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20% da família de Flordelis está envolvida na morte do marido, diz delegado

A deputada federal Flordelis (PSD-RJ) no enterro do marido, o pastor Anderson do Carmo de Souza, em junho do ano passado. Ela foi denunciada hoje como mandante e mentora do crime - Wilton Junior/Estadão Conteúdo
A deputada federal Flordelis (PSD-RJ) no enterro do marido, o pastor Anderson do Carmo de Souza, em junho do ano passado. Ela foi denunciada hoje como mandante e mentora do crime Imagem: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Andreia Martins e Marcela Lemos

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL, no Rio

24/08/2020 09h38Atualizada em 26/08/2020 15h12

O delegado titular da DHNSGI (Divisão de Homicídios de Niterói, Itaboraí e São Gonçalo), Antônio Ricardo, afirmou hoje que 20% da família da deputada federal Flordelis (PSD-RJ) está envolvida na morte do pastor Anderson do Carmo, marido dela. Ele foi assassinado em junho de 2019 na casa em que morava com a família em Niterói (RJ). Nove integrantes da família, que tem o casal e 54 filhos, foram denunciados. Oito deles estão presos.

O MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) e a Polícia Civil concluíram as investigações e denunciaram Flordelis como mentora e mandante do crime. Em uma operação realizada hoje, cinco filhos e uma neta da deputada foram presos. Outros dois filhos dela já estavam presos há mais de um ano.

Todas as buscas que foram feitas mostraram que essas pessoas estavam envolvidas. São 11 pessoas respondendo criminalmente. Temos 20% da família envolvida nesse crime
Antônio Ricardo, delegado titular da DHNSGI

"A investigação chegou a essa conclusão. A motivação é porque ela estava insatisfeita com a forma como o pastor Anderson tocava a vida e fazia a movimentação financeira", encerrou o delegado.

Os filhos de Flordelis (Adriano dos Santos Rodrigues, André Luiz de Oliveira, Carlos Ubiraci Francisco da Silva, Marzy Teixeira da Silva e Simone dos Santos Rodrigues) foram presos na casa da parlamentar em Niterói (RJ). Rayane dos Santos Oliveira, neta da deputada, foi presa no apartamento funcional da política em Brasília. No total, o casal tem 54 filhos, entre biológicos e adotivos.

Além dos seis familiares, dois filhos de Flordelis (Flávio dos Santos Rodrigues e Lucas de Souza) foram denunciados, mas ambos já estão presos há mais de um ano. A denúncia ainda inclui o ex-PM Marcos Siqueira Costa, que já estava preso, e a mulher dele, Andrea Santos Maia, com participação, mas ambos não são familiares de Flordelis.

O advogado Maurício Mayr, que defende a deputada, disse que ela foi ouvida na condição de testemunha e que a defesa só teve acesso ao processo hoje e estudará os documentos.

"A deputada desde o início desse segundo inquérito foi tratada como testemunha, vindo a ser indiciada agora no final e denunciada. Tivemos acesso hoje ao processo, vamos fazer análise e estudo do caso. Ela figurava como testemunha na ocasião e não atrapalhou as investigações. Todos foram encontrados, as pessoas que tiveram a prisão em seu desfavor. O passaporte dela vai ser entregue pelos advogados conforme determinação da 3ª Vara Criminal. A juíza da Vara acertadamente falou da desnecessidade de prisão preventiva da deputada, apesar de ter a imunidade parlamentar, ela entendeu ser desnecessário prendê-la neste momento até por causa do lapso temporal que se passou desde o fato até o presente momento. Vamos estudar o processo, vamos fazer os pedidos pertinentes em favor dela, pois acreditamos na inocência dela."

Qual é o envolvimento dos filhos presos?

A denúncia apresentada à Justiça aponta que Flávio, em conluio com Lucas, Flordelis e os demais denunciados, participaram do assassinato de Anderson do Carmo de Souza, em 16 de junho de 2019. O pastor foi morto na casa da família em Niterói.

De acordo com o delegado Allan Duarte, a primeira fase da investigação identificou Flávio como executor do crime e Lucas como a pessoa que comprou a arma utilizada no assassinato. Os dois já estão presos há mais de um ano.

Carlos Ubiraci é citado por participação no planejamento da morte, Marzy é apontada como responsável por cooptar Lucas para participar do crime, e Adriano teria auxiliado na carta falsa enviada por Lucas, que atribuiu a pessoas diversas a autoria e ordem para a prática do homicídio.

Os filhos André Luiz e Simone estão envolvidos em uma tentativa de envenenamento ao pastor, anterior ao assassinato. O primeiro teria combinado o ato com Flordelis, enquanto a segunda teria cometido o crime. Marzy também teria participado do envenenamento, assim como Rayane, citada como a responsável por buscar autores para os dois crimes.

O crime

O pastor Anderson do Carmo foi assassinado dentro da própria casa no bairro Badu, em Niterói, no dia 16 de junho do ano passado. Na ocasião, Flordelis relatou em depoimento e à imprensa que o pastor teria sido morto durante um assalto. Ela informou ainda que eles tinham sido seguidos por elementos suspeitos em uma moto quando retornavam para casa.

