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Jurema Werneck: Protestos contra estátuas e governos apontam sistema falido

Do UOL, em São Paulo

11/06/2020 16h01Atualizada em 11/06/2020 22h31

Jurema Werneck, diretora da Anistia Internacional no Brasil, afirmou hoje em participação no programa UOL Entrevista que os atos antirracistas recentes ao redor do mundo, contrário a governos e promovendo a derrubada de estátuas de personalidades históricas ligadas à escravidão são a demonstração de um sistema falido.

"É preciso que todos reflitam que as estátuas são formas de representação, discursos que falam da história. Mais do que falar do passado, tentam influenciar o futuro. Quando dizem que uma determinada figura foi responsável por pilhagem, assassinatos, massacres e esta pessoa é tratada como herói, o que estão tentando é legitimar a violência para organizar o futuro, uma forma de organizar o pensamento da sociedade", disse Werneck em resposta ao colunista do UOL Leonardo Sakamoto e à repórter Paula Rodrigues.

A diretora da Anistia Internacional disse que não é à toa que o movimento negro no Brasil demanda representatividade de seus líderes históricos entre os heróis nacionais, como Zumbi dos Palmares.

Estátua não é apenas uma estátua. Portanto é preciso que a sociedade afirme como símbolos os que nos ajudam a superar o que de pior a gente já produziu. Não estou advogando para derrubar ou não estátuas, mas para olhar para o que é válido na atual sociedade e propor coisas melhores. Porque o passado idolatrado por quem está no poder nos trouxe até aqui, à pandemia e ao pandemônio. [O filósofo] Cornel West disse que, nos Estados Unidos, é uma demonstração de um sistema falido, e aqui é também.

"A nação é um edifício, e o racismo é o alicerce"

Para Werneck, manifestações de rua e a derrubada de estátuas, porém, não são por si só suficientes para que a sociedade supere definitivamente o racismo. Ela defendeu uma luta antirracista permanente e afirmou que ninguém tem desculpa para se isentar.

É preciso reconhecer que o racismo é estrutural e muito profundo. O edifício que é a nação, o alicerce desta nação é o racismo. Queremos desmontar o racismo, e ao mesmo tempo reconstruir o edifício que é esta nação, formando outra. São muitas mudanças, muito profundas.

Passeatas e manifestações, argumentou a diretora da Anistia, semeiam mudanças e são um chamado à ação que não se resume a uma questão de horas, mas levam o tempo de uma vida. "Não tem uma fórmula. A única que enxergo é o movimento permanente, o tempo todo seguindo a lógica da capoeira e mantendo o ritmo das coisas, estando pronto para construir o momento da mudança."

Marielle Franco

"Se Marielle não tivesse sendo brutalmente assassinada, ela estaria na luta neste momento. Tudo que estamos falando, injustiça, desigualdade, racismo? Ela era uma de nós, estaria neste momento certamente liderando grandes segmentos populacionais nesta luta", disse Werneck.

A diretora da Anistia Internacional afirmou que o assassinato da vereadora em 2018, ainda não esclarecido, é parte de uma tradição de violência no Brasil que silencia quem luta por mudanças.

"Marielle foi assassinada no centro da cidade, a caminho de casa, numa cidade com câmeras, com centro de controle, que em tese observa tudo, e mesmo assim acontece. Mais de dois anos, e as autoridades ainda estão tateando pelos responsáveis", ressaltou Werneck, que criticou a falta de transparência das autoridades sobre as investigações.

Nesse tempo todo outras lideranças foram ameaçadas e assassinadas. Esse silêncio das autoridades, a falta de transparência, também é parte dessa teia de violências.

Lugar dos brancos na luta antirracista

As ações antirracistas, disse Werneck, devem contar com a colaboração de brancos falando a partir de seu próprio lugar: "Não é falar por nós, usar de seus privilégios. Mas falar como branco, entre brancos é fundamental".

A diretora afirmou que o racismo permeia as relações cotidianas e comentou que há estudos que apontam que a voz do branco antirracista tem um efeito importante nessas esferas.

"Tem um lugar para o branco no antirracismo. É preciso que esta voz branca seja cada vez mais ativa", afirmou. Uma frente de ação concreta para os brancos, argumentou, é a participação em movimentos e levantar debates públicos sobre o tema.

"Muitos são jornalistas, por exemplo, há um debate sobre quem são as fontes destes jornalistas. Outros são da área da saúde, e todos sabem como a discriminação acontece diariamente no sistema de saúde, então é hora de interromper ali. Outros são políticos, empresários? Então há muito que as pessoas podem fazer. Além de recusar a carteirinha de clube dos racistas, é preciso agir ativamente para tirar o racismo do seu lugar."

"Autoridades viram as costas aos vulneráveis", diz Werneck

A diretora da Anistia Internacional no Brasil também criticou as ações do governo no combate ao coronavírus no Brasil. Ela apontou negligência do poder público em relação às populações negras e periféricas — principais vítimas da covid-19 no país.

Todos que são da área da saúde, e posso dizer porque atuei muito, todos sabem que os grupos mais vulneráveis estão extremamente vulneráveis em qualquer pandemia. Quando se instituiu uma comissão [no Ministério da Saúde], já era sabido que se não se fizesse alguma coisa naquele momento, estas populações sofreriam muito mais. A população sofre das negligências das autoridades: nós vimos o presidente da Caixa chamar 46 milhões de pessoas de invisíveis, mas não são invisíveis.

Werneck afirmou que vê as manifestações antirracistas e em defesa da democracia, que têm acontecido em meio à pandemia, como parte de um cenário de luta pela vida.

"Quem foi para rua protestar contra restrições da liberdade e quem foi protestar contra o racismo, a violência, a brutalidade policial e a morte de pessoas pela polícia, elas chamam atenção para situações muito grave que estão ocorrendo. Tem gente que chama esse momento de pandemia de 'pandemônio', ou seja, muita coisa errada e fora de lugar, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Chega o momento que as pessoas dizem o que George Floyd disse, tentam respirar. É um momento de grande parte da sociedade tentando respirar e sair vivo no final."

Participaram desta cobertura Arthur Sandes, Gabriela Sá Pessoa (redação) e Diego Henrique de Carvalho (produção).

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