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Cotidiano

Famílias investigam roubo para provar inocência de 4 jovens presos em SP

Marcelo Oliveira

Do UOL, em São Paulo

20/01/2021 12h10

Com a ajuda de advogados e vizinhos, as famílias de quatro jovens presos pela PM no Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, juntaram vídeos de câmeras de segurança que demonstram que eles não estavam na cena do crime pelo qual foram presos. Também defendem que parte do relato policial não condiz com um roubo de de carga no bairro.

Três deles continuam presos preventivamente em um CDP (Centro de Detenção Provisória) em Osasco (SP). A Justiça decretou sigilo no processo. Um quarto rapaz, Rafael Marques, 21, está em prisão domiciliar, pois sofre de transtorno bipolar.

À esquerda, namorada e pai de Kelvin, Micaele e Wilson, e à direita, os pais de Alexssandro, Alexandre e Simone, seguram faixa pedindo a liberdade de Eryk, Kelvin e Alexssandro - Marcelo Oliveira/UOL - Marcelo Oliveira/UOL
À esquerda, namorada e pai de Kelvin, Micaele e Wilson; à direita, os pais de Alexssandro, Alexandre e Simone seguram faixa pedindo a liberdade de Eryk, Kelvin e Alexssandro
Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

PMs afirmam que jovens descarregavam carga roubada

Segundo a versão da PM, Alexssandro Marques do Nascimento, 18, Eryk Bueno Pimentel, 20, Kelvin Nascimento de Amancio, 22, e Rafael foram presos por suspeita de roubo de carga após serem encontrados em um matagal, em endereço não informado no boletim de ocorrência, mas que fica atrás da Escola Municipal de Ensino Fundamental Iracema Marques.

Diz o BO que eles "estavam colocando caixas de produtos dentro de um veículo Fiesta".

Para a PM, os jovens seriam cúmplices do dono do Fiesta, Guilherme Mendes Borges da Silva, 21, reconhecido espontaneamente pelo motorista Adriel Jonas da Silva, 30, que teve sua Fiorino roubada na região. A vítima do roubo não reconheceu os outros quatro rapazes.

A informação prestada pela PM é a base do pedido de prisão em flagrante. Serviu também de sustentação para a denúncia do Ministério Público e para a ordem de prisão preventiva mantida pela juíza Maria Fernanda Belli.

Vídeos mostram carro achado em outro lugar

As imagens obtidas pelos pais das vítimas mostram que o Fiesta foi encontrado pela PM na rua Basílio Telles, em frente à casa da avó de Guilherme, às 11h30, quando todos os cinco presos já estavam no 47º DP (Distrito Policial), no Capão Redondo. Apenas cinco das 15 caixas roubadas estavam no carro. O BO diz que o veículo foi achado no matagal, com os rapazes presos.

As imagens apontam que, antes de ser preso, Guilherme e outro rapaz descarregaram a carga da Fiorino na Basílio Telles, colocando parte da carga na casa da avó e outra no Fiesta, com a ajuda de dois jovens —que não são Alexssandro, Eryk, Kelvin nem Rafael, segundo os parentes.

Quando o Fiesta foi encontrado pela PM, um celular foi apreendido no carro. A avó de Guilherme declarou ser dona do aparelho. Mesmo assim, não foram feitas buscas na casa.

O encontro do carro de Guilherme e de parte da carga em endereço diferente do informado na ocorrência indica, segundo a família, que os PMs mentiram ou houve falha no registro da ocorrência.

Enquanto Guilherme fugia, jovens iam para a escola

Os vídeos também mostram Guilherme passando com a Fiorino roubada pela rua Vasco Fernandes, a caminho da rua Basílio Telles, às 9h40.

A câmera da escola registrou que Alexssandro, Eryk, Kelvin e Rafael haviam passado pelo portão da escola em direção ao matagal onde foram presos, entre 9h11 e 9h24, de acordo com o horário da gravação. Os jovens mandaram fotos para os amigos, no terreno atrás da unidade de ensino.

Para chegar ao matagal, um dos caminhos possíveis é pela área de lazer do bairro, em terreno que margeia o da escola. No fundo da escola há um gramado e um muro baixo divide a área de lazer pública do matagal, que fica em uma antiga chácara invadida.

"Eles infelizmente têm o hábito de fumar maconha e foram ao matagal de manhã. A movimentação da polícia chamou a atenção e eles foram para a frente da escola ver o que acontecia", diz a agente de saúde comunitária Simone Moraes Nascimento, 37, mãe de Alexssandro, que trabalha na Unidade Básica de Saúde ao lado da escola. "Foi então que a polícia chegou na escola atirando. Eles correram com medo e foram presos no matagal."

