando dentro dos padrões. Ao longo do sistema, porém, a água ainda pode apresentar gosto e cheiro alterados em alguns locais. Por isto, a Cedae continuará monitorando todo o sistema de abastecimento ao longo da semana."

Procurada para esclarecer um possível aumento nos atendimentos nas unidades de saúde, a Secretaria Municipal de Saúde informou que "o aumento de casos de gastroenterites, doenças que não têm notificação obrigatória, no verão e após festas de fim de ano é normal, principalmente em função do consumo de alimentos de procedência duvidosa ou com armazenamento inadequado".

A pasta disse ainda que pacientes com diversas doenças podem apresentar os sintomas de diarreia e vômito. A secretaria estadual disse também que não é possível fazer esse levantamento relacionando os atendimentos ao consumo da água.

Cotidiano