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Coronavírus

Imagens e médica contrapõem versão de agressor sobre espancamento no Rio

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

04/06/2020 16h39

Imagens das agressões sofridas pela médica Ticyana Azambuja, espancada em frente a uma festa clandestina no sábado (30) no Grajaú, zona norte do Rio, contrapõem a versão de um dos agressores. A defesa do comerciante Rafael Martins Presta, flagrado em vídeo com a vítima nas costas enquanto ela era agredida por outras duas pessoas, disse que Ticyana se feriu ao tentar fugir.

A cena também foi registrada por uma moradora, que fotografou os ataques da janela do seu apartamento, em frente ao local do crime. A médica disse, em depoimento à polícia, que fraturou o joelho esquerdo ao ser jogada no chão por Rafael. Ela também sofreu lesões nas duas mãos, que foram pisoteadas.

1.jun.2020 -  Uma foto nas redes sociais mostra, inclusive, um copo feito em homenagem à festa, onde está escrito: "Rafa 3.8", acima de uma foto do "meme dos caixões", possivelmente em alusão ao descumprimento do isolamento social em meio à pandemia - Reprodução - Reprodução
1.jun.2020 - Foto nas redes sociais mostra um copo feito para a festa de aniversário de Rafael Presta
Imagem: Reprodução

Rafael Presta é proprietário da casa onde ocorriam as festas —apesar de decretos na cidade e no estado proibirem aglomerações— e comemorava o seu aniversário quando ocorreu a confusão. Foto que circula em redes sociais mostra, inclusive, um copo feito especialmente para a festa, onde se lê "Rafa 3.8" acima de uma foto do "meme dos caixões".

Ele também aparece nas imagens sem camisa, enquanto era contido quando um morador foi agredido após tentar defender Ticyana —essa agressão foi relatada pela anestesista em depoimento à Polícia Civil.

1.jun.2020 - Rafael carrega a médica Ticyana Azambuja enquanto ela é agredida por frequentadores de uma festa clandestina no Grajaú, zona norte do Rio - Reprodução - Reprodução
1.jun.2020 - Rafael carrega a médica Ticyana Azambuja enquanto ela é agredida por frequentadores de uma festa clandestina no Grajaú, zona norte do Rio
Imagem: Reprodução

"A sra. Ticyana apresentou lesões que resultaram da queda que ela sofreu ao tentar se evadir (encapuzada e empunhando um martelo)", escreveu o advogado Carlos Eduardo Gonçalves, que representa o comerciante, em um trecho da nota.

Após tocar a campainha da festa a fim de pedir para baixar o som, a médica disse ter ouvido um palavrão como resposta e quebrou o vidro traseiro e um retrovisor de um carro pertencente a um frequentador da balada. Ticyana disse ter sido perseguida por homens que estavam na festa.

"Eles vieram pra me matar. Saí correndo. Um deles gritou: 'Não adianta correr, porque nós vamos te matar'. Eles me pegaram, me enforcaram e me jogaram no chão, como se eu fosse um saco de batatas. Eu desmaiei. Quando acordei, estava com uma bota em cima do meu tórax. Não conseguia respirar", disse a vítima à imprensa após prestar depoimento nesta semana à polícia.

Procurada pelo UOL, a advogada Maíra Fernandes, que representa Ticyana, contestou a versão apresentada pela defesa de Rafael Presta. "As imagens falam por si. Há muitas fotos e vídeos que registram os momentos de agressão. Ticyana é uma mulher de 1,50 m e 45 kg, que foi brutalmente agredida e poderia ter morrido", disse.

Em nota, o advogado de Rafael disse também que a PM-RJ foi acionada por seu cliente e convidados da festa para atender a ocorrência e acusou Ticyana de "incitar ódio e violência nas redes sociais" contra aqueles que comemoravam o aniversário.

"Ticyana em momento algum incitou ódio e violência nas redes, ao contrário. A manifestação de ontem foi absolutamente pacífica, com mulheres, jovens e crianças cantando e pedindo, justamente, o fim da violência", rebateu a advogada da médica.

O defensor de Rafael disse ainda que não houve descumprimento às regras de isolamento social, apesar de os frequentadores da festa estarem sem máscara de proteção. "[A festa foi] organizada para poucos convidados, ao ar livre, no meio da tarde e cercada de todas as precauções necessárias para a prevenção ao coronavírus."

Fotos registram as agressões sofridas pela médica Ticyana Azambuja

Relembre o caso

A anestesista, que atua na linha de frente no combate ao novo coronavírus, disse ter sido xingada por palavrões ao tocar a campainha do local onde ocorria a festa para reclamar do barulho.

Em seguida, admitiu ter quebrado o retrovisor e o vidro traseiro do carro do policial militar Luiz Eduardo dos Santos Salgueiro. Depois disso, relatou ter sido perseguida por frequentadores da festa clandestina, que a agrediram.

Moradores da rua Marechal Jofre, no Grajaú, onde ocorreu o caso, dizem que as festas clandestinas se intensificaram em meio à pandemia.

Ela ainda acusou bombeiros que presenciaram a cena de omissão de socorro. As investigações do caso estão sendo mantidas em sigilo pela 20ª DP (Vila Isabel). A Corregedoria da PM-RJ (Polícia Militar do Rio de Janeiro) abriu investigação para apurar a participação de Luiz Eduardo no caso.

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