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Cotidiano

Escolta de prefeito agiu certo ao reagir com tiros e matar assaltante?

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

02/09/2021 04h00

Especialistas em Segurança Pública ouvidos pelo UOL analisaram a postura de dois policiais militares à paisana responsáveis pela escolta da família de Ricardo Nunes (MDB), prefeito de São Paulo, que mataram um homem ao reagirem ontem a uma tentativa de assalto no bairro do Socorro, na zona sul da cidade.

A pedido da reportagem, eles avaliaram a conduta dos agentes com base em dois vídeos de câmeras instaladas em frente ao local. O assaltante que desceu da garupa de uma moto armado para anunciar o assalto foi atingido. O comparsa dele, que conduzia o veículo, conseguiu fugir, mas, segundo a polícia, foi identificado. Nenhum policial se feriu na ação.

Doutor em psicologia pela USP e aposentado da PM-SP (Polícia Militar de São Paulo) há nove anos, o tenente-coronel Adilson Paes de Souza vê erros na ação do agente à paisana que estava ao volante no momento da tentativa de assalto.

Após a reação da policial militar, que disparou, o criminoso aparece nas imagens correndo em fuga. As imagens mostram então o outro agente desembarcando do volante do veículo para atirar contra o criminoso, que estava de costas.

Ele disparou pelas costas. Isso é vedado nas normas de procedimento da própria PM. O objetivo do uso da arma de fogo é o de legítima defesa. Não há amparo legal para defender esse tipo de postura
Adilson Paes de Souza, tenente-coronel da PM aposentado

Ele também criticou o procedimento de segurança adotado pela equipe de escolta do prefeito. Nas imagens, a agente aparece na calçada ao lado do carro, estacionado junto ao meio-fio e com a porta aberta. Ela aparentava olhar para o celular quando os assaltantes a bordo de uma moto anunciaram o assalto.

"Também vi falha nesse procedimento. Eles [agentes à paisana] estavam em um veículo oficial, cumprindo uma missão. O outro policial não poderia estar ao volante. Ele deveria estar do lado externo, atento à movimentação da rua para dar cobertura à colega", critica o tenente-coronel aposentado.

Capitão veterano do Bope, a tropa de elite da PM-RJ (Polícia Militar do Rio), o antropólogo Paulo Storani faz outra avaliação da conduta adotada pelos agentes. "O procedimento de escolta está correto. Ela estava do lado externo, aproveitando a estrutura do veículo para se proteger. O outro agente agiu certo ao permanecer dentro do carro", avalia.

Embora concorde que o policial não pode atirar em um homem em fuga, Storani argumenta que o criminoso estava armado e poderia oferecer algum tipo de risco. "Realmente, o motorista efetuou os disparos. Mas o foco era no criminoso, que ainda estava armado, representando risco para as pessoas. Ele estava fugindo, mas a ação foi muito rápida", argumenta.

Ele não descarta ainda a possibilidade de disparos feitos pelo assaltante em fuga. "Em alguns casos, o criminoso em fuga corre atirando para diminuir a possibilidade de perseguição. Agora, resta saber de onde partiu o disparo que tirou a vida dele. Isso só será definido pelo exame de corpo de delito", diz.

Como está a investigação do caso

A Polícia Civil apreendeu a moto usada no crime e agora tenta localizar o comparsa do assaltante morto. O jovem de 20 anos, que não tinha antecedentes criminais, é considerado foragido. O homem morto ainda não foi identificado oficialmente.

O delegado Fábio Baena Martin, da Cerco (Central Especializada de Repressão a Crimes e Ocorrências Diversas), responsável pela investigação, não vê ilegalidade na ação.

"As imagens não mostram se o homem estava atirando. Ainda que em fuga, ele estava armado. A conduta dos policiais é típica de legítima defesa, prevista pelo Código Penal. Mas todos os fatos serão analisados pela Polícia Civil", argumenta o delegado.

Agora, a Polícia Civil aguarda pela chegada dos laudos técnicos e faz diligências para identificar testemunhas.

Como foi a ação

O episódio ocorreu por volta das 6h15 de ontem na altura da rua Professor Francisco Maffei, quando o veículo dos PMs estava estacionado junto ao meio-fio. Os agentes em um veículo descaracterizado iriam até a casa do prefeito para buscar a filha dele e levá-la à escola.

As imagens mostram uma policial militar à paisana na calçada ao lado do veículo, que estava com a porta do carona aberta enquanto aparentava olhar mensagens no celular. Em seguida, o assaltante desembarca da garupa de uma moto e aponta uma arma na direção dela.

Ela retira a arma da cintura e dispara duas vezes contra o assaltante. Em seguida, o outro policial que estava na direção desce do carro e dá outros dois tiros na direção do assaltante, que morreu no local.

Em vídeo de câmera de segurança que registrou a ação por outro ângulo, é possível ver o assaltante em fuga após os disparos dados pela agente. Ele corre na contramão da via, enquanto o seu comparsa foge na moto. A imagem mostra então o outro policial atirando e, em seguida, correndo em direção ao local onde o bandido caiu. Em seguida, os agentes voltam ao veículo e deixam o local, conforme mostra o vídeo.

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