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'O carcereiro era eu', afirma, em resposta a Dilma, diplomata que cuidou de senador boliviano

Alan Marques/ Folhapress
O diplomata Eduardo Saboia, que foi afastado da Embaixada do Brasil em La Paz após a fuga do senador Roger Pinto Molina Imagem: Alan Marques/ Folhapress

Guilherme Balza

Do UOL, em Brasília

27/08/2013 14h46

O diplomata Eduardo Saboia, responsável pela fuga do senador boliviano Roger Pinto Molina ao Brasil, afirmou nesta terça-feira (27), em resposta à presidente Dilma Rousseff, que só ele tinha ciência das condições vividas pelo parlamentar nas dependências da Embaixada do Brasil em La Paz.

Após visita ao Congresso na manhã de hoje, a presidente comentou, pela primeira vez, o episódio, que provocou a saída de Antonio Patriota do comando do Itamaraty --Luiz Alberto Figueiredo irá substituí-lo. Dilma rebateu a declaração de Saboia, que afirmou, em entrevista exibida pelo Fantástico, da Rede Globo, no domingo (25) se sentir como se estivesse um DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) ao lado de sua sala, em referência ao espaço ocupado pelo senador.

“Nós não estamos em situação de exceção. Não há nenhuma similaridade. Eu estive no DOI-Codi, eu sei o que é o DOI-Codi. E asseguro a vocês que é tão distante o DOI-Codi da embaixada brasileira lá em La Paz (Bolívia) como é distante o céu do inferno", afirmou a presidente durante entrevista coletiva.

Dilma: 'DOI-Codi é tão distante da Embaixada brasileira como céu é do inferno'

O DOI-Codi era o aparelho do Exército responsável pelas prisões de opositores da ditadura militar. Centenas de ativistas, como Dilma, foram torturados e mortos nas dependências do órgão ao longo do regime.

“Eu que estava lá, eu que posso dizer. O carcereiro era eu. Ninguém mais viu aquela situação. Foi uma decisão pessoal”, afirmou Saboia, em entrevista por telefone ao UOL logo após a declaração da presidente. O diplomata está afastado de sua função até que seja concluído o inquérito administrativo aberto pelo Itamaraty para apurar o caso.

Na entrevista, Dilma, ao se referir à fuga, qualificou como inaceitável submeter um asilado aos cuidados do Brasil ao risco. Para Saboia, o senador boliviano corria risco se permanecesse dentro da embaixada. “Poderia ter acontecido alguma coisa se ele ficasse lá, certamente. Se ele se matasse, entrasse em estado de surto psicótico”, afirmou o diplomata.

Saboia afirmou ainda que somente ele poderia tomar alguma atitude com relação à situação de Molina. “São situações especialíssimas, que não tem como você transmitir [as decisões] a outra pessoa. Eu sei o que foi ver a pessoa naquele momento, e eu fiz uma opção.”

Após ganhar exposição ao assumir que conduziu a fuga, Saboia afirmou que pretende ficar recluso e preparar sua defesa junto ao ministério. “Meu objetivo é passar pelo processo administrativo. Já fiz o que tinha que fazer. Só quero tocar minha vida, não tenho aspiração política alguma”, disse.

Questionado pela reportagem, o diplomata reafirmou que o Itamaraty não tinha ciência da fuga, mas também “não tinha instrução em contrário.”