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Gestão Covas concentrou em ano eleitoral 2/3 de gastos com asfalto em SP

A dois meses da eleicao, capital virou canteiro de obras. Obra na rua Jeruaba com a rua Campo Belo do Sul, na zona norte - Rivaldo Gomes/Folhapress
A dois meses da eleicao, capital virou canteiro de obras. Obra na rua Jeruaba com a rua Campo Belo do Sul, na zona norte Imagem: Rivaldo Gomes/Folhapress

Cleber Souza

Do UOL, em São Paulo

02/01/2021 04h00

A Prefeitura de São Paulo gastou mais de R$ 796 milhões em obras de recapeamento e manutenção de vias de janeiro a dezembro de 2020, ano de eleição municipal.

Levantamento feito pelo UOL, com base em informações passadas pela gestão tucana, mostra que o gasto do período equivale a dois terços do total investido em asfalto nos quatro anos de gestão tucana, incluindo o período em que o hoje governador João Doria (PSDB) esteve à frente do município (2017 a 2018). Bruno Covas foi reeleito prefeito em 29 de novembro de 2020.

Em quatro anos, a prefeitura gastou mais de R$ 1,1 bilhão com obras de manutenção de vias na cidade de São Paulo. Os valores foram corrigidos pela reportagem de acordo com a inflação do período.

Durante o período eleitoral, entre agosto e novembro deste ano, 37 vias —que correspondem a 78,4 quilômetros, quase a distância da capital até Santos, no litoral—, tiveram obras iniciadas com previsão de conclusão para dezembro.

Os valores liquidados foram destinados para serviços de recapeamento, tapa buraco, obras em faixas e corredores de ônibus.

Eles arrumam para mostrar serviço durante a eleição. Mas vem aqui na mesma época do ano que vem para você ver como vai estar. Abandonada como sempre esteve"
Rodrigo Soares, 45, vendedor e morador do Grajaú (zona sul)

Procurada pelo UOL, a prefeitura afirmou, em nota, que desde o início da gestão têm realizado ajustes fiscais e contratuais, o que "permitiu ao município ampliar a destinação de recursos para investimentos em nível superior aos anos anteriores". A gestão, mesmo questionada, não mencionou a concentração maior em gastos com obras em vias durante o período eleitoral.

"Obras visíveis"

Para especialistas ouvidos pela reportagem, políticos tendem a abrir os cofres de suas gestões na reta final de mandatos para serem "bem vistos" pela população.

Bruno Carazza, economista e professor do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais) e da Fundação Dom Cabral, aponta um padrão de gastos públicos nos ciclos eleitorais.

"Foi o que aconteceu em São Paulo: Doria conteve as despesas com manutenção de vias no seu primeiro ano, ampliando-as consideravelmente em 2018, quando se candidatou a governador (veja o gráfico). Da mesma forma, Covas concentrou a maior parte das despesas em 2020, quando buscava a reeleição", disse o professor, ao UOL.

Eles arrumam asfalto, calçadas, pintam guias. Aliás, só em época de eleição que a gente vê o bairro com um canteiro de obras. Se todo ano fosse assim nosso bairro seria um paraíso"
Marlene Cristina, 55, moradora do Grajaú

Ainda segundo ele, as despesas com asfaltamento e manutenção de vias são bem avaliadas pelos eleitores. "Do ponto de vista da qualidade do gasto público, porém, essa grande variação ao longo do mandato pode ser um sinal de falta de planejamento."

É o que também pensa Francisco Lopreato, professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Para ele, valores elevados para "obras visíveis" em período eleitoral são estratégia padrão da política brasileira.

"Funciona assim: No primeiro ano de mandato há uma cautela com o dinheiro, no segundo já se vê gastos maiores e no ano de eleição a expansão de gasto é maior. É uma estratégia de final de mandato para conseguir a reeleição. É tendência, e não só na gestão Covas", completou Francisco.

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