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Conteúdo publicado há
2 meses

'Fui abordado por ser negro', diz homem obrigado a tirar a roupa em mercado

Simone Machado

Colaboração para o UOL, em São José do Rio Preto (SP)

10/08/2021 09h39Atualizada em 10/08/2021 15h13

O metalúrgico Luiz Carlos da Silva, de 56 anos, diz que ainda tenta entender o que aconteceu na noite de sexta-feira (6). Ele foi abordado ao sair de um supermercado, em Limeira, interior de São Paulo, e teve que retirar a roupa para provar que não estava furtando nenhum objeto do local.

A abordagem, classificada por ele como vexatória, foi filmada por diversos clientes do supermercado que se mostraram indignados com a exposição. O caso foi registrado na Polícia Civil no sábado.

Segundo o metalúrgico ele foi até o supermercado Assaí para pesquisar o preço de alguns produtos e voltaria ao local no dia seguinte com a esposa para fazer compras. Quando o homem estava deixando o estabelecimento sem adquirir nada e, consequentemente, sem passar pelo caixa, foi abordado por dois seguranças.

Eles foram truculentos, chegaram falando: 'tira, tira, porque tem coisa embaixo da sua roupa'. Mandaram eu ir para um canto e tirar a blusa de frio e depois a camiseta para me revistar. Eles falaram que eu estava escondendo algo, mas nem com bolsa eu estava"

No bolso da calça do metalúrgico estava apenas o celular dele e a carteira. "Quando viram que não tinha nada eles continuaram olhando desconfiados. Daí abaixei a calça para mostrar que eu não tinha nada escondido", relata Luiz Carlos.

A abordagem ao homem negro chamou a atenção de clientes que estavam no supermercado. Devido à aglomeração de pessoas diante da cena outros dois funcionários também foram ao local onde a abordagem foi feita na tentativa de esconder a cena e evitar que ela fosse registrada pelas pessoas.

Eles pediram para que eu fosse até uma sala reservada e eu falei que não iria. Porque vai que eles colocassem alguma coisa lá e falassem que eu havia roubado. Como eu ia provar que não. Por isso fiquei ali na saída do mercado mesmo"

Constrangido com a situação, o homem começou a chorar sendo amparado por clientes que presenciaram a cena.

"Eu fiquei desesperado. Tinha muita gente no mercado porque era dia de pagamento e muitas pessoas estavam saindo de lá sem comprar nada e o único que foi abordado fui eu", acrescenta o metalúrgico.

Após tirar a roupa e mostrar que não estava furtando nada, o homem foi liberado para deixar o local. O gerente do supermercado teria se oferecido para leva-lo para casa, mas uma cliente que estava no local, comovida com a situação, amparou o metalúrgico e o levou embora.

"Uma mulher que mora em outra cidade e eu nem a conheço veio me defender. Ela me acalmou e me levou para casa", diz Luiz Carlos.

Na manhã de sábado, após insistência dos familiares, ele procurou a Polícia Civil para registrar o caso, que vem sendo investigado no 1º Distrito Policial.

Vítima acredita em racismo

Para o metalúrgico a abordagem foi um ato de racismo e ele acredita que foi motivada também pela maneira com que ele estava vestido: com boné e blusa de frio.

Luiz Carlos relata ainda que essa foi a primeira vez que esse tipo de situação aconteceu com ele.

"Foi a primeira vez que aconteceu isso na minha vida. Eu não preciso roubar nada de ninguém, eu trabalho e não preciso disso. A gente vê essas coisas na televisão e pensa que é mentira, mas acontecem mesmo", acrescenta.

Rede atacadista demite segurança

Em nota a rede Assaí Atacadista, "se desculpou pela abordagem indevida" e disse que o funcionário envolvido, antes já afastado do supermercado, foi desligado da empresa hoje.

"A companhia recebeu com indignação as imagens dos vídeos e se solidariza totalmente com o cliente. (...) A companhia também entrou em contato com a família do cliente, tão logo soube do ocorrido, se desculpando e se colocando à disposição para qualquer necessidade que ele tenha. Outras providências necessárias serão tomadas tão logo a investigação estiver encerrada. O caso deixa a companhia certa de que precisa reforçar ainda mais os processos com a loja em questão e todas as demais", afirmou a nota.

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