Como tem imunidade parlamentar, Flordelis não foi presa. Ela foi indiciada pelo crime de homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio, falsidade ideológica, uso de documento falso e organização criminosa majorada.

A DHNSGI vai encaminhar à Câmara dos Deputados Federal cópia do inquérito com resultado da investigação para adoção de medidas administrativas cabíveis. O procedimento poderá levar ao afastamento da parlamentar para que ela responda pelo crime na prisão.

Em nota, o presidente nacional do PSD, o ex-ministro Gilberto Kassab, disse que o partido irá suspender a filiação da deputada em razão de seu indiciamento. "E, a partir dos desdobramentos perante a Justiça, serão adotadas as medidas estatutárias para a expulsão da parlamentar dos seus quadros."

A denúncia

A denúncia apresentada à Justiça aponta que Flávio dos Santos Rodrigues, em conluio com Lucas Cézar dos Santos de Souza, Flordelis e os demais denunciados, participaram do assassinado de Anderson do Carmo de Souza, em 16 de junho de 2019. O pastor foi morto na casa da família em Niterói.

De acordo com o delegado Allan Duarte, a primeira fase da investigação identificou Flávio dos Santos Rodrigues, filho biológico da deputada, como executor do crime e Lucas César dos Santos, filho adotivo do casal, como a pessoa que comprou a arma utilizada no assassinato. Os dois já estão presos.

Segundo a investigação, Flordelis planejou o homicídio e foi responsável por arregimentar e convencer o executor direto e demais acusados a participarem do crime sob a simulação de ter ocorrido um latrocínio. A deputada também financiou a compra da arma e avisou da chegada da vítima no local em que foi executada, segundo a denúncia.

O motivo do crime, descreve a denúncia, seria o fato de a vítima manter rigoroso controle das finanças familiares e administrar os conflitos de forma rígida, não permitindo tratamento privilegiado das pessoas mais próximas a Flordelis, em detrimento de outros membros da numerosa família.

As ações dos demais denunciados são descritas em diferentes etapas como no planejamento, incentivo e convencimento para a execução do crime, assim como em tentativas de homicídio anteriores ao fato consumado, pela administração de veneno na comida e bebida da vítima, ao menos seis vezes, sem sucesso, segundo apontaram as investigações.

A parlamentar e os demais denunciados são acusados de usar documento falso, por tentarem, através de carta redigida por Lucas, atribuir a pessoas diversas a autoria e ordem para a prática do homicídio. Segundo a denúncia, o executor Flávio tinha o objetivo de livrar ele próprio e Flordelis da responsabilização do crime. Flordelis também tinha o objetivo de vingar-se de dois de seus filhos "afetivos" que não teriam aceitado as ordens de calar ou faltar a verdade durante os depoimentos. Os réus responderão também por associação criminosa.

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Outro lado

A deputada sempre negou participação no crime. O advogado Maurício Mayr, que defende a deputada, disse que ela foi ouvida na condição de testemunha e que a defesa só teve acesso ao processo hoje e estudará os documentos.

"A deputada desde o início desse segundo inquérito foi tratada como testemunha, vindo a ser indiciada agora no final e denunciada. Tivemos acesso hoje ao processo, vamos fazer análise e estudo do caso. Ela figurava como testemunha na ocasião e não atrapalhou as investigações. Todos foram encontrados, as pessoas que tiveram a prisão em seu desfavor. O passaporte dela vai ser entregue pelos advogados conforme determinação da 3ª Vara Criminal. A juíza da Vara acertadamente falou da desnecessidade de prisão preventiva da deputada, apesar de ter a imunidade parlamentar, ela entendeu ser desnecessário prendê-la neste momento até por causa do lapso temporal que se passou desde o fato até o presente momento. Vamos estudar o processo, vamos fazer os pedidos pertinentes em favor dela, pois acreditamos na inocência dela."

O advogado dos cinco filhos e da neta da parlamentar presos hoje, Luiz Felipe Alves, disse que o processo está em segredo de Justiça, o que implicou na demora da leitura dos autos. Segundo ele, já é possível afirmar que os argumentos da decisão são genéricos "sem qualquer individualização quanto a real e efetiva necessidade de prisão cautelar para cada um dos acusados".

Em nota, a defesa enfatizou que os filhos e a neta da parlamentar são "pessoas íntegras, primárias, detentoras de ótimos antecedentes, com residência fixa e trabalho lícito". "Ademais, ressalta-se que permaneceram em liberdade durante toda a tramitação do inquérito policial que perdurou cerca de um ano e dois meses, inclusive colaborando com a investigação, não sendo demonstrado, de forma concreta, a efetiva necessidade de agora se verem presos preventivamente".

A nota termina dizendo que a defesa aguardará o amplo acesso a todo conteúdo do inquérito policial junto à Justiça "para tomar as medidas jurídicas cabíveis na busca da revogação da desnecessária prisão preventiva decretada em desfavor dos mesmos". A defesa do ex-PM Marcos Siqueira Costa e da sua mulher não foi localizada.

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