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'Inocentes': famílias contam histórias de 3 mortos na Vila Cruzeiro

Vila Cruzeiro: famílias contam histórias de 3 mortos na chacina

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

27/05/2022 04h00

Brutalmente impactadas pela chacina que matou ao menos 23 pessoas durante operação policial nesta terça-feira (24) na Vila Cruzeiro, zona norte carioca, famílias de três dos mortos alegam inocência e pedem por justiça.

A operação é uma das três mais letais da história do Rio de Janeiro, atrás do massacre de maio do ano passado na favela do Jacarezinho, com 28 assassinatos, e faz parte da lista de 40 chacinas em apenas um ano de gestão do governador Cláudio Castro (PL), segundo levantamento obtido pelo UOL. Em janeiro de 1998, outra operação policial resultou em 23 óbitos em Duque de Caxias.

João Carlos Arruda Ferreira, 16, foi visto pela última vez quando estava em uma manifestação de moradores justamente pedindo pelo cessar-fogo na operação policial. Douglas Costa Inácio Donato, 23, era ex-militar da Marinha e deixou um filho de apenas dois meses.

Já o mototaxista Ricardo José da Cruz, 27, que havia se mudado de Vigário Geral para a região recentemente, era casado e tinha três filhas pequenas. Morador da Penha, o ativista Renê Silva compartilhou em seu perfil no Twitter um vídeo em que Ricardo aparece cantando no período em que trabalhava como vendedor ambulante em meio ao tráfego de veículos na avenida Brasil.

Os corpos dos três foram encontrados em uma área de mata na Vila Cruzeiro. Em cima do caixão de Ricardo, enterrado ontem à tarde no cemitério do Irajá, havia uma bandeira do Flamengo. Ao redor, mais de 20 motos. "Eu só quero é ser feliz. Andar tranquilamente na favela onde eu nasci", cantavam parentes e amigos.

"Bom demais pra morrer assim, mano!", lamentou uma das vozes em meio à comoção.

Após o enterro, houve um breve momento de silêncio, sutilmente interrompido pelo choro de quem permaneceu por ali. "Volta pra casa, meu amor! A gente tá te esperando", repetia a esposa do mototaxista.

"O moleque era bom, era trabalhador. Veio para a Penha porque queria ter uma vida melhor e olha o que aconteceu", lamentou o mototaxista Vitor Alves, 26.

Segundo testemunhas, ele foi encontrado em uma área de mata com um ferimento causado por um tiro. Ricardo chegou a ser levado ao Hospital Getúlio Vargas, mas não resistiu.

'Filho de ouro'

O corpo do ex-militar Douglas Costa Inácio Donato foi enterrado ontem à tarde no cemitério de Inhaúma. "Se pudesse, eu daria a minha vida para que o meu filho pudesse estar aqui hoje. Ele era um filho de ouro", desabafou Patrícia Costa, mãe de Douglas, durante o sepultamento.

Ela ainda revelou ter sonhado com a morte do filho há cerca de um mês. "Contei o sonho pra ele. Aí, ele riu e falou assim: 'eu sei me cuidar'. Espero que Deus me dê força. Porque sozinha, não consigo".

Segundo parentes, ele voltou de moto de uma festa na madrugada da operação policial, quando desapareceu. O corpo de Douglas foi encontrado horas depois com marcas de tiro em uma área de mata. A mochila e os pertences dele estavam rasgados, informaram testemunhas.

'Meu irmão não era bandido'

O mototaxista Washington Patrício Ferreira, 29, chorava ontem de manhã sentado na escada que dá acesso ao IML (Instituto Médico Legal), onde aguardava pela liberação do corpo do irmão João Carlos Arruda Ferreira, 16, que cursava o 6º ano do ensino fundamental. O corpo dele foi enterrado mais tarde no Cemitério do Caju.

"Meu irmão morreu com facada, não foi de tiro. Tinha 16 anos, o rapaz estudava. Não era bandido. Mas todo mundo na comunidade é tratado como se fosse".

"É mais uma vítima dessa guerra sem fim. E nós estamos aqui pra enterrar mais um irmão", completou Vanessa Silva, 35, tia de João Carlos.

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