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Empregada: fui acusada de roubo após vendedor confundir celular com perfume

Bruna Barbosa

Colaboração para o UOL, em Cuiabá (MT)

14/01/2021 15h53

A empregada doméstica Conceição Aparecida Barão, de 51 anos, saiu do trabalho na segunda (11) e decidiu dar uma volta no centro de Cuiabá (MT). O passeio terminou com a bolsa dela sendo revistada em uma loja da Riachuelo, na Avenida Getúlio Vargas. Conceição, que é negra, foi acusada injustamente de roubar um perfume após um funcionário confundir o celular dela com o produto.

Ela contou ao UOL que, enquanto estava no setor de cosméticos da loja, pegou o celular para ver as horas e o guardou novamente na bolsa. Teria sido neste momento que o funcionário achou que ela estava roubando um perfume e pediu para outra colaboradora da loja abordar a empregada doméstica.

"Sempre saio do trabalho e passo pelo centro. Gosto de dar uma olhada nas vitrines. Fui até a Riachuelo no final da tarde, umas 17h30, entrei na loja, olhei as roupas, experimentei duas peças, mas não ficaram legais. Continuei andando. Fui ao setor de cosméticos e pensei em comprar um batom, me dei conta que a loja já estava fechando, não daria tempo de escolher a cor com calma. Fui até a sessão de toalhas e estava escolhendo duas para comprar".

Enquanto escolhia as toalhas, Conceição foi abordada por uma funcionária da loja, que perguntou se ela "levaria o que tinha pegado". Conceição contou que pensou que a mulher estava falando das toalhas e respondeu que sim. A funcionária então disse que estava falando do que a empregada tinha colocado na bolsa.

"Falei: 'Como assim? Não coloquei nada na minha bolsa. Você quer revistar?' Abri e ela olhou. Falou que outro rapaz tinha dito que me viu colocando um objeto prateado na bolsa. Mas não era um perfume, era o meu celular".

Quando foi acusada de ter colocado o perfume na bolsa, Conceição decidiu tirar satisfação com o funcionário. "Já estava tremendo de vergonha, estava muito nervosa. Tinham clientes e funcionários vendo tudo aquilo. Fui até ele e perguntei o que ele tinha me visto colocar na bolsa. Abri minha bolsa de novo e falei para ele olhar".

Ao questionar o funcionário da Riachuelo, Conceição ouviu como resposta que aquela era a "opinião dele". A empregada doméstica reforçou ainda que, durante toda a abordagem, o homem foi "muito arrogante".

"Falei para ele: 'você viu que não tem nada?' E ele disse: 'é só a minha opinião'. Falei que ele não agiu de um jeito legal comigo e ele respondeu a mesma coisa. Fiquei tão desesperada, com tanta vergonha. Me senti humilhada. Passei mal quando fui embora da loja".

Conceição contou que chegou em casa sentindo "muita vergonha" e não conseguiu dormir durante a noite, relembrando a situação. Ela foi encorajada a registrar um boletim de ocorrência e explicou que decidiu denunciar para que os netos não passem pelo mesmo no futuro.

"Fiquei pensando na razão de estar com tanta vergonha, já que não tinha feito nada de errado. Cheguei no trabalho no dia seguinte e me disseram para não 'deixar por isso mesmo'".

No dia seguinte, Conceição retornou à Riachuelo para tentar falar com o gerente. Apesar do pedido de desculpas em nome da loja, ela reforçou que pretende acionar a Justiça. Ela contou que, apesar das situações de preconceito velado, nunca havia sido tratada dessa forma dentro de um estabelecimento.

Abalada, a emprega doméstica reforçou por diversas vezes que é "honesta" e que sequer havia saído da loja para ser acusada de roubo. "Não estou me vitimizando, nem querendo piedade, só quero respeito. Todo mundo merece respeito independente da cor de pele. Ninguém sentiu o que eu senti. Foi horrível e não desejo para ninguém".

Riachuelo analisa o caso

Por telefone, a assessoria de imprensa da Riachuelo disse ao UOL que o setor jurídico está analisando o caso e que "tratativas em relação à abordagem" foram realizadas para que não voltem a se repetir.

A empresa também informou que está à disposição da Justiça para auxiliar nas investigações. Até o momento não há informações sobre medidas contra o comportamento do funcionário. A assessoria também reforçou que o caso está sendo tratado com a devida atenção.

"A Riachuelo leva a sério o respeito a todos e não compactua, nem concorda, com atitudes e abordagens equivocadas. A situação relatada está sendo apurada pela empresa e todas as medidas cabíveis serão tomadas, inclusive esclarece que apesar de não ter sido intimada, está à disposição das autoridades competentes para fornecimento de maiores informações sobre o caso", disse a empresa.

Conceição Aparecida Barão, de 51 anos, conta que funcionário de uma Riachuelo, em Cuiabá (MT), confundiu o celular da cliente com um perfume.

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