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Polícia investiga domínio do tráfico sobre ocupações no Rio de Janeiro

18.mai.2020 - PMs tiram fotos em averiguação a ocupação no Rio - Ricardo Borges/UOL
18.mai.2020 - PMs tiram fotos em averiguação a ocupação no Rio Imagem: Ricardo Borges/UOL

Caio Blois

Do UOL, no Rio

24/05/2020 04h00

O tráfico de drogas usa locais ocupados por sem teto como pontos de venda na cidade do Rio de Janeiro, segundo investigações da Polícia Civil. Moradores de ocupações são expulsos ou, na maioria das vezes, dividem o espaço —e até mesmo taxas e doações— com criminosos.

A Dcod (Delegacia de Combate às Drogas) identificou que facções criminosas criam em ocupações pontos de estoque e venda de drogas, as chamadas "esticas", que funcionam como "bocas de fumo" menores nas ruas fora das favelas.

Apesar de não haver uma investigação específica para ocupações, há ao menos dez citações a elas em inquéritos de tráfico de drogas, indicando que há atuação do crime organizado nesse tipo de moradias. As citações acontecem em depoimentos e relatórios de inteligência.

De acordo com ONGs ouvidas pela reportagem do UOL, as ocupações explodiram na capital fluminense a partir das obras para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. Com a pandemia do coronavírus, o cenário piorou.

"Tem cada vez mais gente na rua. Pessoas que trabalham informalmente, nessa época de pandemia, não têm como pagar aluguel ou diárias onde viviam. Você vê uma mistura de moradores de rua, de fato, com outras pessoas que estão nesta situação nesse momento", afirmou a diretora jurídica de uma ONG, que preferiu não se identificar.

Bairros de baixa renda, como a zona portuária do Rio, foram revitalizados, e antigas casas foram demolidas para dar lugar a prédios luxuosos. Sem teto, muita gente foi parar nas favelas, e outros acabaram nas ruas.

Em alguns casos, movimentos sociais operam junto da população, ajudando na mobilização e reivindicação de direitos. O objetivo dessas iniciativas geralmente é instalar-se em construções vazias e solicitar um financiamento do Minha Casa, Minha Vida, o maior programa de moradia social do governo federal, executado pela Caixa Econômica Federal.

Quando a ajuda é concedida, o que não tem acontecido no governo Jair Bolsonaro (sem partido), pode-se reformar o edifício ou até realizar uma nova construção no local para moradia social.

No entanto, quando os movimentos sociais não aparecem, o tráfico de drogas se infiltra, geralmente com a presença de algum membro da facção que domina a favela mais próxima do local.

Assim, pouco a pouco, fazem do local uma "estica" e, em alguns casos, expulsam as famílias. Na maioria das vezes, os sem teto precisam conviver com traficantes e outros tipos de criminosos, dividindo a ocupação e até pagando taxas, sejam financeiras ou de objetos provenientes de doações.

"Estávamos em uma ocupação no centro [do Rio]. Fui a primeira a entrar, por isso centralizava e dividia as doações de maneira homogênea. Até que o representante do tráfico me coagiu e me convidou a me retirar. Eles não expulsam, mas ameaçam de outras maneiras", disse uma moradora de um casarão no centro, que se mudou para outra ocupação.

"Eles ficaram com tudo o que eu já tinha, além das doações. E trocam tanto os objetos quanto doações por dinheiro, sexo e drogas", completou ela, que preferiu não se identificar.

Procurada oficialmente pela reportagem, que visitou algumas ocupações, a Polícia Militar preferiu não se posicionar, apesar de ter feito, mesmo durante a pandemia, ações de averiguação em casarões no centro do Rio.

Cotidiano