PUBLICIDADE
Topo

Cotidiano

Militar com mesmo nome de suspeito descobre ser investigado após 12 anos

Sargento do Exército Danilo de Oliveira Silva é acusado de participar de um roubo em 2009, mas só soube da investigação 12 anos depois. - Arquivo Pessoal
Sargento do Exército Danilo de Oliveira Silva é acusado de participar de um roubo em 2009, mas só soube da investigação 12 anos depois. Imagem: Arquivo Pessoal

Daniele Dutra

Colaboração para o UOL no Rio

29/07/2021 04h00Atualizada em 29/07/2021 19h57

O sargento do Exército Danilo de Oliveira Silva, 32, descobriu só no momento em que foi denunciado pelo Ministério Público à Justiça que foi investigado durante 12 anos por um roubo que aconteceu em 2009, em um condomínio na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio.

A Polícia Civil chegou a ele após uma investigação que contou com testemunha citando suspeito com o mesmo nome dele mas com parentes diferentes, foto colhida nos registros do Detran e controvérsia entre as características do sargento e as dos criminosos. Das 9 pessoas ouvidas no inquérito, 4 não relataram detalhes físicos dos bandidos e 5 falaram que eles eram brancos ou pardos. Silva é negro.

O caso de Silva veio à tona após sua esposa, a psicóloga e empreendedora Débora Pacífico, compartilhar na quinta-feira (22) um vídeo que já possui mais de 80 mil visualizações. Nele, ela conta que a família está sofrendo problemas psicológicos e financeiros com a acusação, que classifica como falsa. Ao UOL Débora disse que a situação tem impactos na criação da filha recém-nascida.

Mesmo sabendo que ele é inocente, essa injustiça de certa forma implica alguns traumas em nossa vida. Temos uma bebê de nove meses e infelizmente não temos emocional suficiente para lidar com as demandas que ela necessita. É um dano irreparável, um momento que nunca poderá ser vivido outra vez. A cada dia que passa, ela cresce mais, aprende novas coisas, e infelizmente estamos perdendo"
Débora Pacífico

O crime do qual Silva é acusado ocorreu por volta da 1h20 de 9 de outubro de 2009. Três homens invadiram o edifício Estrela do Mar armados com revólver, granada e facão para realizar assaltos.

Funcionários foram rendidos e nove moradores tiveram as casas invadidas, pertences roubados e foram feitos reféns. Os criminosos roubaram dinheiro, celulares, relógios, notebooks, iPads e computadores de mesa. O assalto acabou quando um morador, que é policial federal, atirou contra o trio, que fugiu em um carro.

'Investigações nebulosas'

Os três deixaram um celular no local do roubo. Ao quebrar o sigilo telefônico, a polícia encontrou informações no histórico do aparelho. Chegou a Diogo Pantoja, que possui antecedente criminal — foi condenado por tráfico e receptação. Ele, porém foi tratado como testemunha, não suspeito no caso. Pantoia citou Bruno Leandro Chagas Velloso, conhecido como Bruninho G3 e que também foi indiciado pelo roubo. A polícia não esclarece nos autos como chegou ao nome de um terceiro suspeito, também indiciado. Das 9 testemunhas, 6 reconheceram os dois.

A reportagem do UOL buscou o contato da defesa das duas pessoas indiciadas com Danilo, mas até o momento a Justiça não os havia localizado. As investigações foram conduzidas pela 16ª DP, na Barra da Tijuca. Procurada pelo UOL, a Polícia Civil não respondeu até a publicação deste texto.

Pantoja disse ainda que Bruno tinha um primo de nome Danilo, que estaria preso por um crime cometido em outubro daquele ano. A polícia não encontrou antecedentes criminais do sargento do Exército, mas ainda assim o manteve como suspeito. Também ignorou outras incongruências. A testemunha citou que o Danilo é enteado de um homem identificado como Admes Nunes da Silva, que por sua vez seria cunhado de um criminoso conhecido como "Branco".

Silva, porém, não tem nenhum padrasto. Seus pais são casados e vivem juntos no mesmo endereço há mais de 29 anos. Além disso, os criminosos apontados na investigação seriam da Rocinha, comunidade da zona sul do Rio, enquanto ele mora na zona norte.

Mesmo assim, nove meses depois as vítimas fizeram o reconhecimento dos criminosos. Dos 9 moradores, 2 apontaram Silva como o responsável de dirigir o veículo e portar um facão. O reconhecimento não foi presencial, mas feito por meio de uma foto tirada dos registros do Detran (Departamento de Trânsito). Um dos moradores do condomínio que identificou o sargento não soube apontar na época do assalto as características físicas do assaltante.

"O fato é que as investigações para chegarem até o Danilo são nebulosas", diz Rafael Correia, advogado que defende Silva.

MP não faz juízo de valor

Em documento enviado ao juiz de direito da 29ª vara criminal, Correia levantou essas divergências para questionar o indiciamento de Silva. A promotoria de Justiça decidiu, porém, que os argumentos não são suficientes para interromper o prosseguimento da ação penal.

De 9 pessoas, 2 reconhecimentos é o suficiente. Para não ter denúncia é preciso de zero reconhecimento. Mas se teve, não compete a mim fazer juízo de valor. Isso vai para a vara criminal e lá que eles decidem fazer juízo de valor da certeza da conduta ou não"
Marcos Kac, promotor responsável pela denúncia do trio ao Tribunal de Justiça do Rio, em 5 de outubro de 2020

Silva responde ao processo em liberdade, mas diz que enfrenta problemas pessoais, financeiros e profissionais.

militar - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
O sargento do Exército Danilo de Oliveira Silva e sua esposa, a psicóloga e empreendedora Débora Pacífico, com a filha
Imagem: Arquivo Pessoal

Na época do crime, ele tinha outro emprego. "Eu trabalhava em uma padaria em Botafogo, não era carteira assinada. Foi o meu primeiro trabalho, tinha 20 anos. Não era sargento na época", afirma Silva ao UOL. Hoje, ele é militar do Exército Brasileiro e atua como sargento temporário desde de 2018. Devido ao processo criminal, ele pode ser desligado, ainda que, segundo o advogado, receba apoio no local de trabalho.

Problemas financeiros e psicológicos

No vídeo compartilhado nas redes sociais, a esposa de Silva diz que seu marido só foi chamado a prestar esclarecimentos em maio deste ano, quase 12 anos após o crime ter ocorrido.

"Nosso pesadelo começou quando o oficial de justiça nos tratou de forma terrível, como se fôssemos marginais. A mim ele disse que o assunto nem era comigo e para Danilo, falou que ele teria que provar que não era ele", disse Débora Pacífico.

"No início das investigações, os bandidos eram brancos e pardos, mas bastou a polícia encontrar um Danilo de Oliveira Silva que, de quebra, é preto, então só pode ser ele", desabafou.

Ao UOL Pacífico afirmou que, para pagar o advogado, pediram um empréstimo de R$ 10 mil. Fora isso, diz que todos da família estão "Emocionalmente abalados, assustados e com medo de algo pior vir acontecer".

"Aonde vamos, temos o receio de estarmos sendo olhado por alguém e com medo do que as pessoas podem estar pensando a respeito dele. Vamos iniciar essa semana um acompanhamento psicológico a fim de tentar minimizar os prejuízos causados", diz ela.

Cotidiano