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1 mês

MP investiga presença de cadáveres junto a pacientes em hospital no Recife

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

25/06/2021 08h47Atualizada em 25/06/2021 17h34

A presença de corpos junto a pacientes internados na unidade de trauma do hospital Getúlio Vargas, localizado no bairro do Cordeiro, zona oeste do Recife, está sendo alvo de investigação do MPPE (Ministério Público de Pernambuco). A situação foi flagrada pelo Satenpe (Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem) no plantão de segunda-feira (21) e, segundo a entidade, não é a primeira vez que acontece.

Uma das imagens obtidas pelo UOL mostra dois cadáveres em sacos plásticos, um em uma cama e outro em uma maca, no meio de uma enfermaria dividindo o espaço com doentes. Em outra imagem, pacientes estão amontoados em uma enfermaria, sem espaço suficiente para locomoção de profissionais da saúde para atendê-los adequadamente.

O presidente do Satenpe, Francis Herbert, contou ao UOL que no tempo que esteve no hospital ouviu relatos de pacientes apavorados com a situação de dividir o mesmo espaço com cadáveres. Ele relatou que profissionais da saúde estão sobrecarregados porque não há funcionários suficientes para atender a demanda da unidade hospitalar.

"Foi a primeira vez que consegui registrar em imagens, mas sabemos que a demora em retirar corpos das enfermarias é algo comum nas unidades do estado de Pernambuco. Infelizmente, esta é a forma que o governo trata os doentes e os profissionais, que estão adoecendo por não terem condições de trabalho", disse o sindicalista.

O Satenpe repassou o caso para apuração no MPPE e no Coren (Conselho Regional de Enfermagem). O MPPE afirmou que a promotoria de Justiça da Saúde da Capital "recepcionou a denúncia e vai proceder com a apuração." O órgão não informou quanto tempo durarão as investigações.

Isso acontece rotineiramente e nem sempre temos acesso para evidenciar o fato da forma que fiz agora. Profissionais são proibidos de usar telefones enquanto estão trabalhando, justamente para não registrar casos como este que flagramos no plantão da segunda-feira no hospital Getúlio Vargas. A gente quer que as autoridades averiguem esse contexto que o governo está agindo, como vem tratando a sociedade e os profissionais de saúde.
Francis Herbert, presidente do Satenpe

O presidente do Satenpe disse que a área de trauma do hospital Getúlio Vargas está misturando paciente com covid-19 e paciente sem síndrome respiratória. Ele destacou que não é feito diagnóstico primário, e as emergências das unidades públicas de Pernambuco estão superlotadas. "São muitos pacientes que são colocados em risco porque não há uma separação de quem está com covid-19 ou não. O hospital não faz a triagem de síndrome gripal e testes para saber quem está infectado ou não. Esses corpos mesmo, não se sabe as causas da morte", pontuou.

Segundo Francis Herbert, os corpos ficaram pelo menos quatro horas no local antes de serem retirados. Ele contou que recebeu a denúncia porque profissionais estavam incomodados com as condições dos demais pacientes e de trabalho. "Quando cheguei já estavam lá. Então, só comigo, duas a três horas até que foram removidos, fora o tempo que me desloquei para apurar a denúncia", disse.

É traumatizante para o paciente e para os profissionais estarem naquela situação. Ali vão perdendo o contexto de se curar, o paciente só de estar do lado de alguém que morreu tem o psicológico afetado.
Francis Herbert, presidente do Satenpe

O sindicalista critica o salário dos técnicos e auxiliares de enfermagem, que tem como base o valor de R$ 774, mas para não se tornar o valor ilegal por ser abaixo do salário mínimo, o estado dá gratificações para atingir o valor de R$ 1.100,00. "Já venho fazendo denúncias de superlotação e sobrecarga do técnico de enfermagem nas unidades de saúde do estado. Naquela situação não dá como trabalhar porque não há espaço. Além disso, o risco enorme para o trabalhador, neste contexto insalubre e o mais grave: não se tem direito a receber insalubridade", afirma.

Segundo o portal do Cofen (Conselho Federal de Enfermagem) cerca de 700 profissionais morreram em decorrência da covid-19. O Satenpe afirma que em Pernambuco o número estimado é de aproximadamente 100 a 120 profissionais que morreram por covid-19.

O que diz a Secretaria de Saúde do estado

A SES-PE (Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco) informou que a direção do hospital Getúlio Vargas afirmou que "quando ocorre um óbito, a remoção do corpo é realizada de forma adequada, utilizando material específico, respeitando todos os critérios de manejo de corpos para que o procedimento seja feito com segurança pelos profissionais de saúde".

A direção do hospital Getúlio Vargas explicou que no momento da captação das imagens dos corpos junto dos pacientes estavam ocorrendo "trâmites realizados de acordo com as normas para retirada do corpo do setor de internação"."Dessa forma, realiza todos os procedimentos necessários para o manuseio adequado e encaminhamento dos corpos para o necrotério do serviço", completou.

Pernambuco registrou ontem 56 mortes em decorrência da covid-19 e 1.391 pessoas infectadas pelo novo coronavírus. Agora, Pernambuco totaliza 17.463 mortes causadas pela covid-19 e 543.564 pessoas infectadas pelo vírus. A taxa de ocupação de leitos de UTIs em Pernambuco está em 79%, sendo 368 leitos de UTI disponíveis para pacientes acometidos pela covid-19 em todo o estado. Pernambuco possui, atualmente, 1.812 leitos ativos de UTI.

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