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Motorista de app finge estar morta após ser agredida em assalto: 'Medo'

Mulher foi agredida em vários momentos durante o assalto; segundo polícia, acusados confessaram "intenção de matar" - Reprodução/ Arquivo pessoal/ Facebook
Mulher foi agredida em vários momentos durante o assalto; segundo polícia, acusados confessaram "intenção de matar" Imagem: Reprodução/ Arquivo pessoal/ Facebook

Caio Santana

Do UOL, em São Paulo

26/07/2021 21h00Atualizada em 27/07/2021 08h25

Marcia Angola, de 40 anos, foi espancada durante um assalto na madrugada do último sábado (24). A mulher, que trabalha como motorista de aplicativo, relatou que se fingiu de morta em meio às agressões em uma tentativa de se livrar dos criminosos, que a atacaram em uma rodovia de Tangará da Serra (MT).

Apesar da tática, depois de agredi-la, os bandidos jogaram a vítima do alto de uma ponte que passa sobre o Rio Sepotuba. A Polícia Civil do estado confirmou ao UOL que registrou a ocorrência de roubo por meio de arma de fogo e tentativa de homicídio ainda na madrugada dos crimes. Os quatro suspeitos são menores de idade, segundo informou a Polícia Militar de Mato Grosso.

"A vítima chegou em um sítio pedindo por ajuda e narrando que estava trabalhando e na ocasião fez uma corrida para quatro clientes. [...] Durante a corrida os suspeitos anunciaram o assalto", informou a Polícia Civil.

Apesar de trabalhar com aplicativos de transporte, a motorista também faz viagens particulares via contato pelas redes sociais, sobretudo WhatsApp, meio que os criminosos usaram para pedir a corrida que se transformou em assalto.

A vítima detalhou em entrevista para o UOL os momentos de tensão que enfrentou e disse que os suspeitos agiram com muita agressividade durante toda a ação.

foto 2 - Reprodução/ Arquivo pessoal - Reprodução/ Arquivo pessoal
Após ser espancada a motorista ficou com vários hematomas
Imagem: Reprodução/ Arquivo pessoal

A estratégia para viver

Mesmo com a colaboração de Marcia, os assaltantes se revoltaram depois de ver que ela não tinha uma grande quantia em dinheiro. Foi então que o grupo decidiu amarrar a motorista e vendar seus olhos.

E quando a motorista acabou conseguindo se livrar da venda, devido à alta velocidade do veículo, eles ficaram ainda mais agressivos.

"Eles se irritaram porque devem ter pensado que eu vi [o rosto deles], mas eu não vi nada, estava escuro. Um cara gritou para um rapaz colocar a venda em mim e me amarrar e estava constantemente solicitando 'bate nela, enforca ela'. Pediu isso por muitas vezes e assim (ele) o fez", conta Marcia.

Foi então que ela pensou em uma estratégia: "Se eu fizer de conta que desmaiei, eles vão me deixar em qualquer lugar. Aí 'amoleci' e fiquei parada. Eles continuaram me agredindo. Um cara continuou falando 'bate nela, mata ela, quebra o pescoço dela'", detalha.

Por mais que Marcia insistisse em fingir o desmaio, os jovens só pararam com as agressões ao chegar a ponte sobre o rio Sepotuba.

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Ponte sobre o Rio Sepotuba, em Tangará da Serra (MT)
Imagem: Reprodução/ Google Maps

Jogada de cima da ponte

Depois que pararam o carro, os criminosos arrastaram Marcia até a beira da ponte, que fica na rodovia estadual MT-480. A motorista confessa que, quando percebeu a intenção do grupo, ficou com medo de cair sobre pedras ou concreto, mas acabou batendo apenas na água.

"Eu afundei, voltei para cima, abri o olho vendo eles e afundei de novo com medo deles continuarem ali. Fiquei um tempo debaixo d'água, comecei a beber muita água com medo", diz.

Levada pela correnteza do rio, Marcia voltou a olhar para a ponte e já não avistou mais os assaltantes. Ela então conseguiu alcançar uma margem e saiu da água, se aproximando de casas nos arredores da ponte procurando por ajuda.

Somente após passar pela terceira chácara ela conseguiu avistar um morador, que chamou a Polícia Militar. A motorista foi encaminhada até uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) por volta das 4 horas da manhã.

"Nem sei falar o que estou sentindo. Fisicamente ainda dói muito, apesar de não ter tido 'quebraduras'. Machucou muito da cintura para cima, meu rosto está bem deformado. Psicologicamente a gente tem medo deles voltarem. Parece que todo mundo que chega perto de você vai te fazer mal", descreve Marcia.

As buscas

Ainda na madrugada de sábado, a Polícia Militar encontrou o carro da motorista, um HB20 de cor branca. Os suspeitos acabaram perdendo o controle do veículo e batendo em uma árvore durante a fuga.

A PM informou que eles escaparam da cena por uma mata da região, deixando para trás a arma de fogo falsa usada no assalto e dois celulares, um deles o de Marcia.

Já na tarde de sábado, ao registrar outra ocorrência, a PM recebeu informações sobre o paradeiro dos suspeitos. Ao chegarem na casa de um deles, um adolescente, este confessou o crime e disse que agrediu a vítima e a jogou da ponte. Segundo as autoridades, os outros também confessaram.

Para a Polícia Militar, os suspeitos informaram que após jogarem a vítima da ponte, "com a intenção de matá-la", foram com o carro roubado até o município de Nova Olímpia (MT), onde roubaram uma relojoaria. Todos os envolvidos foram encaminhados para o CISC (Centro Integrado de Segurança e Cidadania).

Ao UOL, a Polícia Civil informou que os menores foram ouvidos na Delegacia de Tangará da Serra e depois autuados em flagrante por ato infracional análogo a roubo qualificado (tentativa de latrocínio), furto qualificado e associação criminosa.

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Marcia Angola tem 40 anos e atua como motorista de transporte particular em MT
Imagem: Reprodução/ Facebook

"O delegado plantonista, Rodolpho Garcia Bandeira, representou pela internação provisória dos quatro adolescentes à Justiça. Após anuência do Ministério Público, nesta segunda-feira, o juízo da 1ª Vara Criminal de Tangará da Serra decretou a internação dos quatro adolescentes, que aguardam vagas no Sistema Socioeducativo do Estado", disse o órgão por meio da assessoria.

"Fico com muito medo porque o intuito deles era me matar. Eles falaram que um deles já tinha feito viagens comigo. Talvez esse seria o motivo deles acharem que teriam que me matar, porque talvez eu teria reconhecido. Mas eu não sei quem é, não vi, eles estavam de máscara também", afirmou Marcia ao comentar sobre os adolescentes presos.

Ela afirma que está com medo de um novo ataque, como forma de represália, caso eles sejam soltos.

"Me vejo vulnerável e exposta, a qualquer hora eles podem chegar perto de mim. É um tormento também. Mas a gente tem que ter fé. Tenho filhos para criar, voltar para as minhas atividades e crer que não vai acontecer nada de ruim", conclui a motorista.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no texto, a motorista não atuava pelo aplicativo Uber. A informação, que foi passada pela Polícia Civil, foi corrigida.

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