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Imagens mostram que PM de folga viu, mas não impediu agressão contra médica

Fotos mostram que PM de folga não impediu agressões

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

05/06/2020 11h57

Resumo da notícia

  • Luiz Eduardo estava próximo no momento em que vítima foi jogada no chão
  • Após a queda, Ticyana sofreu uma fratura no joelho esquerdo
  • PM acompanhou à distância agressão sofrida por morador durante confusão
  • Apesar das imagens, defesa nega que PM tenha presenciado agressão
  • PM investiga omissão de socorro; agente é afastado de batalhão

Imagens feitas por uma moradora mostram que o policial militar Luiz Eduardo dos Santos Salgueiro viu, mas não impediu as agressões à médica Ticyana Azambuja no último sábado (30) no Grajaú, zona norte do Rio. O PM, que estava de folga na ocasião, teve o carro depredado pela anestesista —ela havia pedido pelo fim de uma festa clandestina no local.

Identificado como um dos agressores, o comerciante e anfitrião Rafael Martins Presta, que comemorava o seu aniversário, carregou Ticyana nas costas enquanto ela era agredida por outras duas pessoas. Luiz Eduardo aparece próximo à vítima no instante em que ela é jogada no chão, sofrendo uma fratura no joelho esquerdo.

O caso está sendo investigado pela 20ª DP (Vila Isabel) pelo crime de lesão corporal. A corregedoria da PM-RJ (Polícia Militar do Rio de Janeiro) abriu inquérito para apurar se houve omissão de socorro do PM envolvido na confusão, que atua no Batalhão de Choque.

Luiz Eduardo foi afastado do Batalhão de Choque, onde cumpria funções administrativas. Com um carro avaliado em R$ 100 mil, o sargento recebeu um salário líquido de R$ 5.776,95 no mês de maio e tem renda complementar como empresário (ele é proprietário de um petshop).

O PM registrou um BO contra a médica pelo crime de dano ao patrimônio.

O UOL teve acesso às imagens e analisou a movimentação do policial militar na cena do crime. De blusa preta e bermuda, ele cruza com Rafael enquanto o agressor carrega a vítima. Mas não impede a ação. Em seguida, fica de frente para Ticyana, que estava com o rosto para trás, e aponta na direção onde estava o veículo danificado, estacionado irregularmente na rua Marechal Jofre, em frente à festa. No momento da queda, próximo ao seu carro, ele apenas observa e segue em pé.

A sequência de fotos mostra que Ticyana permanece no chão, no lado direito do veículo danificado do PM de folga, uma Mini Cooper de 2014. É possível diferenciar os moradores que se aproximam, com máscaras de proteção, dos frequentadores da festa clandestina, que não usam o equipamento para prevenir o contágio em meio à pandemia.

Uma nova confusão começa quando um morador, de camisa verde, aciona a polícia pelo celular, segundo relato de testemunhas. Rafael, que agora aparece sem camisa na cena, se aproxima e aborda o rapaz, com a cabeça inclinada para frente, enquanto ele fala ao celular.

A mulher que agrediu Ticyana com puxões no cabelo agora tenta acalmar Rafael e o afasta. Mas outro homem se aproxima e agride o morador com um soco. Um sujeito sem camisa também parte para cima do morador, mas é contido. Luiz Eduardo, que falava ao celular, só observa a cena, à distância.

'O PM deveria ter impedido agressão', diz Storani

Capitão veterano do Bope, a tropa de elite da PM-RJ, o antropólogo Paulo Storani reprova a conduta de Luiz Eduardo na cena do crime. "O policial não deixa de ser policial quando está de folga. Diante de um fato configurado como crime e, se houver condições de segurança, ele deve agir", diz.

Segundo ele, a função do PM é de preservar vidas em uma situação de conflito. "Proteger as pessoas de atos de violência faz parte da função do policial. O PM deveria ter impedido a agressão contra a médica e não impediu. O que aconteceu foi uma covardia", critica.

Procurada pelo UOL, a PM-RJ informou que a corregedoria da corporação está apurando a conduta do sargento na cena do crime. "Caso seja confirmada [a omissão], configura grave desvio de conduta", afirma, em um dos trechos da nota.

A corporação também apura a ação dos policiais militares acionados para atender à ocorrência, os relatos de moradores sobre queixas anteriores em relação à festa clandestina e o fato de a ocorrência não ter sido encaminhada para a delegacia, em razão dos crimes de agressão e dano ao patrimônio.

O que diz a defesa do PM

Apesar de informar ter tido acesso às imagens, o advogado Roger Couto Doyle Ferreira, que representa Luiz Eduardo, negou que o PM tenha presenciado as agressões ou se omitido de agir.

"O policial militar Luiz Eduardo dos Santos Salgueiro não teve nenhum envolvimento no evento e não presenciou os fatos", disse.

A defesa afirma que há imagens que fazem parte do inquérito policial e ainda não foram divulgadas que comprovam a sua versão.

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