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Pais de sumido após abordagem pedem informação, mas polícia alega 'sigilo'

Carlos Eduardo dos Santos Nascimento, 20, desaparecido após abordagem feita por policiais militares em Jundiaí (SP) - Arquivo pessoal
Carlos Eduardo dos Santos Nascimento, 20, desaparecido após abordagem feita por policiais militares em Jundiaí (SP) Imagem: Arquivo pessoal

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

21/01/2020 14h01Atualizada em 21/01/2020 16h22

Resumo da notícia

  • Carlos Eduardo desapareceu há 25 dias, após ter sido abordado por PMs em Jundiaí
  • Polícia informa que caso está em segredo de justiça e não repassa informações à família
  • Lei determina prisão de até 2 anos a servidores que se recusem a informar familiares

Quando a gente pergunta sobre a investigação, a resposta que temos é que tudo está em segredo de Justiça. Não sabemos nada sobre o que estão fazendo para tentar achar meu filho.

O relato é do segurança Eduardo Aparecido do Nascimento, 50, pai de Carlos Eduardo dos Santos Nascimento, 20, que desapareceu após ter sido abordado por três policiais militares em frente a um bar em Jundiaí (SP) em 27 de dezembro de 2019. Carlos Eduardo está desaparecido há 25 dias.

O pai relatou que, nos últimos dias, sempre que a família pede informações à Polícia Civil, recebe negativas como resposta.

"Não estão deixando nem a mãe ir nas buscas. Todas as buscas que a polícia faz, se recusam a deixar ir qualquer pessoa da família", afirmou o pai do jovem desaparecido.

A desembargadora Ivana David cogita que a polícia esteja retaliando a família por ter levado o caso à mídia.

"O que estão fazendo é se vingar da imprensa, para que a imprensa não tenha acesso a nada. Não é assim que funciona. O pai da vitima, que é o interessado no inquérito, tem que saber, que está desesperado com o filho desaparecido, tem que saber o que está acontecendo", afirmou

Procurada, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) afirmou que "as circunstâncias relativas ao caso são apuradas pela DIG de Jundiaí". A pasta também disse que "informações não podem ser passadas para não prejudicar o trabalho policial. Os dados estão disponíveis para os advogados constituídos pelas partes".

Entre cinco amigos, o único negro levado

Carlos Eduardo foi a um bar no bairro Jardim São Camilo, na periferia da cidade, às 17h de 27 de dezembro de 2019 para confraternizar com quatro amigos. Os cinco foram abordados pela PM. Apenas Carlos Eduardo, o único negro entre eles, foi colocado dentro do carro policial. Desde então, nunca mais foi visto.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Os policiais registraram internamente a abordagem dos quatro amigos brancos, mas não há registro sobre Carlos Eduardo. A Corregedoria não conseguiu localizar os amigos abordados. A reportagem apurou que todos deixaram o bairro por medo de ser mortos por policiais em uma possível retaliação. O que é corroborado pelo delegado do caso.

"Está prevalecendo a lei do silêncio, porque dizem que são PMs, que podem retaliar. Isso tem dificultado muito o nosso trabalho", afirmou o policial civil.

A principal suspeita da Polícia Civil e da Corregedoria da PM, que investigam o caso, é que três policiais do 49º BPM (Batalhão da Polícia Militar) sejam responsáveis pelo desaparecimento do rapaz. A investigação tenta descobrir o porquê. A investigação aponta que os policiais podem ter desligado o aparelho de GPS durante a ação. Os PMs suspeitos, que estão afastados, negam. O MP (Ministério Público) acompanha as investigações.

O Corpo de Bombeiros foi mobilizado para tentar ajudar a encontrar o rapaz, após cães farejadores da PM terem indicado o cheiro de Carlos Eduardo em uma mata de Jarinu, a 35 quilômetros de distância do local onde ele foi visto pela última vez. A suspeita da Polícia Civil é que nesse local os PMs podem ter parado a viatura com o jovem.

Para o Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), ocorreu um "desaparecimento forçado" e uma "grave violação de direitos humanos". Além do órgão, que é do governo paulista, entidades de direitos humanos e a ouvidora da polícia cobram elucidação do caso.

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"A procura continua. Todos os dias"

A família diz ter esperança de que a polícia consiga encontrar o jovem, mas também faz investigações por conta própria. "A procura continua. Todos os dias. A Corregedoria afirmou que os PMs foram afastados, mas queremos saber onde está meu filho", disse o pai, Eduardo Aparecido do Nascimento.

Nem Ano-Novo a gente teve. Passamos o tempo inteiro no mato do Jardim São Camilo procurando por ele. Sábado, domingo, segunda, terça, quarta. Passei o Ano-Novo buscando meu filho. Numa angústia que não sei descrever.
Eduardo Aparecido do Nascimento, 50, pai de Carlos

Segundo o pai, com medo de morrer, os quatro amigos abordados não se dispuseram a ir com a família à delegacia denunciar o caso.

A esperança do pai, que trabalha como segurança em uma faculdade de Jundiaí, é que o filho tenha cometido algum delito e que esteja detido em algum lugar, mas diz também estar "preparado para o pior".

Carlos Nascimento passou o Natal com a mãe, também em Jundiaí, e disse que passaria o Ano-Novo com o pai, já que os dois são separados.

O que eu quero ouvir é: 'seu filho está preso em tal lugar'. Mas a gente tá preparado para tudo. Se ele errou, que pague pelo erro dele. Pela nossa criação, acredito que não errou, mas espero que tenha sido isso.
Eduardo Aparecido do Nascimento, 50, pai de Carlos

Mesmo após o desaparecimento do filho, o segurança afirma que não se pode culpar toda a corporação por um possível erro.

"Aqui na cidade de Jundiaí, eu nunca ouvi algo parecido. Se realmente a polícia fez algo de errado contra meu filho, todo lugar tem maçãs podres. A única coisa que quero é encontrar meu filho", afirmou.

Eu vou te falar a verdade. Antes de acontecer tudo isso, eu pesava 120 kg. Hoje estou pesando 85 kg. Vou trabalhar, mas não tenho cabeça para trabalhar. Não consigo comer. Meu telefone toca e eu fico desesperado achando que pode ser alguma notícia.
Eduardo Aparecido do Nascimento, 50, pai de Carlos

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