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Pela 1ª vez, mortalidade de covid no interior supera regiões metropolitanas

Ato em Copacabana em memória dos 500 mil mortos de covid no Brasil  - JORGE HELY/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
Ato em Copacabana em memória dos 500 mil mortos de covid no Brasil Imagem: JORGE HELY/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

25/06/2021 04h00

Pela primeira vez desde o início da pandemia de covid-19 no país, em março de 2020, as cidades do interior registraram uma taxa de mortalidade superior à das regiões metropolitanas. O fato foi registrado nas semanas epidemiológicas 22 (30 de maio a 5 de junho) e 23 (6 a 12 de junho) e consta nos boletins semanais do Ministério da Saúde.

Segundo os dados oficiais, o interior teve 60% de todos os óbitos pela doença por duas semanas seguidas. Até então, o recorde era de 56% e tinha ocorrido nas semanas epidemiológicas 52 de 2020 (entre 20 e 26 de dezembro) e nas 19 e 20 de 2021 (entre 9 e 22 de maio).

Mortes de Covid por região - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Levando em conta a população, é a primeira vez que o interior (onde vivem 120,5 milhões de pessoas, ou 57% da população) supera as regiões metropolitanas (com 89,7 milhões de habitantes). Na semana 23, por exemplo, a taxa de mortalidade por 100 mil habitantes no interior foi de 6,7, contra 6,1 nas regiões metropolitanas.

Morte no sertão de Alagoas

 José Eronildo Silva, 57, morreu dia 5 em Santana do Ipanema  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
José Eronildo Silva, 57, morreu dia 5 em Santana do Ipanema
Imagem: Arquivo pessoal

Uma das vítimas foi José Eronildo Silva, 57. Conhecido como "Nildinho", ele morreu em Santana do Ipanema (AL).

"Ele era diabético, hipertenso e depressivo, morria de medo de tomar a vacina, mas tomou. Logo após tomar a primeira dose, apresentou vários sintomas. Achávamos que seria apenas uma reação da AstraZeneca. Após oito dias, levamos ao Centro de Triagem e, de imediato, o colocaram no oxigênio e o levaram para o hospital. Ele se negava a ir, mas a saturação e a oxigenação estavam baixas", conta a filha, Elen Keylla Teodósio, 30.

Depois de quatro dias, ele foi entubado, mas não resistiu. "Foram quatro dias na enfermaria e cinco na UTI [Unidade de Terapia Intensiva]. Várias perguntas ainda nos rodeiam. Foram nove dias de angústia. A cada boletim médico, havia uma esperança de melhor, mas ele veio a óbito", detalha.

Ficamos sem chão e sentimos a dor que milhares de brasileiros estão sentindo.
Elen Keylla Teodósio, filha de vítima da covid

Até esta quarta-feira, as mortes por covid-19 no interior somavam 251 mil, enquanto nas regiões metropolitanas chegaram a 255 mil.

Fatores se somam

Segundo o médico e professor nos cursos de graduação e pós-graduação em saúde coletiva da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Alcides Miranda, três fenômenos que ocorreram ao mesmo tempo em 2021 ajudam a entender o fenômeno de interiorização na atual fase pandêmica: a entrada da imunização, as mutações e maus exemplos do presidente Jair Bolsonaro.

Evidentemente que ainda não é possível distinguir e dimensionar o peso ponderado de tais fatores, mas a sua concomitância tende a ser significativa na explicação do fenômeno.
Alcides Miranda, médico

Ele ainda lembra que a pandemia se encontra em estágios diferentes pelo país. "No caso brasileiro, seria mais apropriado definir a arquitetura menos como uma sucessão de 'ondas' e mais como uma ondulação progressiva, com ondas cada vez maiores que se espalham", explica.

Miranda cita que, como não houve vacinação nacional coordenada com um plano bem definido, algumas cidades podem ter ficado para trás.

"Genericamente se priorizou os grupos mais expostos e vulneráveis (trabalhadores de saúde, idosos, pessoas com comorbidades etc.). Entretanto, pela ausência de coordenação nacional e a insuficiência de coordenações estaduais, propiciou a fragmentação de iniciativas municipais, sem a adoção de estratégias regionais mais eficazes e subsidiadas por raciocínios epidemiológicos", diz.

Nova dinâmica

Para o pesquisador Miguel Nicolelis, professor titular do Departamento de Neurobiologia da Duke University (EUA), o movimento de maior interiorização foi diferente da primeira onda no país —que começou e ficou mais concentrada nas maiores metrópoles. "A segunda onda atingiu capital e interior ao mesmo tempo, foi sincronizada. E agora esta terceira está com uma tendência de seguir esse cenário", explica.

Ele afirma que o novo cenário expõe pessoas de cidades com menos recursos ao vírus.

Isso é preocupante porque, evidentemente, o interior não tem os recursos hospitalares como se tem nas capitais. A covid-19 está difusa pelo país, com a taxa de transmissão alta em todas as regiões.
Miguel Nicolelis, neurocientista

O virologista Felipe Naveca, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Amazônia, lembra ainda que a variante Gama (P.1, descoberta primeiramente em Manaus) fez o vírus aumentar a capacidade de transmissibilidade, o que impulsionou mais a pandemia pelo país.

"Essa interiorização pode ser um movimento natural, no Amazonas também foi assim: primeiro você tem a chegada à capital. Não necessariamente uma linhagem chega uma única vez —isso aumenta as chances de sucesso na dispersão de um vírus [que ainda é mais contagioso]. Depois você tem esse processo de interiorização, e o vírus vai se alastrando", explica.

Outro ponto ressaltado por Naveca é que as capitais têm mais capacidade de diagnóstico. "Em via de regra, os interiores não têm a mesma estrutura de testagem das capitais, e assim os casos acabam não sendo detectados precocemente e vão se espalhando mais. Soma-se ainda a menor oferta de leitos de UTI e, consequentemente, uma maior sobrecarga", finaliza.

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