Imagem de celular feita por moradores do bairro e enviada aos pais das vítimas registra que a prisão dos quatro jovens ocorreu na rua Ana Aslam, onde há um acesso para o matagal. Simone acompanhou a prisão do filho. "Na hora me disseram que ele estava sendo detido para averiguação", disse. Outro vídeo mostra um helicóptero sendo usado na operação. Da aeronave, foram disparados cinco tiros em relação ao solo.

Camiseta pede a liberdade para Kelvin, Alexssandro e Eryk (da esq. para a dir.) - Marcelo Oliveira/UOL - Marcelo Oliveira/UOL
Camiseta pede a liberdade para Kelvin, Alexssandro e Eryk (da esq. para a dir.)
Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

Pais investigaram o caso e juntaram imagens de câmeras de segurança

"Investigamos o caso e conseguimos vídeos de câmeras de segurança da escola e de duas ruas por onde Guilherme passou com a Fiorino", conta Simone.

Além das imagens, o pai de Kelvin, Wilson Camargo de Amâncio, 46, também foi procurado pelos dois jovens que auxiliaram Guilherme a descarregar a Fiorino. "Eles me disseram: 'tio, seu filho não tem nada a ver com o caso'."

A família recebeu apoio até de familiares de Guilherme, que não concordam com o seu envolvimento em atividades criminosas.

O ouvidor Elizeu Soares Lopes, de terno, recebe o pai de Eryk, os pais de Alexssandro e a advogada Luise Aguirre - Marcelo Oliveira/UOL - Marcelo Oliveira/UOL
O ouvidor Elizeu Soares Lopes, de terno, recebe o pai de Eryk, os pais de Alexssandro e a advogada Luise Aguirre
Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

Políticos, ONG, Ouvidoria e OAB no caso

O caso é acompanhado pela Mandata Ativista, do PSOL, e pela Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio, que procurou o Ministério Público para que fosse ouvida a versão dos quatro rapazes.

A pedido dos advogados Arnóbio Rocha e Luise Aguirre, da Comissão de Direitos Humanos da OAB-São Paulo, o caso foi levado à Ouvidoria da Polícia, que abriu procedimento na segunda-feira (18) sobre o caso e tomou os depoimentos dos pais de Alexssandro e do pai de Eryk, Henrique Eduardo Pimentel.

"Pela prova juntada, é nítido que estes jovens são inocentes", afirmou o ouvidor da Polícia, Elizeu Soares Lopes. A Corregedoria da Polícia Militar, o Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Polícia Civil) e o MP já foram oficiados pela Ouvidoria.

Juíza negou liberdade provisória de jovens

Na esfera judicial, em 8 de dezembro, o advogado Wagner de Souza, que representa Eryk e Alexssandro, encaminhou os vídeos à Justiça e pediu a liberdade provisória de seus clientes, mas o pedido foi negado pela juíza Maria Fernanda Belli, em 17 de dezembro, às vésperas do recesso.

Segundo a magistrada, havia na ocasião "contundentes indícios de autoria e prova de materialidade". A juíza registrou ainda na decisão que "não há prova de vínculos dos jovens presos com o distrito da culpa", apesar de os quatro jovens morarem na casa dos pais e serem estudantes.

O UOL tentou localizar representantes do acusado Guilherme, mas, em virtude do sigilo dos autos, não conseguiu encontrar seus advogados.

O que dizem a Polícia, Ministério Público e a Justiça

Em nota enviada pela Secretaria Estadual da Segurança Pública, a Polícia Civil informou que concluiu o inquérito policial e o encaminhou ao Ministério Público, "que solicitou a prisão preventiva dos indiciados, tendo a Justiça ratificado a decisão e decretado o encarceramento de todos [os cinco]".

Já a Corregedoria da PM afirmou que, assim que receber o ofício da Ouvidoria, "adotará as medidas necessárias para a análise dos fatos".

O Tribunal de Justiça informou que os autos chegaram hoje à 1ª Vara Criminal para a análise do pedido de liberdade provisória, diante da juntada de vídeos apresentados pela defesa dos acusados. O TJ não esclareceu se trata-se de um novo pedido ou do mesmo apresentado em dezembro.

A assessoria de comunicação do Ministério Público informou que devido ao sigilo dos autos não poderia divulgar informações sobre o processo, contudo informaram que os vídeos foram juntados aos autos.

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